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domingo, 18 de março de 2012

Esta noite em Samarcanda

Talvez por vontade do destino, já tropecei três vezes nela. Não interessa se na história original se trata de um rei, de um príncipe ou de um califa, nem se o outro personagem é um cavaleiro, um jardineiro ou um grão-vizir. Na praça de uma cidade, um cavaleiro vê a morte fazer-lhe um sinal e aterrorizado, vai ter com o rei, pedindo-lhe emprestado o mais veloz dos seus cavalos, para que possa fugir para bem longe, até Samarcanda. O rei convoca a morte ao palácio para lhe perguntar porque assustou o seu cavaleiro. E a morte, surpresa, responde-lhe: "Não lhe quis meter medo, mas espantou-me vê-lo aqui, sabendo que esta noite temos encontro marcado em Samarcanda”. Sedutora história, esta, em que o destino é aquele que escolhe em nosso nome. O rei tem o poder de convocar a morte e pedir-lhe satisfações, como se não a temesse. Mas a poderosa morte, aqui disfarçada de figura humana, também não sabe tudo. Não sabe, por exemplo, como se chega até ela - também precisa da cumplicidade dos vivos. O cavaleiro dá ao gesto da morte um sentido que ele não tinha, para que o destino seja corrigido e se cumpra. Caminha na sua direcção, convencido de que lhe está a fugir. O destino é mais teimoso e menos impaciente do que qualquer humano e prefere, por vezes, o caminho mais longo. Não vai pela auto-estrada, porque conhece os encantos das estradas secundárias.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Uma espécie de vitória


Pensamos sempre na morte como uma derrota, mas também é verdade que a morte dá poder a quem perde a vida: uma espécie de vitória (amarga) sobre a derrota.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Skullbook

Se os vivos têm o Facebook, como se chamará a rede social dos mortos?

domingo, 10 de janeiro de 2010

O carteiro dos mortos

Neste blogue de tendências mórbidas, a autora escreve cartas quase telegráficas e em fundo negro a pessoas mortas e cujos nomes foram sugeridos pelos leitores, as queridas pessoas vivas. Kurt Cobain, Sylvia Plath, Sócrates, Albert Camus, Lewis Carroll, Galileu, Van Gogh, Jack Kerouac e Dostoiévski, este último com erro ortográfico, são alguns destinatários destas cartas sem envelope, morada ou selo. Qual será o código postal do país dos mortos?

http://letterstodeadpeople.tumblr.com/

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O coração sem casa

Não deve ser por acaso (nada é por acaso) que pudor rima com dor. Apesar de ser universal, a dor é egoísta. Ninguém pode sentir a minha dor por mim. Então, e perante esta certeza, sobram as perguntas. Como se mede ou pesa a intensidade do luto? Como se espreita a morte nos olhos do outro? Como se vê o negro invisível que lhe veste a alma? Escrito sem a anestesia do tempo, em carne viva e apenas almofadado pelas palavras, o Diário de luto, agora editado pelas Edições 70, sobreviveu mais de 30 anos à morte do seu autor, que apenas sobreviveu 2 anos e meio à morte da sua mãe. Foi em 25 de Outubro de 1977 que Roland Barthes começou o seu Diário de luto, um dia depois da morte da sua mãe, a quem ele trata carinhosamente por mam. Sabemos que tudo aquilo não foi sentido e escrito por um personagem de romance (como o autor nos pedia para lermos o seu Roland Barthes por Roland Barthes), daí o pudor de ler a dor do outro. O Diário de luto recorda-nos que o luto é diário. A vida encarrega-se de nos ensinar que ele não termina, talvez porque ela própria continue indiferente, embora diferente. Ao longo dos dias e das páginas do livro, o autor é confrontado com o carácter iniciático de cada experiência, de cada gesto, agora numa nova ordem cronológica. Tal como a vida, a morte traz o simbolismo da primeira vez e a sua asa negra ensombra todos os dias do calendário. O luto escreve-se na simbologia das datas. É a primeira noite de luto, o primeiro domingo, o regresso à casa vazia, o primeiro dia de aniversário (12 de Novembro) do autor, a primeira neve em Paris sem a presença da mãe, o começo do segundo luto, depois de voltar a mexer nas suas fotografias, até que as novas vivências cumprem o ciclo do primeiro aniversário da sua morte e culminam com o receio de que ela morresse uma segunda vez. A dor das estreias será substituída pelo receio da repetição. Ao longo dos dias, a descoberta da banalidade no seu “luto caótico” traz-lhe um novo olhar sobre o apartamento onde vivia, as pessoas na rua, a ida à pastelaria, a repetição de rituais quotidianos sem a presença da sua mãe. O mundano amplia o luto, ele próprio uma lente que olha para o mais irrelevante pormenor do silencioso quotidiano, até o tornar do tamanho do mundo. Esta solidão definitiva alterna com momentos de distracção e traz a infelicidade à dor, a culpa à distracção e o preto a todas as cores. O ser que morre não se torna apenas invisível, ele torna-se mudo e Roland Barthes descobre a sua surdez localizada, por já não ouvir a voz da mãe, de quem tratou nos últimos meses de vida (e que se tornou toda a vida transparente para que ele pudesse escrever). Seria ela sua mãe ou sua filha? O luto é um caminho: “caminho como posso através do luto”. O luto é um país raso e desolado, onde os momentos de desejo de viajar ou de escrever emergem, anacrónicos e em baforadas, do pais do antes. O luto é “a ausência de refúgio no imaginário” para o seu desgosto caótico e errático, que por isso não se gasta. Talvez a palavra luto seja uma expressão demasiado psicanalítica, daí que o autor escreva: “Não estou de luto. Tenho dor” e confesse que escreve “para combater a dilaceração do esquecimento”. O luto é uma ferida, “a presença da ausência”, a solidão de não ter ninguém em casa a quem se possa dizer a que horas se regressa. As viagens e a vida no exterior fazem-no sofrer muito mais, daí o desejo de voltar para casa, mesmo sabendo que ela não está lá, nem que seja para habitar o seu desgosto e evitar que as flores murchem. O desgosto torna-se cada vez menos escrito, porque ganhou a condição de eterno. Uma pergunta, sem esperança de resposta, datada de 28 de Novembro, resume a culpa de quem sobrevive à morte do outro: “Poder viver sem uma pessoa que amávamos significa que a amávamos menos do que julgávamos”? É isso o luto: viver uns dias como se estivéssemos mortos, outros espantados por termos voltado a viver (a rir, a comer, a ter preocupações mundanas e fúteis, em suma: a esquecer), mas ainda e sempre com um medo retrospectivo do que aconteceu. Talvez não se deva lutar contra o luto. Estar de luto é deixar de procurar o amor de quem morreu e aceitar que o mundo será para sempre imperfeito. É fechar uma porta para a luz e descobrir que não há lugar onde o coração se possa sentir em casa.

Roland Barthes, Diário de luto, Edições 70, Outubro de 2009, 18 €

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

The Hungry Eye # 25

Quando olhamos para a fotografia de alguém que já morreu (mesmo sabendo que todos os seres fotografados, sem excepção, pagam com a morte o preço da imortalidade nesse preciso instante em que o fotógrafo dispara, não a bala de uma arma, mas o botão de uma máquina de fotografar) é como se no momento da fotografia, às vezes tirada décadas antes, já estivessem mortos. Como se eles já estivessem mortos mesmo sem o saber. Como se nós já não os conseguíssemos imaginar vivos em nenhuma idade, depois de os sabermos mortos. Ver uma fotografia de um ser morto é como ler um livro detrás para a frente. A última página explica e justifica tudo o resto, sobrepondo-se a todas as outras em verdade. Apesar de, numa fotografia, sermos sempre a ficção de alguém.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Fotografias por domesticar

Em todas as casas, em todas as vidas, há imagens que se encontram domesticadas. São fotografias em família, da infância e até de seres num tempo em que ainda não existiam na nossa vida. Podem estar geometricamente dispostas em molduras em cima do piano negro, encarquilhadas na parede rugosa da sala ou até guardadas num álbum, embora regra geral estejam sempre à vista e façam parte da paisagem doméstica. Por mais nitidez que conservem, foram desbotadas pelo tempo e retocadas pela memória. Mas isso nem sequer nos importa. Já as vimos tantas vezes que as saberíamos descrever de olhos fechado. Tal como as conseguimos ignorar de olhos abertos. Estão domesticadas pelo chicote do tempo e amaciadas pelo bálsamo do olhar. A função destas duas lentes? Protegerem-nos de acessos de ligeira melancolia ou profunda tristeza, ao contemplar estas vidas já desaparecidas. Mas se por acaso os olhos descobrem, em sincronia com as mãos, uma fotografia há muito não tocada (pode ser na página 67 de um livro de Nietzsche, nas arrumações das gavetas da escrivaninha de cerejeira ou numa pasta de enigmático nome no desktop do computador), é provável que essa visão rasgue o nosso coração. A memória adormecida tinge-se de sangue, ganha cheiro e começa a espreguiçar-se qual felino predador. Os seres fotografados saltam das imagens para a vida em câmara lenta, rompendo uma imobilidade ensaiada durante anos. E isso é quase tão chocante com ver um morto a atravessar a rua diante dos nossos olhos ou irmos contra ele ao virar da esquina. Logo nós, que até assistimos ao seu funeral e desde então choramos baixinho a sua ausência. As fotografias não deviam aparecer sem bater à porta. Será que não sabem como o tempo magoa os olhos que as mãos escondem?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Alice # 17 / A morte

A morte obriga-nos a crescer, de repente. Porque para os que continuam vivos, a morte também tem algo de definitivo: temos de aprender a viver de novo. Como se regressássemos à primeira classe e nos pedissem para fingir que não sabemos fazer contas complicadas, falar francês, escrever palavras como "oxímoro" ou "telúrico"e tudo o que fomos aprendendo pelo caminho. A morte pede-nos para fingir. Porque só assim a vida pode continuar suportável. A morte lembra-nos todos os dias que a nossa infância não mais será o que foi. Seja qual for a nossa idade. E ainda nos pede para termos muito cuidado com a palavra "saudades". É que só se podem matar saudades de seres vivos. Os que vivem dentro de nós e são invisíveis para o mundo, habitam, incansáveis, o espaço onde a saudade nunca se poderá sentar. Não fosse ela lembrar-se de começar a ganhar corpo.