quinta-feira, 29 de abril de 2010

Greguérias # 144 / O mundo

O mundo é o berlinde de Deus.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Batota ontológica

Sempre que se fotografa a si próprio, tornando-se simultaneamente sujeito e objecto, o fotógrafo faz uma espécie de batota ontológica. Embora o olhar e a pose coincidam no jogo do auto-retrato, o eu acredita que é o outro. É o Narciso que não se reconhece no reflexo da imagem que obedece à visão interior.

domingo, 25 de abril de 2010

O fotógrafo sonâmbulo

Talvez haja, algures no mundo, um fotógrafo sonâmbulo. Em certas noites, de olhos fixamente abertos, poderia percorrer a casa e tirar fotografias. Ou então, e porque estava a dormir, teria acesso a algo quase inimaginável: fotografar os seus sonhos. Em ambos os casos, de nada se lembraria pela manhã, quando os primeiros raios de sol o despertassem a ele e à máquina fotográfica dormindo a seu lado.

sábado, 24 de abril de 2010

O melhor esconderijo

Tirando os sonhos de uma menina, o melhor esconderijo para o Cheshire Cat continua a ser a sua cabeça louramente sonhadora.

Greguérias # 144 / Os braços

Os braços são asas demasiado cansadas para voar.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A fotogenia

A fotogenia alimenta um curioso equívoco: parece ser a grande reveladora de uma beleza escondida, quando, pelo contrário, é a inesperada criadora de uma beleza inexistente. A fotogenia não descobre uma imagem; inventa-a. Diz à cópia: és (ainda) mais bela do que o original.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O espelho

O sonho secreto do espelho era ser uma porta. Assim, podia mostrar tudo o que acontece do outro lado.

Voyeur do invisível

O fotógrafo é um grande voyeur. Ponto final. Deve ser por isso que espreita o mundo, o outro, as paisagens e os rostos com um olho fechado, como se espreitasse o buraco de uma fechadura. E para não ver pela metade, pede um olho mecânico emprestado, ao qual não pára de exigir que veja cada vez melhor. É um voyeur do mundo e de si próprio, do visível e do invisível. Quer ver melhor, para ver mais e até ver aquilo que apenas imagina. Quer ver o nunca visto. E leva o seu voyeurismo ao paroxismo de querer fotografar o que não vê.

The Hungry Eye # 45

Quantas vezes, de máquina fotográfica na mão, o fotógrafo não deseja ser invisível, esquecido de que a máquina o trairia?

domingo, 18 de abril de 2010

The Hungry Eye # 44

O fotógrafo é aquele que desistiu de pintar e começou a desenhar com luz.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

The Hungry Eye # 43

Talvez o fotógrafo queira ver apenas meia realidade.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

The Hungry Eye # 42

Depois da sua mulher morrer, Nobuyoshi Araki fotografava o céu, visto da varanda de casa. Acreditava que o rosto dela ia aparecer ali, algures entre as nuvens.

The Hungry Eye # 41

O rosto é a chave do corpo.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

The Hungry Eye # 40

Se a fotografia não tivesse sido inventada, como poderíamos existir a preto e branco?

terça-feira, 6 de abril de 2010

The Hungry Eye # 39

Quem se expõe mais numa fotografia: o fotógrafo ou o ser fotografado?