sexta-feira, 3 de julho de 2009

The Hungry Eye # 14


In almost every picture # 2
Esta é a estranha colecção de fotografias de um taxista holandês que transportou no seu Mercedes uma mulher no banco do lado. O taxista fotografa o táxi e a sua passageira. Ela é sempre a mesma passageira, mas sempre em paisagens diferentes. O livro progride com a quilometragem no conta-quilómetros. Ela faz parte do carro e o carro faz parte da paisagem. A natureza bruta revela-se nas paisagens tristes e dramáticas, com rochas, escarpas, árvores despidas e terras áridas. Em várias fotografias vemos o que ela vê de costas. Em muitas, o táxi está parado na berma das estradas. Por vezes, a porta do lado dela está aberta, apesar dela não se poder levantar e andar. Noutras, é a janela que está aberta e ela espreita, com um sorriso de fadiga, a despedida do sol ou a chegada do vento. De quando em quando, aparecem outros carros nas fotografias. Há duas fotografias ao tabelier do táxi, na certeza de que ela estava ao lado dele, quando as fotografias foram tiradas. Há o inesquecível rosto dela na escuridão do carro e da noite, sentada no seu lugar. Há nevoeiro e o pôr do sol que incendeia o carro de luz. As cores nítidas do mar e as cores deslavadas da paisagem coberta de neve. Como se houvesse uma meteorologia do seu estado de espírito, com correspondência nos décors exteriores. Às vezes, ela parece ser apenas uma sombra no vidro, um reflexo pouco nítido da mulher que gostaria de ter sido. O táxi tem a característica de um camaleão e absorve as diferentes paisagens, nestes detalhes de uma cumplicidade a dois escolhidos, iluminados e fixados por este fotografo amador. Juntos, viajaram pela Alemanha, França, Suíça e Áustria. No início do livro, a matrícula do Mercedes é 20-78-VT. A partir do quilómetro 06911, o táxi continua a ser um Mercedes, mas a sua matrícula é 14-81-PZ. Finalmente, no quilómetro18 003, o próprio fotógrafo foi fotografado e ficámos a conhecer o taxista que era os pés, as pernas e até os olhos desta mulher. Ao longo destes 18 mil quilómetros de solidão, testemunhámos a impotência de uma mulher em andar pelos seus próprios pés. Mas a sua vontade de conhecer mais do que as paredes da casa e a paisagem que via pela janela determinaram esta longa viagem. Quase como se fosse ela que conduzisse o carro - e não era? Não era a sua vontade e as suas ordens que determinavam o percurso e o destino? O taxista tem duas amantes - o seu carro, "a noiva mecânica" e a sua passageira constante. Não será o fotografo amador precisamente aquele que ama o ser que fotografa? Ela nunca saia do carro porque não podia sair, devido à sua deficiência física. Pelas fotografias, até parece que nunca saia de lá, que viva nesse lugar, o lugar do morto, talvez o único onde se sentisse realmente viva. Mas devia dar trabalho. Devia custar muito, aos dois. E o carro parava por que motivo? Para ele descansar? Para ela admirar a paisagem? Ou, muito simplesmente, para ele a fotografar? Ou para ela se imaginar nas fotografias enquanto admirava as paisagens? E quem terá tirado a fotografia do taxista? Ela própria? O livro é dedicado à memória do taxista e fotógrafo A.J. Paetzhold (1924 - 1995). E se ele morreu, quem é que a leva agora a ver o mundo? O fotógrafo teve uma necessidade obsessiva de fixar a paisagem e oficializar as memórias da passageira num lugar distante de casa. Viajaram juntos durante muitos anos, criaram um relacionamento e, de vez em quando, o condutor parava para tirar uma fotografia e registar oficialmente a sua existência. Como escreve o credactor Tyler Wisnand, na última e única página com texto, "como que a dizer: Eu estive aqui, por causa desta passageira. E estou aqui por causa deste carro. Deste táxi. Vocês têm de acreditar em mim. Foi aqui que estivemos". E assim, vai-se descobrindo um pequeno caso de amor que aconteceu "enquanto nós estávamos adormecidos pelo movimento da nossa vida". Nesta história comovente, em que o carro, o taxista e a passageira estão sempre a caminho, em busca de si próprios.

Texto publicado na revista Alice, no Verão de 2005