terça-feira, 30 de março de 2010

As lágrimas

As personagens literárias estão expressamente proibidas de chorar. Já imaginaram o que era, as palavras começarem a desbotar, a escorrer tinta para a linha de baixo e a desaparecerem no fundo da página, transformadas num ténue fio de tinta de cor variável, diluindo o seu sentido em forma de lágrima na palma da mão do leitor? Talvez seja essa a grande diferença entre leitores e personagens literários: uns choram, outros não.

Chat ou chá?

Não lhe basta fazer perguntas indiscretas e desaparecer, sem um gesto cerimonioso. O gato de Cheshire também gosta de aparecer discretamente no centro de uma festa, enroscado em forma de bule de chá. Por isso, já sabem: sempre que vos servirem chá num bule cor de laranja, não se admirem se dele escapar uma daquelas perguntas que deixaria mesmo um mestre zen sem resposta, por mais chávenas de chá que esvaziasse.

Os gémeos

Não é quando se assemelham que os gémeos confundem o mundo. É quando se distinguem, quer seja em pequenos pormenores, como em grandes contradições. Os gémeos confundem-nos quando fazem afirmações contrárias, apontando o seu discurso em direcções opostas. É demasiado fácil reconhecer as evidentes semelhanças. Difícil, é decidir a validade das obscuras diferenças. Ou seja, em qual dos gémeos acreditar?

The Hungry Eye # 38

Há olhares que saltam para fora da fotografia.

sábado, 6 de março de 2010

Cinema Maravilha

Acto mágico de fabricar pedaços de imagens e juntá-las. Os primeiros passos do cinema não são muito diferentes dos primeiros passos de uma criança que aprende a andar e a descobrir o mundo e o seu lugar nele. Primeiros passos feitos de saltos, cortes, pequenas quedas, joelhos esfolados, a decisão de rir do susto de cair em vez de chorar, o espanto de quase existir. A celebração da imagem diante dos nossos olhos. A negação da cegueira. O festim do sonho. Imagens com vida própria, projectadas na parede como um sonho a preto e branco (ninguém pode garantir se sonhamos a cores ou a preto e branco, ou de ambas as formas). Uma criança com mais de 120 anos finge ser a primeira Alice do cinema. Um gato verdadeiro, gordo e aristocrático, aparece em cima da árvore sem ter frequentado aulas de rir, talvez ruivo, felinamente alheio à história, numa árvore quase ao alcance das mãos curiosas de Alice. Efeitos sonoros exteriores ao próprio filme, que os personagens não conseguem ouvir - o cinema mudo é sempre surdo. Um desfile de espectros, seres que pela matemática do calendário estão todos mortos, embora se continuem a mexer. Palavras que se não se fixam, como se hesitassem acerca do seu lugar, nem se ouvem, porque não têm voz. Um homem-coelho mais homem do que coelho, Alice cada vez mais Alice, a crescer, Alice a encolher sem perder letras no seu nome, palavras mais firmes, um cenário teatral, o cinema ainda disfarçado de teatro, preso ao sonho do palco, imagens incompletas tapadas por uma cortina volátil, o dramatismo a preto e branco das teclas do piano. O cinema ainda perto da fotografia, o cinema como fotogramas animados, coreografias de papel perseguidas por labaredas de luz a comer pedaços da imagem. Imagens que lembram folhas amachucadas que se desembrulham e alisam, sem nunca perderem os vincos, fantasmas no jardim que se alimentam da imaginação, a festa do chá com imagens desbotadas, como se o Chapeleiro Louco tivesse entornado chá em cima da película. Um interminável desfile de crianças-cartas (o que terão elas achado de tudo isto, as crianças de carne e osso?), uma legião de corações, seres com 3, 5, 8, 9 ou mesmo 10 corações, crianças de copas vermelhas a preto e branco para servir uma jovem rainha irada, o despertar de Alice no momento em que acredita que tudo não passou de um sonho. A inevitável solidão dos sonhos, condenados a apenas um sentido, a visão, incapazes de ser ouvidos (mesmo quando descrevemos um sonho a outra pessoa, ela nunca o conseguirá ver), tocados, saboreados ou inspirados em busca de um cheiro, na verdade condenados à falta de sentido. As limitações da tecnologia, que só existem no olhar do tempo. Nos primeiros anos do século XX, este filme de pouco mais de 9 minutos era talvez uma longa-metragem e o equivalente ao nosso 3 D de agora, em que até precisamos de uns óculos (ou serão olhos?) suplementares para o ver melhor. Esquecidos de que um sonho só se torna real quando é sonhado.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Palavras começadas por chá

Sem consultar o dicionário. Com ou sem acento. Algumas a pedir assento. Obedecendo a esta lógica: a palavra apanhada traz outra pela mão, segurando-a como se segura uma chávena de. Chá. Champagne. Champignon. Chapéu(de chuva?). Chaleira. Chaminé. Chama. Chávena. Chave. Chão. Cha-cha-cha. Charuto. Chauvinismo. Chatice. Chapada. Chakras. Chamuças. Charcutaria. Chantilly. Chanfrado. Chapeleiro.