Ensina-nos a lógica que uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo, ou seja, ser e não ser em simultâneo. O princípio do terceiro excluído elimina de modo implacável a possibilidade de uma terceira resposta, ignorando uma aparente contradição e empobrecendo o sentido das coisas. Diz-nos o historiador que a verdade e a mentira têm nuances e aceita uma verdade contaminada pela mentira. Como esta: um documento sobre o século XII, falsificado no século XIII, é um falso documento sobre o século XII, mas um verdadeiro documento sobre o século XIII.
sábado, 12 de maio de 2012
domingo, 6 de maio de 2012
Mona Lisa à janela
Da esplanada do velho café de bairro, saboreando um chá de limão com direito a bule e a vapor, vi do outro lado da rua uma mulher à janela, que tinha atrás de si uma paisagem na parede. Era a Mona Lisa, na sua pose estática, como se estivesse, nesse preciso momento, a fazer de modelo para Leonardo da Vinci, ocultado pela parede.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Old boyfriends
Estes old boyfriends não ficaram perdidos no bolso do sobretudo, como na canção de Tom Waits. Ela guardou uma fotografia dele a cores, em pose heróica, dentro de O Livro do Filósofo (por acaso terá sido na passagem em que o autor aconselha a que se escreva de uma forma totalmente impessoal e fria, pondo de parte os nós e os eus?). Desconhecia que ele tinha uma fotografia dela, a preto e branco, entre duas páginas de A Crítica da Faculdade de Julgar (quem sabe, nas páginas dedicadas ao Belo ou ao Sublime). A embriagante lucidez das palavras de Nietzsche e o pensamento crítico kantiano foram os esconderijos imperfeitos que encontraram para a memória que os persegue. Um lugar com tamanho de livro de bolso, onde repousam fantasmas de papel.
sexta-feira, 30 de março de 2012
O livro da ilha

Quando um dia perguntaram a G. K. Chesterton que livro gostaria de ter consigo, se fosse um náufrago numa ilha deserta, o provocador pensador deu uma resposta desarmante, daquelas que por vezes só as crianças sabem dar. A pergunta podia ser embaraçosamente difícil para alguém, como ele, que devorava livros como quem saboreia bolos com creme (se os livros engordassem estava explicado o seu imponente e pesado corpo) e ainda lhes entornava chá em cima das anotações. Havia uma série de respostas imagináveis, como A Bíblia (será que por essa altura já se tinha convertido ao catolicismo*?), A Ilha do Dr. Moreau, do seu amigo H. G. Wells ou um ensaio filosófico de São Tomás de Aquino. Mas Chesterton não raciocinou nem como um erudito nem como um místico e, confiando na lógica, deu a resposta que lhe parecia evidente: um manual de construção de botes. Escolheu um livro, não para se evadir espiritualmente, mas fisicamente da ilha deserta. Deixou-nos imaginar um teórico distraído, não à sombra de uma palmeira lendo um clássico da história da literatura como Robinson Crusoé, D. Quixote ou Moby Dick, mas de mangas arregaçadas a construir o seu meio de fuga. Segurando nas mãos um barco feito de papel, até este se transformar lentamente em madeira e lhe permitir retomar a civilização, de regresso a Inglaterra, a ilha para onde levou todos os seus livros.
* um obrigada ao fiel leitor que detectou o meu erro de cariz religioso, já eliminado
domingo, 18 de março de 2012
Esta noite em Samarcanda

Talvez por vontade do destino, já tropecei três vezes nela. Não interessa se na história original se trata de um rei, de um príncipe ou de um califa, nem se o outro personagem é um cavaleiro, um jardineiro ou um grão-vizir. Na praça de uma cidade, um cavaleiro vê a morte fazer-lhe um sinal e aterrorizado, vai ter com o rei, pedindo-lhe emprestado o mais veloz dos seus cavalos, para que possa fugir para bem longe, até Samarcanda. O rei convoca a morte ao palácio para lhe perguntar porque assustou o seu cavaleiro. E a morte, surpresa, responde-lhe: "Não lhe quis meter medo, mas espantou-me vê-lo aqui, sabendo que esta noite temos encontro marcado em Samarcanda”. Sedutora história, esta, em que o destino é aquele que escolhe em nosso nome. O rei tem o poder de convocar a morte e pedir-lhe satisfações, como se não a temesse. Mas a poderosa morte, aqui disfarçada de figura humana, também não sabe tudo. Não sabe, por exemplo, como se chega até ela - também precisa da cumplicidade dos vivos. O cavaleiro dá ao gesto da morte um sentido que ele não tinha, para que o destino seja corrigido e se cumpra. Caminha na sua direcção, convencido de que lhe está a fugir. O destino é mais teimoso e menos impaciente do que qualquer humano e prefere, por vezes, o caminho mais longo. Não vai pela auto-estrada, porque conhece os encantos das estradas secundárias.
domingo, 11 de março de 2012
Rapariga com saco de plástico

Nesta fotografia austera mas luminosa, em que usa a sua filha como modelo, o holandês Hendrik Kerstens imita os retratos do pintor Vermeer, onde uma figura feminina de rosto iluminado se recorta na paisagem. Há quem afirme que Vermeer usava câmaras obscuras para pintar, daí a perspectiva fotográfica dos seus retratos de composição geométrica, feitos de jogos de luz e sombra. A sofisticação visual de Vermeer está presente na fotografia de Hendrik Kerstens, como se a rapariga de um dos seus quadros se tivesse refugiado numa imagem de outro tempo, onde objectos mundanos se desbanalizam e ganham um tom solene. Aqui, o saco de plástico do supermercado simula ser a touca de uma empregada doméstica. Mas há mais: o rolo de papel higiénico, o vaso de plástico, o guardanapo de pano, a rede para o cabelo. Entre a contenção e a revelação, por dentro da luz ou tentando sair da insondável escuridão, vemos um rosto, iluminado por um enigma, pedido emprestado ao século XVII. Se abrissemos a porta desta fotografia, estaríamos à espera de encontrar lá fora uma tempestade a rodear a casa. Nesta imagem sem data possível, hesitamos entre a lentidão da pose obediente do modelo e o saco de plástico de uma sociedade com pressa em tudo consumir, até a arte. Mas não será essa a função da arte: mostrar-nos as respostas que a vida não dá?
segunda-feira, 5 de março de 2012
Casa assombrada

William Friedkin, o realizador de O Exorcista, tinha-se cruzado com L’Empire des Lumières no Moma. Foi a luz dramática do candeeiro de rua, por contraste com o azul do céu do quadro de René Magritte, que inspirou o candeeiro colocado à porta da casa onde se dão estranhos acontecimentos e que seria a imagem do cartaz do filme. No perturbante quadro, o fantástico resume-se a este paradoxo visual: a simultaneidade do dia e da noite. Será dia? Será noite? Quem estará em casa, no andar de cima? A luz natural e a luz artificial estão presentes, como se a noite e o dia tivessem deixado de se esconder um ao outro, revelando-se nesta imagem que parece ter vida dupla. Apesar de tanta luz, há algo de incómodo na temperatura da paisagem, que provoca um arrepio como só os fantasmas sabem. Talvez seja a descoberta de que, mesmo abrindo a porta à luz, não conseguimos expulsar os nossos demónios.
A sombra de uma dúvida
No seu livro Amor Líquido, Zygmunt Bauman refere o filósofo alemão Odo Marquard, a propósito da descoberta de um parentesco etimológico entre zwei (dois) e Zweifel (dúvida). O dois surge na raiz da dúvida, é a semente insidiosa da incerteza. É o primeiro número par, o número casal, o “nós” mais pequeno do mundo, alternando entre a mais complexa das unidades (o eu complementar) e a mais radical das divisões (o adversário que constantemente alicia para um combate). O dois introduz a suspeita, como uma sombra que nunca desaparece: é o princípio de todas as dúvidas.
sábado, 3 de março de 2012
Casas vizinhas

Tenho um particular gosto em espreitar as casas dos meus vizinhos de prédio e acredito que o motivo transcende a mera curiosidade: fascina-me a forma como ocupam, de forma tão diferente da minha, a possibilidade do espaço e sua tipologia. Gosto de ver o que fizeram à arquitectura transparente, o modo como preencheram o vazio exterior do espaço. Quando apanho uma porta semi-aberta, lanço um olhar de soslaio à medida que subo ou desço as escadas. Vejo pouco, mas o suficiente para alimentar uma imaginação mais concreta. E depois, há aquelas casas onde já entrei ou estive várias vezes. Para um dos vizinhos, não foi evidente o meu quarto ser o seu quarto; noutro andar, a minha sala forrada a estantes é o quarto de uma criança que gosta de pintar as paredes; noutro ainda, a sala mudou de verbo e passou de “estar” a “jantar”. Sempre que estou numa casa vizinha, é como se alguém tivesse entrado em minha casa durante a minha ausência e transformado tudo, apagando à pressa todos os vestígios da minha presença. Como se um ser estranho morasse na minha casa. É aí que percebo que também habitamos imagens.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Humanos por exclusão

Parece que escrevendo (repetindo) algumas palavras ou letras sem qualquer significado e estranhamente distorcidas, que precisamente uma máquina chamada computador escreveu, conseguimos provar, por exemplo no registo para abrir uma conta no gmail ou nas caixas de comentários de alguns blogues, que não somos robots mascarados de humanos. Até parece uma brincadeira, ser preciso tão pouco para provar a nossa cada vez mais duvidosa humanidade.
Incompleta nudez
Gostava de saber se ele ainda é vivo, o homem de idade incerta, mas ainda jovem, que no Maio de 68 caminhou nu, completamente nu, com uma nudez sem culpa e o corpo ligeiramente bronzeado, em direcção à Bastilha. Ignorou quem o olhava, ignorou os vestígios do gás lacrimogéneo, ignorou as barricadas. Despojado de referências, despido de signos, sem nome ou bilhete de identidade, entrou sem qualquer resistência para o carro da polícia. Mas a neutralidade da sua nudez não foi suficiente. Conseguiram descobrir que tinha incendiado a sua casa, apagado todos os vestígios do seu passado e a sua nova morada era o silêncio. Mesmo assim, conseguiram vesti-lo com um pouco do seu passado. Talvez a verdadeira nudez só seja possível na invisibilidade.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Arqueologia invisível

Reencontro, aqui e ali, pessoas do meu passado (como se este fosse um lugar) que me atribuem frases ou gestos de que não me recordo, embora acredite ter sido a sua autora. Vencido um certo desconforto - parece que estamos a falar de uma terceira pessoa, ausente - sobra uma sensação de quase culpa por não ter guardado essas memórias devidamente, a que se junta a súbita consciênca de que a memória não nos pertence. O nosso passado assemelha-se a uma civilização perdida, da qual se encontram espalhados pelo mundo vestígios, não arqueológicos, mas mnemónicos, que nos transformam para sempre em seres incompletos.
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Folie à deux

Apesar de ser um conceito da psicologia clínica e da psicanálise e dizer respeito a sintomas psicóticos como a perda de contacto com a realidade, a estados de delírio e à incapacidade de reconhecer comportamentos estranhos ou bizarros, folie à deux parece ser uma excelente definição para o estado de paixão amorosa. Dois seres ligados por uma alienação mútua, uma loucura a dois num mundo fora do mundo.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Uma falsa barba branca

Não me lembro ao certo quando foi. Houve um dia em que vi a verdade (em caixa alta) morrer diante dos meus olhos. Senti-me como as crianças que descobrem que o Pai Natal, afinal, não existe porque, apesar de ter roupas e corpo, não passa de um familiar disfarçado (e que foi traído pelos sapatos, pelo relógio ou pela falsa barba branca). Pensava que a descoberta da não existência do Pai Natal era o fim de uma ilusão e que a morte da verdade era o fim da verdade. Enganei-me: era apenas o fim de outra ilusão.
sábado, 11 de fevereiro de 2012
Omelete melancólica

Até o mais poderoso homem pode estar prisioneiro da sua memória. Como o rei melancólico de que fala Walter Benjamin nas suas Imagens do Pensamento, que exige ao seu melhor cozinheiro a reprodução de uma omelete de amoras feita por uma velhinha (seria feiticeira?) e comida na sua infância na companhia do seu pai, quando se refugiaram e perderam numa floresta escura. Se o cozinheiro fracassasse, seria condenado à morte, se fosse bem sucedido, ficaria com o seu trono. Apesar de conhecer todos os ingredientes e modo de preparação da receita da omelete de amoras, o cozinheiro reconhece que nunca poderia igualá-la. Faltar-lhe-ia o sabor do perigo e daquele presente incomum, que antevia um futuro incerto. O segredo da omelete de amoras era ser um objecto (perdido) na floresta do desejo.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Uma espécie de vitória
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Movimento imóvel
domingo, 15 de janeiro de 2012
Inquietos humanos

Num mundo cada vez mais dedicado a ignorar a morte (com o culto da juventude, o prolongamento da esperança de vida e a ilusão da imortalidade), Inquietos (Restless), de Gus Van Sant é o filme em que dois adolescentes olham a morte de frente. Ele chama-se Enoch (Henry Hopper) e esteve em coma (e ao que parece morto durante 3 minutos) na sequência do acidente de automóvel que vitimou os seus pais. Tem por amigo o fantasma de um soldado kamikaze morto na 2ª Guerra, com quem atira pedrinhas aos comboios que passam e joga à batalha naval. Ela é Annabel (Mia Wasikowska), apaixonada por Darwin, estuda a natureza (sobretudo os pássaros) e tem apenas três meses de vida, devido a um tumor cerebral em fase terminal. Conhecem-se por acaso num funeral, porque ele tem o hábito de assistir a funerais de estranhos e passam o filme, que começa e acaba numa cerimónia fúnebre, a viver a morte. Ele apresenta-lhes os pais no cemitério, observam cadáveres na morgue, tentando adivinhar como as pessoas morreram, comemoram a noite de Halloweeen, passam dias no hospital e demarcam os seus corpos de mãos dadas a giz no asfalto, simulando a sua morte. Porque é a morte que está na origem de todas as suas (e nossas) inquietações, apesar de como escreveu o fantasma kamikaze na carta de amor amarrotada que traz consigo e que nunca entregou à sua namorada, a morte ser fácil, o amor é que é difícil. E se o cinema sabe eternizar o amor, também promete vencer a morte, esse carimbo que valida, desde que nascemos, a nossa condição de inquietos humanos.
sábado, 14 de janeiro de 2012
Santos da casa
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Maquilhar o tempo
Apanhar o tempo

Quando foi viver para Roma, Fellini morou numa pensão em que tinha como vizinho de quarto um homem de quarenta e poucos anos, que se preocupava muito em parecer novo. A sua obsessão, além de o levar a usar cremes e máscaras, revelva-se num curioso método. De manhã, saía do quarto e fechava a porta atrás de si. Após alguns minutos parado e em silêncio no corredor, abria a porta de repente, como se procurasse algo. Queria descobrir se havia cheiro a velho e apanhar a sua velhice de surpresa. Talvez soubesse que só damos pelo envelhecimento dos outros.
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