quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Arqueologia invisível


Reencontro, aqui e ali, pessoas do meu passado (como se este fosse um lugar) que me atribuem frases ou gestos de que não me recordo, embora acredite ter sido a sua autora. Vencido um certo desconforto - parece que estamos a falar de uma terceira pessoa, ausente - sobra uma sensação de quase culpa por não ter guardado essas memórias devidamente, a que se junta a súbita consciênca de que a memória não nos pertence. O nosso passado assemelha-se a uma civilização perdida, da qual se encontram espalhados pelo mundo vestígios, não arqueológicos, mas mnemónicos, que nos transformam para sempre em seres incompletos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Folie à deux


Apesar de ser um conceito da psicologia clínica e da psicanálise e dizer respeito a sintomas psicóticos como a perda de contacto com a realidade, a estados de delírio e à incapacidade de reconhecer comportamentos estranhos ou bizarros, folie à deux parece ser uma excelente definição para o estado de paixão amorosa. Dois seres ligados por uma alienação mútua, uma loucura a dois num mundo fora do mundo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Uma falsa barba branca


Não me lembro ao certo quando foi. Houve um dia em que vi a verdade (em caixa alta) morrer diante dos meus olhos. Senti-me como as crianças que descobrem que o Pai Natal, afinal, não existe porque, apesar de ter roupas e corpo, não passa de um familiar disfarçado (e que foi traído pelos sapatos, pelo relógio ou pela falsa barba branca). Pensava que a descoberta da não existência do Pai Natal era o fim de uma ilusão e que a morte da verdade era o fim da verdade. Enganei-me: era apenas o fim de outra ilusão. 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Omelete melancólica


Até o mais poderoso homem pode estar prisioneiro da sua memória. Como o rei melancólico de que fala Walter Benjamin nas suas Imagens do Pensamento, que exige ao seu melhor cozinheiro a reprodução de uma omelete de amoras feita por uma velhinha (seria feiticeira?) e comida na sua infância na companhia do seu pai, quando se refugiaram e perderam numa floresta escura. Se o cozinheiro fracassasse, seria condenado à morte, se fosse bem sucedido, ficaria com o seu trono. Apesar de conhecer todos os ingredientes e modo de preparação da receita da omelete de amoras, o cozinheiro reconhece que nunca poderia igualá-la. Faltar-lhe-ia o sabor do perigo e daquele presente incomum, que antevia um futuro incerto. O segredo da omelete de amoras era ser um objecto (perdido) na floresta do desejo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Uma espécie de vitória


Pensamos sempre na morte como uma derrota, mas também é verdade que a morte dá poder a quem perde a vida: uma espécie de vitória (amarga) sobre a derrota.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Movimento imóvel


Mesmo os seres que não andam por si próprios, como cadeiras, mesas (curiosamente chamam-lhes móveis) ou até bonecas, precisam das suas pernas para permanecerem no mesmo lugar e coreografarem movimentos imóveis. As pernas podem ser apenas a possibilidade do repouso.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Inquietos humanos


Num mundo cada vez mais dedicado a ignorar a morte (com o culto da juventude, o prolongamento da esperança de vida e a ilusão da imortalidade), Inquietos (Restless), de Gus Van Sant é o filme em que dois adolescentes olham a morte de frente. Ele chama-se Enoch (Henry Hopper) e esteve em coma (e ao que parece morto durante 3 minutos) na sequência do acidente de automóvel que vitimou os seus pais. Tem por amigo o fantasma de um soldado kamikaze morto na 2ª Guerra, com quem atira pedrinhas aos comboios que passam e joga à batalha naval. Ela é Annabel (Mia Wasikowska), apaixonada por Darwin, estuda a natureza (sobretudo os pássaros) e tem apenas três meses de vida, devido a um tumor cerebral em fase terminal. Conhecem-se por acaso num funeral, porque ele tem o hábito de assistir a funerais de estranhos e passam o filme, que começa e acaba numa cerimónia fúnebre, a viver a morte. Ele apresenta-lhes os pais no cemitério, observam cadáveres na morgue, tentando adivinhar como as pessoas morreram, comemoram a noite de Halloweeen, passam dias no hospital e demarcam os seus corpos de mãos dadas a giz no asfalto, simulando a sua morte. Porque é a morte que está na origem de todas as suas (e nossas) inquietações, apesar de como escreveu o fantasma kamikaze na carta de amor amarrotada que traz consigo e que nunca entregou à sua namorada, a morte ser fácil, o amor é que é difícil. E se o cinema sabe eternizar o amor, também promete vencer a morte, esse carimbo que valida, desde que nascemos, a nossa condição de inquietos humanos.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Santos da casa


Há quem, depois de incomodar um santo com um pedido terreno, decida castigá-lo por este não ter sido atendido. Como? Virando o santo em causa para a parede e colocando-o estrategicamente de costas para si, qual humano caído em desgraça.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Maquilhar o tempo


Marcello Mastroianni não queria que os espectadores dos seus filmes o vissem envelhecer. Por isso, envelheceu antes do tempo, fazendo de homem mais velho. Assim, quando envelhecesse de verdade, o público continuaria a pensar que era da maquilhagem.

Apanhar o tempo


Quando foi viver para Roma, Fellini morou numa pensão em que tinha como vizinho de quarto um homem de quarenta e poucos anos, que se preocupava muito em parecer novo. A sua obsessão, além de o levar a usar cremes e máscaras, revelva-se num curioso método. De manhã, saía do quarto e fechava a porta atrás de si. Após alguns minutos parado e em silêncio no corredor, abria a porta de repente, como se procurasse algo. Queria descobrir se havia cheiro a velho e apanhar a sua velhice de surpresa. Talvez soubesse que só damos pelo envelhecimento dos outros.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Desejo mórbido


O diplomata e escritor Paul Morand desejava que, quando morresse, a pele do seu corpo fosse transformada numa mala, para continuar a viajar pelo mundo.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Revelar o tempo


A imagem no espelho nunca se conjuga no passado, como se este sofresse de uma terrível falta de memória e apenas produzisse auto-retratos amnésicos. A fotografia serve para revelar o tempo e nos mostrar que envelhecemos. Cada fotografia tem o peso de uma vida inteira.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Arma simbólica


As palavras são a mais poderosa arma: conseguem ferir a qualquer distância. Mas quem permanece em silêncio não está necessariamente desarmado.

O gnomo de Wittgenstein


Mesmo sabendo que o filósofo austríaco trabalhou como jardineiro num mosteiro perto de Viena em 1926, de todas as palavras-chave que abrem esta janela, o “gnomo de Wittgenstein” foi, até agora, a mais inusitada (embora o “esqueleto triste” também dê que imaginar).

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Convocatória mental


Muitas vezes, pensamos em alguém. Uma, duas, talvez três vezes. E essa pessoa, como por magia, dá sinal de vida: envia um sms luminoso, encosta a sua voz ao nosso ouvido, cruza-se connosco numa esquina improvável da vida. Pensamos que fomos nós que a chamámos de olhos fechados e facilmente acreditamos ser dotados de poderes especiais. Mas talvez tenha sido essa pessoa a convocar-nos mentalmente. Precisamente para avisar que ia aparecer.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Desconto da idade


Duas raparigas caminhavam à minha frente, carregando sacos de compras e trocando palavras. Uma delas fazia queixas sobre o comportamento de um ser masculino, ao que a outra respondeu: Tens de dar o desconto da idade. Os nossos caminhos separaram-se no cruzamento seguinte e fui pela rua fora, sem saber se estavam a falar de um adolescente indeciso, de um avô com uma memória esburacada, de um menino travesso de 2 anos ou de um homem feito com fato e gravata. Concluí que talvez todas as idades mereçam um desconto (leia-se desculpa), o que colocaria as pessoas (ou os elementos do sexo masculino?) em saldos permanentes.

sábado, 12 de novembro de 2011

Das Unheimliche


O conceito é de Freud, e significa à letra: o que não nos faz sentir em casa. Vem ele a propósito da fotografia e da sua perturbante capacidade de nos apresentar, umas vezes, o familiar como estranho, e outras, de nos aproximar do estranho de tal forma, que quase lhe podemos tocar com as mãos. (fotografia de João António)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O fim de tarde de um escritor


Fazia-o mais alto e muito mais falador. Mas o escritor começou por avisar que não sentia o que dizia quando falava em inglês. E foi em inglês que se ia esquivando, de forma quase ostensiva, às perguntas vindas do seu lado esquerdo (Pedro Mexia) e do seu lado direito (João Lopes), assim como da frente (o público que enchia o espaço na Fnac do Chiado). A sua timidez cansada podia confundir-se erradamente com antipatia, e Peter Handke ia dando respostas curtas ou anti-respostas, quem sabe para desafiar os seus interlocutores e ouvintes: “Para me lembrar, teria de beber um pouco de vinho”. Ou: “o que interessa o que penso sobre as minhas peças de teatro?” Ou ainda: “a pergunta é muito boa e a resposta nunca o será”. Talvez fosse apenas o seu cepticismo a calar-se. “Ser céptico é a minha vida, o meu destino. Agora tenho um destino. Não andava à procura dele, mas encontrei-o. Um escritor precisa de ter um destino”. Tal como precisa de sofrer dolorosas metamorfoses. Falou-se da Europa central como “conceito meteorológico”, da mulher canhota e do guarda-redes angustiado antes do penalty, de Ionesco e Beckett. O escritor, que alternava momentos de fadiga apática com outros de entusiasmo muito contido, definiu-se como um playreader (e não como um theatregoer) e como um moviegoer. Na altura em que escreveu alguns sonhos e monólogos para “As Asas do Desejo”, de Wim Wenders, “um filme sobre a possibilidade dos anjos”, não sabia muito sobre anjos. Mas agora, mais de 20 anos depois, sente-se protegido por eles. “Preciso de muito silêncio interior, que não tenho, neste momento. Talvez quando sair daqui”. “O que acha dos ladrões de livros”? perguntou alguém na assistência. “Sou a favor dos ladrões de fruta, não de livros. Eu próprio já roubei maçãs. Tenho um título para um livro que ainda não escrevi nem sei se vou escrever, de que gosto muito: Die Obstdiebin (a roubadora de fruta). À melhor pergunta (vinda do seu lado esquerdo): Como é que alguém que gosta de Hofmannsthal, Wittgenstein e das questões da crise e limites da linguagem escreveu oitenta livros?, respondeu: “A linguagem é o meu problema, mas tenho de fingir que não o é. Houve um período da minha vida em que cada frase era um problema. Foi um período metafísico. Hoje finjo que já não tenho medo das palavras”. Talvez apenas tenha medo de tocar os outros com a linguagem. Ou lhe apetecesse, como o provérbio alemão que citou, a propósito de uma pergunta sobre Robert Walser e a justiça da posteridade, “falar ao ouvido de Deus” e não ao nosso. Neste breve encontro para um longo adeus, em que Handke se vestia de preto e de poucas palavras.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Como nas fotografias


Às vezes, dava jeito conseguirmos ver a realidade a preto e branco, sem nos deixarmos distrair pelas cores.

domingo, 23 de outubro de 2011

Sintonia meteorológica


O tempo não é um tema tão superficial ou neutro como parece. Falamos com os outros sobre o tempo porque procuramos nele o termómetro da nossa existência. A pequena confirmação do que sentimos é o suficiente para abrir uma janela do nosso mundo solipsista.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sem rede


Os trapezistas actuam melhor quando estão sem rede.