sábado, 14 de janeiro de 2012

Santos da casa


Há quem, depois de incomodar um santo com um pedido terreno, decida castigá-lo por este não ter sido atendido. Como? Virando o santo em causa para a parede e colocando-o estrategicamente de costas para si, qual humano caído em desgraça.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Maquilhar o tempo


Marcello Mastroianni não queria que os espectadores dos seus filmes o vissem envelhecer. Por isso, envelheceu antes do tempo, fazendo de homem mais velho. Assim, quando envelhecesse de verdade, o público continuaria a pensar que era da maquilhagem.

Apanhar o tempo


Quando foi viver para Roma, Fellini morou numa pensão em que tinha como vizinho de quarto um homem de quarenta e poucos anos, que se preocupava muito em parecer novo. A sua obsessão, além de o levar a usar cremes e máscaras, revelva-se num curioso método. De manhã, saía do quarto e fechava a porta atrás de si. Após alguns minutos parado e em silêncio no corredor, abria a porta de repente, como se procurasse algo. Queria descobrir se havia cheiro a velho e apanhar a sua velhice de surpresa. Talvez soubesse que só damos pelo envelhecimento dos outros.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Desejo mórbido


O diplomata e escritor Paul Morand desejava que, quando morresse, a pele do seu corpo fosse transformada numa mala, para continuar a viajar pelo mundo.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Revelar o tempo


A imagem no espelho nunca se conjuga no passado, como se este sofresse de uma terrível falta de memória e apenas produzisse auto-retratos amnésicos. A fotografia serve para revelar o tempo e nos mostrar que envelhecemos. Cada fotografia tem o peso de uma vida inteira.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Arma simbólica


As palavras são a mais poderosa arma: conseguem ferir a qualquer distância. Mas quem permanece em silêncio não está necessariamente desarmado.

O gnomo de Wittgenstein


Mesmo sabendo que o filósofo austríaco trabalhou como jardineiro num mosteiro perto de Viena em 1926, de todas as palavras-chave que abrem esta janela, o “gnomo de Wittgenstein” foi, até agora, a mais inusitada (embora o “esqueleto triste” também dê que imaginar).

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Convocatória mental


Muitas vezes, pensamos em alguém. Uma, duas, talvez três vezes. E essa pessoa, como por magia, dá sinal de vida: envia um sms luminoso, encosta a sua voz ao nosso ouvido, cruza-se connosco numa esquina improvável da vida. Pensamos que fomos nós que a chamámos de olhos fechados e facilmente acreditamos ser dotados de poderes especiais. Mas talvez tenha sido essa pessoa a convocar-nos mentalmente. Precisamente para avisar que ia aparecer.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Desconto da idade


Duas raparigas caminhavam à minha frente, carregando sacos de compras e trocando palavras. Uma delas fazia queixas sobre o comportamento de um ser masculino, ao que a outra respondeu: Tens de dar o desconto da idade. Os nossos caminhos separaram-se no cruzamento seguinte e fui pela rua fora, sem saber se estavam a falar de um adolescente indeciso, de um avô com uma memória esburacada, de um menino travesso de 2 anos ou de um homem feito com fato e gravata. Concluí que talvez todas as idades mereçam um desconto (leia-se desculpa), o que colocaria as pessoas (ou os elementos do sexo masculino?) em saldos permanentes.

sábado, 12 de novembro de 2011

Das Unheimliche


O conceito é de Freud, e significa à letra: o que não nos faz sentir em casa. Vem ele a propósito da fotografia e da sua perturbante capacidade de nos apresentar, umas vezes, o familiar como estranho, e outras, de nos aproximar do estranho de tal forma, que quase lhe podemos tocar com as mãos. (fotografia de João António)

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

O fim de tarde de um escritor


Fazia-o mais alto e muito mais falador. Mas o escritor começou por avisar que não sentia o que dizia quando falava em inglês. E foi em inglês que se ia esquivando, de forma quase ostensiva, às perguntas vindas do seu lado esquerdo (Pedro Mexia) e do seu lado direito (João Lopes), assim como da frente (o público que enchia o espaço na Fnac do Chiado). A sua timidez cansada podia confundir-se erradamente com antipatia, e Peter Handke ia dando respostas curtas ou anti-respostas, quem sabe para desafiar os seus interlocutores e ouvintes: “Para me lembrar, teria de beber um pouco de vinho”. Ou: “o que interessa o que penso sobre as minhas peças de teatro?” Ou ainda: “a pergunta é muito boa e a resposta nunca o será”. Talvez fosse apenas o seu cepticismo a calar-se. “Ser céptico é a minha vida, o meu destino. Agora tenho um destino. Não andava à procura dele, mas encontrei-o. Um escritor precisa de ter um destino”. Tal como precisa de sofrer dolorosas metamorfoses. Falou-se da Europa central como “conceito meteorológico”, da mulher canhota e do guarda-redes angustiado antes do penalty, de Ionesco e Beckett. O escritor, que alternava momentos de fadiga apática com outros de entusiasmo muito contido, definiu-se como um playreader (e não como um theatregoer) e como um moviegoer. Na altura em que escreveu alguns sonhos e monólogos para “As Asas do Desejo”, de Wim Wenders, “um filme sobre a possibilidade dos anjos”, não sabia muito sobre anjos. Mas agora, mais de 20 anos depois, sente-se protegido por eles. “Preciso de muito silêncio interior, que não tenho, neste momento. Talvez quando sair daqui”. “O que acha dos ladrões de livros”? perguntou alguém na assistência. “Sou a favor dos ladrões de fruta, não de livros. Eu próprio já roubei maçãs. Tenho um título para um livro que ainda não escrevi nem sei se vou escrever, de que gosto muito: Die Obstdiebin (a roubadora de fruta). À melhor pergunta (vinda do seu lado esquerdo): Como é que alguém que gosta de Hofmannsthal, Wittgenstein e das questões da crise e limites da linguagem escreveu oitenta livros?, respondeu: “A linguagem é o meu problema, mas tenho de fingir que não o é. Houve um período da minha vida em que cada frase era um problema. Foi um período metafísico. Hoje finjo que já não tenho medo das palavras”. Talvez apenas tenha medo de tocar os outros com a linguagem. Ou lhe apetecesse, como o provérbio alemão que citou, a propósito de uma pergunta sobre Robert Walser e a justiça da posteridade, “falar ao ouvido de Deus” e não ao nosso. Neste breve encontro para um longo adeus, em que Handke se vestia de preto e de poucas palavras.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Como nas fotografias


Às vezes, dava jeito conseguirmos ver a realidade a preto e branco, sem nos deixarmos distrair pelas cores.

domingo, 23 de outubro de 2011

Sintonia meteorológica


O tempo não é um tema tão superficial ou neutro como parece. Falamos com os outros sobre o tempo porque procuramos nele o termómetro da nossa existência. A pequena confirmação do que sentimos é o suficiente para abrir uma janela do nosso mundo solipsista.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sem rede


Os trapezistas actuam melhor quando estão sem rede.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Almas siamesas


Em Dead Ringers, de David Cronenberg, o arrogante Elliot e o tímido Beverly Mantle são gémeos e ginecologistas. Vivem e trabalham juntos, servindo-se da sua imagem gémea para partilharem experiências e mulheres. Além disso, têm um terrível segredo: são gémeos siameses por dentro. A sua alma, demasiado grande para apenas um corpo, mas excessivamente pequena para dois, é indivisível.

sábado, 15 de outubro de 2011

Cicatriz interior

O passado é uma cicatriz que fechou em falso: dói como uma ferida iluminada por dentro. E quando um dedo invisível inadvertidamente lhe toca, devíamos dizer: dói-me o passado.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ouvido ao telefone

Já tens idade para saber que somos todos loucos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Aula de veterinária


Parece que há homens que gostam de oferecer um animal de companhia à amante, para preencher a ausência do filho que não podem ter e sobretudo a sua, durante a maior parte do tempo. Costuma ser um cão de pequeno ou médio porte, rafeiro ou de raça, como um Jack Russell, um Fox Terrier, um Chihuahua ou um Caniche , até porque um Grand Danois, um São Bernardo ou um Rottweiler seriam materializações demasiado pesadas do seu segredo. No início, vão os três alegremente às consultas e até têm as vacinas em dia. Depois, um dia, apenas aparecem dois deles. 

Da vida das marionetas

Somos todos marionetas; apenas damos nomes diferentes ao marionetista.

Ficção: 1 - Realidade: 0

Em Chungking Express, o polícia (de coração partido e vestido à paisana) compra latas de ananás às rodelas prestando toda a atenção ao prazo de validade, que simbolixa também o expirar das suas esperanças. No Pingo Doce de Campo de Ourique, já depois da voz da menina da caixa ter avisado que o estabelecimento ia fechar, agradecendo a preferência dos presentes, o polícia fardado coloca as suas compras no tapete rolante da caixa: batatas fritas A Saloinha, torta com creme de morango Pingo Doce e Joi laranja. Nunca olhou para o prazo de validade, apenas para o relógio. Talvez não tenha o coração partido.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dupla ausência

Ele chama-se Brian e está de costas para ela, concentrado no cigarro, ignorando o seu olhar. E também está na fotografia colada na parede, mesmo por cima da cama, a fumar outro cigarro, olhando, indiferente, o silencioso e triste casal de estranhos. Ela chama-se Nan e fez uma sequência de fotografias da sua intimidade usando um tripé e um disparador remoto. Fotografar a própria vida em acção permite cruéis revelações.
(fotografia de Nan Goldin)