quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Como nas fotografias


Às vezes, dava jeito conseguirmos ver a realidade a preto e branco, sem nos deixarmos distrair pelas cores.

domingo, 23 de outubro de 2011

Sintonia meteorológica


O tempo não é um tema tão superficial ou neutro como parece. Falamos com os outros sobre o tempo porque procuramos nele o termómetro da nossa existência. A pequena confirmação do que sentimos é o suficiente para abrir uma janela do nosso mundo solipsista.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Sem rede


Os trapezistas actuam melhor quando estão sem rede.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Almas siamesas


Em Dead Ringers, de David Cronenberg, o arrogante Elliot e o tímido Beverly Mantle são gémeos e ginecologistas. Vivem e trabalham juntos, servindo-se da sua imagem gémea para partilharem experiências e mulheres. Além disso, têm um terrível segredo: são gémeos siameses por dentro. A sua alma, demasiado grande para apenas um corpo, mas excessivamente pequena para dois, é indivisível.

sábado, 15 de outubro de 2011

Cicatriz interior

O passado é uma cicatriz que fechou em falso: dói como uma ferida iluminada por dentro. E quando um dedo invisível inadvertidamente lhe toca, devíamos dizer: dói-me o passado.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ouvido ao telefone

Já tens idade para saber que somos todos loucos.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Aula de veterinária


Parece que há homens que gostam de oferecer um animal de companhia à amante, para preencher a ausência do filho que não podem ter e sobretudo a sua, durante a maior parte do tempo. Costuma ser um cão de pequeno ou médio porte, rafeiro ou de raça, como um Jack Russell, um Fox Terrier, um Chihuahua ou um Caniche , até porque um Grand Danois, um São Bernardo ou um Rottweiler seriam materializações demasiado pesadas do seu segredo. No início, vão os três alegremente às consultas e até têm as vacinas em dia. Depois, um dia, apenas aparecem dois deles. 

Da vida das marionetas

Somos todos marionetas; apenas damos nomes diferentes ao marionetista.

Ficção: 1 - Realidade: 0

Em Chungking Express, o polícia (de coração partido e vestido à paisana) compra latas de ananás às rodelas prestando toda a atenção ao prazo de validade, que simbolixa também o expirar das suas esperanças. No Pingo Doce de Campo de Ourique, já depois da voz da menina da caixa ter avisado que o estabelecimento ia fechar, agradecendo a preferência dos presentes, o polícia fardado coloca as suas compras no tapete rolante da caixa: batatas fritas A Saloinha, torta com creme de morango Pingo Doce e Joi laranja. Nunca olhou para o prazo de validade, apenas para o relógio. Talvez não tenha o coração partido.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dupla ausência

Ele chama-se Brian e está de costas para ela, concentrado no cigarro, ignorando o seu olhar. E também está na fotografia colada na parede, mesmo por cima da cama, a fumar outro cigarro, olhando, indiferente, o silencioso e triste casal de estranhos. Ela chama-se Nan e fez uma sequência de fotografias da sua intimidade usando um tripé e um disparador remoto. Fotografar a própria vida em acção permite cruéis revelações.
(fotografia de Nan Goldin)

sábado, 1 de outubro de 2011

Dupla cabra-cega

Quem vê uma fotografia está sempre de olhos vendados para o que ela realmente mostra. Tacteando com os olhos, procura agarrar o sentido da imagem, condenado a construir a memória do que não foi testemunhado. Por outro lado, também o ser fotografado tem os olhos tapados para ver, precisamente, quem o vê. Uma fotografia desconhece sempre o rosto dos seus espectadores.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Bigger than light

Raoul Walsh, John Ford, Fritz Lang e Nicholas Ray terminaram todos a sua vida com graves problemas de visão, usando uma pala negra num dos olhos. Como se fossem piratas saqueadores e traficantes de imagens, cegados por um excesso de luz ou feridos no seu duelo com a realidade, exibiam uma minúscula cortina negra da sala de projecções privadas de filmes que mais ninguém viu.

domingo, 25 de setembro de 2011

Esperança de vida

As coisas mais misteriosas da vida não são embaladas numa fábrica, como se fossem latas de ananás às rodelas. Não trazem o prazo de validade à vista (apenas sinais sem nome escondidos em secretos lugares), daí ser tão difícil dizer ao certo o dia em que começam ou acabam. O coração sempre se alimentou mais de esperança do que de números.

sábado, 24 de setembro de 2011

Olhos nos olhos

Na fotografia, não somos apenas nós que olhamos o tempo; o tempo também nos olha a nós.
(fotografia de Elliott Erwitt)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Indisponíveis para amar

Eles são jovens e belos, mas não conseguem apaixonar-se um pelo outro. Recém-separada, Vittoria (Monica Vitti) tenta formar um par amoroso com o corretor da sua mãe, Piero (Alain Delon), que vive sufocado pela rotina e pelos números. Na bolsa de Roma, onde o coração não está cotado, as pessoas falam alto mas não comunicam. Na vida, onde o coração parece congelado, o amor não é possível e a lucidez magoa. “Certos dias, uma mesa, um tecido, um livro ou um homem, é tudo a mesma coisa”, diz Vittoria a uma amiga. Vittoria e Piero sentem-se desconfortáveis com a intimidade, que lembra uma roupa que não lhes assenta. Não estão bem em lugar nenhum, nem no silêncio que tocam, nem nas palavras que trocam. “Talvez não precisemos de nos conhecermos para nos amarmos. Talvez não precisemos de nos amar”, diz Vittoria. Em casa dos pais de Piero, comenta que ele a trata como se fosse uma visita e mais tarde, em casa de Piero, Vittoria repara que no abraço deles há sempre um braço a mais. Deitados num campo bem longe da bolsa, observando a paisagem, Piero diz ter “a sensação de estar no estrangeiro” e Vittoria responde: “Que estranho, a mim és tu que me provocas essa sensação”. Combinam encontrar-se todos os dias, mas a noite cai e nenhum deles aparece. Os cenários - a passadeira junto a um prédio em obras, os descampados e outras paisagens fantasma, permancem. Eles, eclipsaram-se. O eclipse deixa uma sensação de frio e no fim, apetece vestir um casaco como se fosse um abraço.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Noutro lugar

O desejo é uma questão de perspectiva, pelo que pede distância. É espreitar uma desconhecida à janela (e se houver uma cortina ondulante por perto, a provocar intermitências na visão e a alimentar as frágeis aparências, tanto melhor). Não é por acaso que em You’ll meet a tall dark stranger, Woody Allen mostra, primeiro, o escritor sem talento (Roy /Josh Brolin), entediado com o seu casamento com a bela Sally (Naomi Watts), a fantasiar com a misteriosa e sensual vizinha da frente ( Dia /Freida Pinto) e no final, já a viver com Dia, a olhar, interessado, para a figura feminina do prédio da frente, que é precisamente a sua ex-mulher. O desejo é querer estar no outro lugar.

A lei do desejo

O mais secreto desejo do desejo é não se consumar, embora apenas se lembra disso quando já foi reduzido a cinzas.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Masculino - Feminino

É um provérbio alemão (quem diria): Um homem, uma palavra. Uma mulher, um dicionário.

domingo, 18 de setembro de 2011

Cogito ao espelho

Passarmos o dia a analisar a nossa consciência é o equivalente a olharmo-nos fixamente ao espelho durante intermináveis horas: o resultado só pode ser uma terrível distorção.

Musicologia da alma

É uma tentação atribuir aos outros o poder de tirarem o melhor ou o pior de nós, como se fossemos um instrumento musical nas mãos de um músico, que tanto pode revelar o talento para extrair a nossa mais harmoniosa melodia, como apenas obter notas desafinadas e ruidosas. Os outros justificam o facto de sermos simultaneamente um Stradivarius e um violino de plástico.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Elle

Há muitos Verões, a revista Elle encomendou a sua campanha de lançamento em Portugal a um criativo de barbas, de apelido Homem. Centrada no tema do mistério do eterno feminino, ele propôs à cliente três anúncios de imprensa com muito texto e pouca imagem. O título de um deles tem andado comigo estes anos todos, e aparece sempre que alguém fala, desapontado, sobre o outro, com quem passou de uma relação de desconhecimento (leia-se mistério) para a intimidade (com todos os estados sobejamente conhecidos pelo meio): "O que é que foste perdendo à medida que te fui conhecendo"? Aceitam-se respostas.