quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Dupla ausência

Ele chama-se Brian e está de costas para ela, concentrado no cigarro, ignorando o seu olhar. E também está na fotografia colada na parede, mesmo por cima da cama, a fumar outro cigarro, olhando, indiferente, o silencioso e triste casal de estranhos. Ela chama-se Nan e fez uma sequência de fotografias da sua intimidade usando um tripé e um disparador remoto. Fotografar a própria vida em acção permite cruéis revelações.
(fotografia de Nan Goldin)

sábado, 1 de outubro de 2011

Dupla cabra-cega

Quem vê uma fotografia está sempre de olhos vendados para o que ela realmente mostra. Tacteando com os olhos, procura agarrar o sentido da imagem, condenado a construir a memória do que não foi testemunhado. Por outro lado, também o ser fotografado tem os olhos tapados para ver, precisamente, quem o vê. Uma fotografia desconhece sempre o rosto dos seus espectadores.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Bigger than light

Raoul Walsh, John Ford, Fritz Lang e Nicholas Ray terminaram todos a sua vida com graves problemas de visão, usando uma pala negra num dos olhos. Como se fossem piratas saqueadores e traficantes de imagens, cegados por um excesso de luz ou feridos no seu duelo com a realidade, exibiam uma minúscula cortina negra da sala de projecções privadas de filmes que mais ninguém viu.

domingo, 25 de setembro de 2011

Esperança de vida

As coisas mais misteriosas da vida não são embaladas numa fábrica, como se fossem latas de ananás às rodelas. Não trazem o prazo de validade à vista (apenas sinais sem nome escondidos em secretos lugares), daí ser tão difícil dizer ao certo o dia em que começam ou acabam. O coração sempre se alimentou mais de esperança do que de números.

sábado, 24 de setembro de 2011

Olhos nos olhos

Na fotografia, não somos apenas nós que olhamos o tempo; o tempo também nos olha a nós.
(fotografia de Elliott Erwitt)

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Indisponíveis para amar

Eles são jovens e belos, mas não conseguem apaixonar-se um pelo outro. Recém-separada, Vittoria (Monica Vitti) tenta formar um par amoroso com o corretor da sua mãe, Piero (Alain Delon), que vive sufocado pela rotina e pelos números. Na bolsa de Roma, onde o coração não está cotado, as pessoas falam alto mas não comunicam. Na vida, onde o coração parece congelado, o amor não é possível e a lucidez magoa. “Certos dias, uma mesa, um tecido, um livro ou um homem, é tudo a mesma coisa”, diz Vittoria a uma amiga. Vittoria e Piero sentem-se desconfortáveis com a intimidade, que lembra uma roupa que não lhes assenta. Não estão bem em lugar nenhum, nem no silêncio que tocam, nem nas palavras que trocam. “Talvez não precisemos de nos conhecermos para nos amarmos. Talvez não precisemos de nos amar”, diz Vittoria. Em casa dos pais de Piero, comenta que ele a trata como se fosse uma visita e mais tarde, em casa de Piero, Vittoria repara que no abraço deles há sempre um braço a mais. Deitados num campo bem longe da bolsa, observando a paisagem, Piero diz ter “a sensação de estar no estrangeiro” e Vittoria responde: “Que estranho, a mim és tu que me provocas essa sensação”. Combinam encontrar-se todos os dias, mas a noite cai e nenhum deles aparece. Os cenários - a passadeira junto a um prédio em obras, os descampados e outras paisagens fantasma, permancem. Eles, eclipsaram-se. O eclipse deixa uma sensação de frio e no fim, apetece vestir um casaco como se fosse um abraço.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Noutro lugar

O desejo é uma questão de perspectiva, pelo que pede distância. É espreitar uma desconhecida à janela (e se houver uma cortina ondulante por perto, a provocar intermitências na visão e a alimentar as frágeis aparências, tanto melhor). Não é por acaso que em You’ll meet a tall dark stranger, Woody Allen mostra, primeiro, o escritor sem talento (Roy /Josh Brolin), entediado com o seu casamento com a bela Sally (Naomi Watts), a fantasiar com a misteriosa e sensual vizinha da frente ( Dia /Freida Pinto) e no final, já a viver com Dia, a olhar, interessado, para a figura feminina do prédio da frente, que é precisamente a sua ex-mulher. O desejo é querer estar no outro lugar.

A lei do desejo

O mais secreto desejo do desejo é não se consumar, embora apenas se lembra disso quando já foi reduzido a cinzas.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Masculino - Feminino

É um provérbio alemão (quem diria): Um homem, uma palavra. Uma mulher, um dicionário.

domingo, 18 de setembro de 2011

Cogito ao espelho

Passarmos o dia a analisar a nossa consciência é o equivalente a olharmo-nos fixamente ao espelho durante intermináveis horas: o resultado só pode ser uma terrível distorção.

Musicologia da alma

É uma tentação atribuir aos outros o poder de tirarem o melhor ou o pior de nós, como se fossemos um instrumento musical nas mãos de um músico, que tanto pode revelar o talento para extrair a nossa mais harmoniosa melodia, como apenas obter notas desafinadas e ruidosas. Os outros justificam o facto de sermos simultaneamente um Stradivarius e um violino de plástico.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Elle

Há muitos Verões, a revista Elle encomendou a sua campanha de lançamento em Portugal a um criativo de barbas, de apelido Homem. Centrada no tema do mistério do eterno feminino, ele propôs à cliente três anúncios de imprensa com muito texto e pouca imagem. O título de um deles tem andado comigo estes anos todos, e aparece sempre que alguém fala, desapontado, sobre o outro, com quem passou de uma relação de desconhecimento (leia-se mistério) para a intimidade (com todos os estados sobejamente conhecidos pelo meio): "O que é que foste perdendo à medida que te fui conhecendo"? Aceitam-se respostas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cortesia anacrónica

Perguntou-me, face a face, se aceitava ser sua amiga no facebook.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Paradoxo da fotografia

A fotografia é a imagem em busca de transparência.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Elegância existencial

Quando mandamos coisas para o lixo sentimo-nos imediatamente mais leves, embora nenhuma balança do mundo o possa comprovar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ouvido numa discussão na rua

Eu sei que Deus está do meu lado.

sábado, 6 de agosto de 2011

O olho invisível

Bergman disse um dia que as mulheres têm mais talento para representar do que os homens. A afirmação, segundo ele, não tinha nada de moralista, antes cultural. A representação é uma profissão especialmente feminina porque as mulheres olham para a câmara (e para o espectador) com o mesmo fascínio e entrega com que estão habituadas a olhar-se ao espelho.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Agnosticismo literário

Ele disse-o de forma grandiloquente, como só o fazem os personagens de um romance: “não leio livros de ficção porque não consigo acreditar em histórias que não aconteceram”. Há quem sofra de agnosticismo literário e se contente com o script da realidade.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Imaginação zen

Parece que alguns mestres budistas conseguem ver (depois de muito meditarem) numa pequena ervilha uma grande paisagem.

Rostos entre parênteses

Na fotografia de casamento da sua mãe, uma criança foi colocando o rosto dos seus familiares entre parênteses, conforme embirrava ou se incompatibilizava com tios, primos e padrinhos. Tratou os rostos como palavras, isolou-os como se fossem orações, delimitou o seu período de existência na sua vida. Colocou os parentes entre parênteses e apenas os noivos e os pais da noiva escaparam.

Quando o telefone não toca

Não sei onde li ou ouvi esta frase, que tem tanto de humorístico como de cruel: "Se o telefone não tocar, sou eu". Tal como desconheço por que motivo saltou este fim de tarde do misterioso arquivo da memória. Às vezes, o silêncio não é apenas o silêncio. É a anti-palavra. Uma estridente forma de discurso não tecido pela voz.