quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A lei do desejo

O mais secreto desejo do desejo é não se consumar, embora apenas se lembra disso quando já foi reduzido a cinzas.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Masculino - Feminino

É um provérbio alemão (quem diria): Um homem, uma palavra. Uma mulher, um dicionário.

domingo, 18 de setembro de 2011

Cogito ao espelho

Passarmos o dia a analisar a nossa consciência é o equivalente a olharmo-nos fixamente ao espelho durante intermináveis horas: o resultado só pode ser uma terrível distorção.

Musicologia da alma

É uma tentação atribuir aos outros o poder de tirarem o melhor ou o pior de nós, como se fossemos um instrumento musical nas mãos de um músico, que tanto pode revelar o talento para extrair a nossa mais harmoniosa melodia, como apenas obter notas desafinadas e ruidosas. Os outros justificam o facto de sermos simultaneamente um Stradivarius e um violino de plástico.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Elle

Há muitos Verões, a revista Elle encomendou a sua campanha de lançamento em Portugal a um criativo de barbas, de apelido Homem. Centrada no tema do mistério do eterno feminino, ele propôs à cliente três anúncios de imprensa com muito texto e pouca imagem. O título de um deles tem andado comigo estes anos todos, e aparece sempre que alguém fala, desapontado, sobre o outro, com quem passou de uma relação de desconhecimento (leia-se mistério) para a intimidade (com todos os estados sobejamente conhecidos pelo meio): "O que é que foste perdendo à medida que te fui conhecendo"? Aceitam-se respostas.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Cortesia anacrónica

Perguntou-me, face a face, se aceitava ser sua amiga no facebook.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Paradoxo da fotografia

A fotografia é a imagem em busca de transparência.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Elegância existencial

Quando mandamos coisas para o lixo sentimo-nos imediatamente mais leves, embora nenhuma balança do mundo o possa comprovar.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ouvido numa discussão na rua

Eu sei que Deus está do meu lado.

sábado, 6 de agosto de 2011

O olho invisível

Bergman disse um dia que as mulheres têm mais talento para representar do que os homens. A afirmação, segundo ele, não tinha nada de moralista, antes cultural. A representação é uma profissão especialmente feminina porque as mulheres olham para a câmara (e para o espectador) com o mesmo fascínio e entrega com que estão habituadas a olhar-se ao espelho.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Agnosticismo literário

Ele disse-o de forma grandiloquente, como só o fazem os personagens de um romance: “não leio livros de ficção porque não consigo acreditar em histórias que não aconteceram”. Há quem sofra de agnosticismo literário e se contente com o script da realidade.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Imaginação zen

Parece que alguns mestres budistas conseguem ver (depois de muito meditarem) numa pequena ervilha uma grande paisagem.

Rostos entre parênteses

Na fotografia de casamento da sua mãe, uma criança foi colocando o rosto dos seus familiares entre parênteses, conforme embirrava ou se incompatibilizava com tios, primos e padrinhos. Tratou os rostos como palavras, isolou-os como se fossem orações, delimitou o seu período de existência na sua vida. Colocou os parentes entre parênteses e apenas os noivos e os pais da noiva escaparam.

Quando o telefone não toca

Não sei onde li ou ouvi esta frase, que tem tanto de humorístico como de cruel: "Se o telefone não tocar, sou eu". Tal como desconheço por que motivo saltou este fim de tarde do misterioso arquivo da memória. Às vezes, o silêncio não é apenas o silêncio. É a anti-palavra. Uma estridente forma de discurso não tecido pela voz.

domingo, 31 de julho de 2011

Lógica afectiva

Já me passaram pelas mãos da vida e pelo colo de ganga mais ou menos desbotada várias dezenas de gatos. Curiosamente, os únicos dois que me morderam foram os dois que reconhecidamente mais gostam de mim.

domingo, 24 de julho de 2011

A arte ou a vida

Em Deconstructing Harry, o escritor Harry Block confessa, seis psiquiatras e três ex-mulheres depois, que não tem jeito para viver. Apenas funciona bem na arte.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Belas amígdalas

Quando perguntam a alguém qual acha que é a parte mais bonita do seu corpo, a resposta não costuma ser um órgão interno, por exemplo o pâncreas, as amígdalas (embora estas ainda se consigam vislumbrar), o fémur ou o coração. As respostas remetem para o visível, como se o corpo apenas existisse virado para fora e o seu interior nem sequer nos pertencesse.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Regador de palavras

Ainda não me esqueci da senha. Abro a porta devagar, quase a medo, aquele medo informe que até a imaginação se recusa a preencher. Passo os dedos ao de leve pelo teclado da Hermes Baby e dou passos cuidadosos, não vá pisar alguma fotografia ou ilustração que tenha esvoaçado. Pelo caminho tropeço num asterisco que está fora do sítio, como um sapato esquecido. Devia ter acendido a luz, mas tenho esta mania de andar às escuras pelo corredor, a imitar os gatos. Tiro uma teia de aranha dos tags, desejando que a aranha já tenha encontrado outro canto na casa. Olho pela janela enquanto tento adivinhar quem terá regado as palavras durante a minha ausência.


domingo, 19 de junho de 2011

Teclado desobediente

Há uns meses, o teclado do meu MacBook Pro (que até no nome promete ser profissional) começou a desobedecer-me. Quando escrevo gosto, transforma a palavra em gusto, quando teclo creme, altera para crème. Como se fosse um pequeno animal doméstico (estou a ponderar a hipótese de um gato disfarçado de portátil), tem actos de aparente capricho e falta de lógica. Com gusto, pensei que queria que escrevesse em espanhol, com crème, suspeitei de tendências francófonas, mas esta semana, teimou em tornar inglesa a palavra intelectual (enquanto escrevia este post, só à terceira deixou que a minha vontade prevalecesse e não duplicou o l). E há minutos, descobri que eterna fica imediatamente eternal. Como se o meu Word fosse um tradutor instantâneo de certas palavras para outras línguas. E sim, ele está seleccionado na language Portuguese.

domingo, 29 de maio de 2011

Narcisismo colectivo

A antropomorfização é uma forma de narcisismo comum à nossa espécie.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A máquina do escritor

No DVD Diário de Bordo, da colecção Midas Filmes dedicada aos escritores portugueses, José Cardoso Pires revela que passou a vida à procura, não de uma máquina de escrever, mas de uma máquina de apagar.