domingo, 19 de junho de 2011

Teclado desobediente

Há uns meses, o teclado do meu MacBook Pro (que até no nome promete ser profissional) começou a desobedecer-me. Quando escrevo gosto, transforma a palavra em gusto, quando teclo creme, altera para crème. Como se fosse um pequeno animal doméstico (estou a ponderar a hipótese de um gato disfarçado de portátil), tem actos de aparente capricho e falta de lógica. Com gusto, pensei que queria que escrevesse em espanhol, com crème, suspeitei de tendências francófonas, mas esta semana, teimou em tornar inglesa a palavra intelectual (enquanto escrevia este post, só à terceira deixou que a minha vontade prevalecesse e não duplicou o l). E há minutos, descobri que eterna fica imediatamente eternal. Como se o meu Word fosse um tradutor instantâneo de certas palavras para outras línguas. E sim, ele está seleccionado na language Portuguese.

domingo, 29 de maio de 2011

Narcisismo colectivo

A antropomorfização é uma forma de narcisismo comum à nossa espécie.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A máquina do escritor

No DVD Diário de Bordo, da colecção Midas Filmes dedicada aos escritores portugueses, José Cardoso Pires revela que passou a vida à procura, não de uma máquina de escrever, mas de uma máquina de apagar.

sábado, 21 de maio de 2011

A namorada de Nozolino

Numa das suas raras entrevistas (ao Expresso, a Clara Ferreira Alves), o fotógrafo Paulo Nozolino conta que aos 17 anos tinha uma namorada que adorava e que terminou tudo com ele de repente. Não podia ser. Ele nem sequer tinha uma fotografia dela. Foi a correr a casa buscar a Kodak Instamatic do seu pai e tirou-lhe várias fotografias. Nunca mais a viu, mas decidiu tornar-se fotógrafo nesse dia.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Prova de morte

Talvez a fotografia seja a possibilidade de guardarmos a perda. Uma espécie de bálsamo doloroso que nos consola até ao preciso ponto em que se torna uma dor. Uma prova de vida e, por isso mesmo, uma prova de morte.

Alain de Bottom & queijo Tigre

Tenho uma amiga que vai viver durante tempo indefinido (nem o mais caro e preciso relógio suíço sabe a resposta) para um estranho país: a Suíça. A pouco tempo de partir, e num exercício de auto-convencimento à posteriori, procura os pontos positivos do país da neutralidade, espreitando virtudes suíças nos buraquinhos do queijo Emmentaler. No outro dia, dizia-me ao telefone com um toque de entusiasmo, que o Alain de Bottom é suíço. E de repente, um dos escritores da moda faz parte de uma lista onde também entram o queijo Tigre, Herman Hesse, que se naturalizou suíço um ano depois de ter escrito Siddhartha, os chocolates Toblerone e os lápis Caran D’Ache. Todos eles, com ou sem falsificações, made in Switzerland.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Vida interior

Há estores que funcionam ao contrário: apenas revelam a intimidade quando se cerram. Passam de cortina a palco, como se quisessem dizer a quem olha: também tenho a minha própria vida interior. (fotografia Clara Silva)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Gramática da vida

O gerúndio é o único tempo verbal em que a vida corre em câmara lenta. Só nele se desdobra o tempo como se fosse uma história em papel. Só nele se capta a luz escondida dos verbos que desejam acção. Só nele se embala a música das sílabas dançantes. O gerúndio é a promessa da eternidade que se espreguiça no presente, mesmo debaixo dos olhos da vida.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Susto virtual

Num breve momento de distracção, os olhos levaram à letra a frase escrita a negro na barra amarela. Esquecida que tinha sido a minha mão a apagar o corpo, naquele preciso instante senti-me realmente invisível.

domingo, 8 de maio de 2011

Citação de cor

Num casal, há sempre um que é o guardião da solidão do outro. (Rilke)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Murmúrios a preto e branco

Há fotografias que apetece encostar ao ouvido.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Estranha generosidade

Às vezes damos aos outros aquilo que não conseguimos dar a nós próprios.

sábado, 9 de abril de 2011

Palavras negras

Há palavras que nos provocam nódoas negras. Não importa o cuidado com que nos vamos desviando delas no nosso discurso e no nosso percurso; elas aparecem a qualquer momento, lembrando um pesado móvel de cantos bicudos que mudou de lugar sem fazer barulho. E como se não bastasse essas palavras serem dolorosas só por existirem, o factor surpresa ainda coloca um acento agudo na dor.

Prova abonatória

As mãos falam, são uma espécie de legenda do rosto. É o que nos diz o cinema de Rohmer, que preferia o plano americano ao grande plano, para mostrar o jogo das mãos que seguram entre os dedos as expressões que o rosto esconde.

terça-feira, 29 de março de 2011

Direitos de autor

Como se negocia a autoria numa fotografia? Cinquenta por cento para o fotógrafo e cinquenta por cento para o ser fotografado parece demasiado fácil. E completamente falso. Uma verdadeira negociação tem sempre vírgulas, casas decimais, números pouco redondos, como nos resultados de uma votação.

sábado, 26 de março de 2011

A pele fotográfica

A fotografia tem a textura de uma ficção.

Raios X

A fotografia é a radiografia da alma.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Álibi

O fotógrafo nunca pede desculpa por ser indiscreto.

domingo, 20 de março de 2011

Ménage à trois

A fotografia é sempre um ménage à trois, um triângulo que a trigonometria não consegue explicar: o fotógrafo, o modelo e o espectador da fotografia (mesmo que o espectador seja o modelo).

Mnésis

O fotógrafo é aquele que pode esquecer um nome, mas nunca um rosto.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Jogo mental

Durante o acto fotográfico, fotógrafo e modelo trocam de cabeça, esquecendo o corpo no sítio onde estava.