sexta-feira, 20 de maio de 2011

Alain de Bottom & queijo Tigre

Tenho uma amiga que vai viver durante tempo indefinido (nem o mais caro e preciso relógio suíço sabe a resposta) para um estranho país: a Suíça. A pouco tempo de partir, e num exercício de auto-convencimento à posteriori, procura os pontos positivos do país da neutralidade, espreitando virtudes suíças nos buraquinhos do queijo Emmentaler. No outro dia, dizia-me ao telefone com um toque de entusiasmo, que o Alain de Bottom é suíço. E de repente, um dos escritores da moda faz parte de uma lista onde também entram o queijo Tigre, Herman Hesse, que se naturalizou suíço um ano depois de ter escrito Siddhartha, os chocolates Toblerone e os lápis Caran D’Ache. Todos eles, com ou sem falsificações, made in Switzerland.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Vida interior

Há estores que funcionam ao contrário: apenas revelam a intimidade quando se cerram. Passam de cortina a palco, como se quisessem dizer a quem olha: também tenho a minha própria vida interior. (fotografia Clara Silva)

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Gramática da vida

O gerúndio é o único tempo verbal em que a vida corre em câmara lenta. Só nele se desdobra o tempo como se fosse uma história em papel. Só nele se capta a luz escondida dos verbos que desejam acção. Só nele se embala a música das sílabas dançantes. O gerúndio é a promessa da eternidade que se espreguiça no presente, mesmo debaixo dos olhos da vida.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Susto virtual

Num breve momento de distracção, os olhos levaram à letra a frase escrita a negro na barra amarela. Esquecida que tinha sido a minha mão a apagar o corpo, naquele preciso instante senti-me realmente invisível.

domingo, 8 de maio de 2011

Citação de cor

Num casal, há sempre um que é o guardião da solidão do outro. (Rilke)

terça-feira, 3 de maio de 2011

Murmúrios a preto e branco

Há fotografias que apetece encostar ao ouvido.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Estranha generosidade

Às vezes damos aos outros aquilo que não conseguimos dar a nós próprios.

sábado, 9 de abril de 2011

Palavras negras

Há palavras que nos provocam nódoas negras. Não importa o cuidado com que nos vamos desviando delas no nosso discurso e no nosso percurso; elas aparecem a qualquer momento, lembrando um pesado móvel de cantos bicudos que mudou de lugar sem fazer barulho. E como se não bastasse essas palavras serem dolorosas só por existirem, o factor surpresa ainda coloca um acento agudo na dor.

Prova abonatória

As mãos falam, são uma espécie de legenda do rosto. É o que nos diz o cinema de Rohmer, que preferia o plano americano ao grande plano, para mostrar o jogo das mãos que seguram entre os dedos as expressões que o rosto esconde.

terça-feira, 29 de março de 2011

Direitos de autor

Como se negocia a autoria numa fotografia? Cinquenta por cento para o fotógrafo e cinquenta por cento para o ser fotografado parece demasiado fácil. E completamente falso. Uma verdadeira negociação tem sempre vírgulas, casas decimais, números pouco redondos, como nos resultados de uma votação.

sábado, 26 de março de 2011

A pele fotográfica

A fotografia tem a textura de uma ficção.

Raios X

A fotografia é a radiografia da alma.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Álibi

O fotógrafo nunca pede desculpa por ser indiscreto.

domingo, 20 de março de 2011

Ménage à trois

A fotografia é sempre um ménage à trois, um triângulo que a trigonometria não consegue explicar: o fotógrafo, o modelo e o espectador da fotografia (mesmo que o espectador seja o modelo).

Mnésis

O fotógrafo é aquele que pode esquecer um nome, mas nunca um rosto.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Jogo mental

Durante o acto fotográfico, fotógrafo e modelo trocam de cabeça, esquecendo o corpo no sítio onde estava.

A linguagem da imagem

A imagem é uma língua que não sabemos falar. Não podemos pedir ao fotógrafo: fotografa-me em italiano, revela-me em inglês, mostra-me em alemão. O silêncio é sempre intraduzível.

História analógica

Tirava fotografias fingindo não saber que não tinha rolo na máquina.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Crítica ao elogio

O elogio tem o efeito de uma anestesia local no ego. Com a agravante do seu efeito permanecer por um tempo indefinido.

terça-feira, 1 de março de 2011

Preto e branco

Talvez as fotografias a preto e branco se devessem chamar, antes, a todas as cores e a nenhuma.

Ingvar ou Ingmar?

São dois suecos, famosos por motivos muito distintos. Um, veste as casas de meio planeta com muitas cores e formas minimais; o outro, coloca a nossa alma a nu e mostra-nos o seu design secreto, preferencialmente a preto e branco. Há vidas em que eles se cruzam, quando um móvel do Ikea alberga os filmes de Bergman. Em quantas casas no mundo inteiro acontecerá isso?