segunda-feira, 11 de abril de 2011
sábado, 9 de abril de 2011
Palavras negras

Há palavras que nos provocam nódoas negras. Não importa o cuidado com que nos vamos desviando delas no nosso discurso e no nosso percurso; elas aparecem a qualquer momento, lembrando um pesado móvel de cantos bicudos que mudou de lugar sem fazer barulho. E como se não bastasse essas palavras serem dolorosas só por existirem, o factor surpresa ainda coloca um acento agudo na dor.
Prova abonatória
terça-feira, 29 de março de 2011
sábado, 26 de março de 2011
segunda-feira, 21 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
Ménage à trois
sexta-feira, 18 de março de 2011
Jogo mental
A linguagem da imagem
quarta-feira, 16 de março de 2011
Crítica ao elogio
terça-feira, 1 de março de 2011
Ingvar ou Ingmar?

São dois suecos, famosos por motivos muito distintos. Um, veste as casas de meio planeta com muitas cores e formas minimais; o outro, coloca a nossa alma a nu e mostra-nos o seu design secreto, preferencialmente a preto e branco. Há vidas em que eles se cruzam, quando um móvel do Ikea alberga os filmes de Bergman. Em quantas casas no mundo inteiro acontecerá isso?
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Queda providencial

Do alto da estante, como um suicida determinado, cai-me um livro na cabeça. Felizmente, é de pequeno porte e provoca apenas um ligeiro susto, devidamente atenuado pela sua sustentável leveza. São os aforismos do vienense Arthur Schnitzler, "Relações e Solidão", vestidos bem a propósito com uma imagem de outro austríaco, Egon Schiele. Tal como Freud, Schnitzler gostava de ler a alma dos outros e de ouvir a sua própria com particular atenção. Escritas num tempo longínquo e compradas numa Primavera distante, estas palavras quase cegam, com a sua lucidez, o nosso olhar de século XXI: "Aquilo que gasta mais depressa a nossa alma e lhe causa mais dano: o perdão sem esquecimento". Ou :"Destino tragicómico: saber a vida destruída e não ter nenhum ombro para chorar a não ser precisamente o daquela pessoa por quem essa vida foi destruída". Ou ainda:"Aquele que confia só é enganado de vez em quando; aquele que não confia é-o a todo o momento: quando é enganado e o sabe - quando não é enganado e se julga enganado". Mais: "Desconfia do instante em que começas a estar orgulhoso da tua solidão; no momento seguinte desperta em ti o desejo de encontrar pessoas". Ao lado da palavra "Relações", num indeterminado plural, "Solidão" parece ainda mais só.
Adeus, Europa

Parecia um cenário de um filme. Um dinossauro de metal com o número 944 no dorso trincou, em duas frias manhãs de Fevereiro, de forma mecanicamente selvagem as paredes do cinema Europa. Foi levando nas suas ferozes mandíbulas, além das dentadas de cimento e pedra, invisíveis pedaços de película em Technicolor, palavras brancas caídas das legendas dos filmes, risos abafados, matinés de domingo, declarações de amor, lágrimas disfarçadas, noites de sábado, bilhetes de plateia amarelecidos pelo tempo, cartazes com deusas de carne e osso ou solitários cow-boys, beijos a preto e branco, perseguições de automóveis a cores, o bigode de Charlot, os olhos de Gene Tierney, a voz de Lawrence Olivier, as personagens de Bergman e três letras repetidas incansavelmente no fim de cada sessão. Campo de Ourique tinha o seu cinema Paraíso (embora lhe tivesse dado outro nome). Agora, tem um buraco na sua memória, que nenhum condomínio privado com apartamentos de luxo, piscina (e eventualmente um centro cultural) poderá preencher.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Argumento teológico

Nas repartições públicas, nas lojas e noutros cenários onde alguém coloque uma questão que põe em causa as (provavelmente absurdas) leis de funcionamento desse pequeno mundo governado por uma entidade abstracta (ou pelo menos ausente), é frequente ouvir como argumento a expressão: apenas cumpro ordens superiores. Como se o sujeito que assim responde fosse o fiel e obediente representante de uma entidade divina, a ponto de parecer que só ele tem acesso àquele deus caprichoso e legislador das pequenas coisas. O que aconteceria se justificássemos os nossos gestos e comportamentos quotidianos, dos mais evidentes aos particularmente incompreensíveis, com este imbatível argumento teológico: apenas cumpro ordens superiores? E se Deus fosse uma boa desculpa para (quase) tudo?
Presente subtil
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