terça-feira, 29 de março de 2011

Direitos de autor

Como se negocia a autoria numa fotografia? Cinquenta por cento para o fotógrafo e cinquenta por cento para o ser fotografado parece demasiado fácil. E completamente falso. Uma verdadeira negociação tem sempre vírgulas, casas decimais, números pouco redondos, como nos resultados de uma votação.

sábado, 26 de março de 2011

A pele fotográfica

A fotografia tem a textura de uma ficção.

Raios X

A fotografia é a radiografia da alma.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Álibi

O fotógrafo nunca pede desculpa por ser indiscreto.

domingo, 20 de março de 2011

Ménage à trois

A fotografia é sempre um ménage à trois, um triângulo que a trigonometria não consegue explicar: o fotógrafo, o modelo e o espectador da fotografia (mesmo que o espectador seja o modelo).

Mnésis

O fotógrafo é aquele que pode esquecer um nome, mas nunca um rosto.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Jogo mental

Durante o acto fotográfico, fotógrafo e modelo trocam de cabeça, esquecendo o corpo no sítio onde estava.

A linguagem da imagem

A imagem é uma língua que não sabemos falar. Não podemos pedir ao fotógrafo: fotografa-me em italiano, revela-me em inglês, mostra-me em alemão. O silêncio é sempre intraduzível.

História analógica

Tirava fotografias fingindo não saber que não tinha rolo na máquina.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Crítica ao elogio

O elogio tem o efeito de uma anestesia local no ego. Com a agravante do seu efeito permanecer por um tempo indefinido.

terça-feira, 1 de março de 2011

Preto e branco

Talvez as fotografias a preto e branco se devessem chamar, antes, a todas as cores e a nenhuma.

Ingvar ou Ingmar?

São dois suecos, famosos por motivos muito distintos. Um, veste as casas de meio planeta com muitas cores e formas minimais; o outro, coloca a nossa alma a nu e mostra-nos o seu design secreto, preferencialmente a preto e branco. Há vidas em que eles se cruzam, quando um móvel do Ikea alberga os filmes de Bergman. Em quantas casas no mundo inteiro acontecerá isso?

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Teste de Rorschach

As nuvens são o teste de Rorschach de Deus.

Queda providencial


Do alto da estante, como um suicida determinado, cai-me um livro na cabeça. Felizmente, é de pequeno porte e provoca apenas um ligeiro susto, devidamente atenuado pela sua sustentável leveza. São os aforismos do vienense Arthur Schnitzler, "Relações e Solidão", vestidos bem a propósito com uma imagem de outro austríaco, Egon Schiele. Tal como Freud, Schnitzler gostava de ler a alma dos outros e de ouvir a sua própria com particular atenção. Escritas num tempo longínquo e compradas numa Primavera distante, estas palavras quase cegam, com a sua lucidez, o nosso olhar de século XXI: "Aquilo que gasta mais depressa a nossa alma e lhe causa mais dano: o perdão sem esquecimento". Ou :"Destino tragicómico: saber a vida destruída e não ter nenhum ombro para chorar a não ser precisamente o daquela pessoa por quem essa vida foi destruída". Ou ainda:"Aquele que confia só é enganado de vez em quando; aquele que não confia é-o a todo o momento: quando é enganado e o sabe - quando não é enganado e se julga enganado". Mais: "Desconfia do instante em que começas a estar orgulhoso da tua solidão; no momento seguinte desperta em ti o desejo de encontrar pessoas". Ao lado da palavra "Relações", num indeterminado plural, "Solidão" parece ainda mais só.

Adeus, Europa

Parecia um cenário de um filme. Um dinossauro de metal com o número 944 no dorso trincou, em duas frias manhãs de Fevereiro, de forma mecanicamente selvagem as paredes do cinema Europa. Foi levando nas suas ferozes mandíbulas, além das dentadas de cimento e pedra, invisíveis pedaços de película em Technicolor, palavras brancas caídas das legendas dos filmes, risos abafados, matinés de domingo, declarações de amor, lágrimas disfarçadas, noites de sábado, bilhetes de plateia amarelecidos pelo tempo, cartazes com deusas de carne e osso ou solitários cow-boys, beijos a preto e branco, perseguições de automóveis a cores, o bigode de Charlot, os olhos de Gene Tierney, a voz de Lawrence Olivier, as personagens de Bergman e três letras repetidas incansavelmente no fim de cada sessão. Campo de Ourique tinha o seu cinema Paraíso (embora lhe tivesse dado outro nome). Agora, tem um buraco na sua memória, que nenhum condomínio privado com apartamentos de luxo, piscina (e eventualmente um centro cultural) poderá preencher.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Ouvido no hospital veterinário

O Murnau tem alta hoje.

Argumento teológico

Nas repartições públicas, nas lojas e noutros cenários onde alguém coloque uma questão que põe em causa as (provavelmente absurdas) leis de funcionamento desse pequeno mundo governado por uma entidade abstracta (ou pelo menos ausente), é frequente ouvir como argumento a expressão: apenas cumpro ordens superiores. Como se o sujeito que assim responde fosse o fiel e obediente representante de uma entidade divina, a ponto de parecer que só ele tem acesso àquele deus caprichoso e legislador das pequenas coisas. O que aconteceria se justificássemos os nossos gestos e comportamentos quotidianos, dos mais evidentes aos particularmente incompreensíveis, com este imbatível argumento teológico: apenas cumpro ordens superiores? E se Deus fosse uma boa desculpa para (quase) tudo?

Presente subtil

O sacrifício é uma forma subtil de generosidade. Muitas vezes, oferecemos o que perdemos ou aquilo a que renunciámos. Talvez por não ter papel de embrulho ou laçarote, o sacrifício não pareça um presente.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Admiração dúplice

A admiração é uma forma de narcisismo velada. Pressupõe um qualquer modo de compreensão que nivela o que, à partida, está desnivelado por natureza (daí a nossa admiração). Não nos limitamos a admirar o outro; admiramos a nossa admiração pelo outro.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Cumprimento megalómano

Por estes dias, não temos dito "bom dia", mas sim "bom ano". Damos outro comprimento ao dia.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Pergunta hi-tech

Já domesticaste o teu ipad?