sexta-feira, 18 de março de 2011
quarta-feira, 16 de março de 2011
Crítica ao elogio
terça-feira, 1 de março de 2011
Ingvar ou Ingmar?

São dois suecos, famosos por motivos muito distintos. Um, veste as casas de meio planeta com muitas cores e formas minimais; o outro, coloca a nossa alma a nu e mostra-nos o seu design secreto, preferencialmente a preto e branco. Há vidas em que eles se cruzam, quando um móvel do Ikea alberga os filmes de Bergman. Em quantas casas no mundo inteiro acontecerá isso?
sábado, 19 de fevereiro de 2011
Queda providencial

Do alto da estante, como um suicida determinado, cai-me um livro na cabeça. Felizmente, é de pequeno porte e provoca apenas um ligeiro susto, devidamente atenuado pela sua sustentável leveza. São os aforismos do vienense Arthur Schnitzler, "Relações e Solidão", vestidos bem a propósito com uma imagem de outro austríaco, Egon Schiele. Tal como Freud, Schnitzler gostava de ler a alma dos outros e de ouvir a sua própria com particular atenção. Escritas num tempo longínquo e compradas numa Primavera distante, estas palavras quase cegam, com a sua lucidez, o nosso olhar de século XXI: "Aquilo que gasta mais depressa a nossa alma e lhe causa mais dano: o perdão sem esquecimento". Ou :"Destino tragicómico: saber a vida destruída e não ter nenhum ombro para chorar a não ser precisamente o daquela pessoa por quem essa vida foi destruída". Ou ainda:"Aquele que confia só é enganado de vez em quando; aquele que não confia é-o a todo o momento: quando é enganado e o sabe - quando não é enganado e se julga enganado". Mais: "Desconfia do instante em que começas a estar orgulhoso da tua solidão; no momento seguinte desperta em ti o desejo de encontrar pessoas". Ao lado da palavra "Relações", num indeterminado plural, "Solidão" parece ainda mais só.
Adeus, Europa

Parecia um cenário de um filme. Um dinossauro de metal com o número 944 no dorso trincou, em duas frias manhãs de Fevereiro, de forma mecanicamente selvagem as paredes do cinema Europa. Foi levando nas suas ferozes mandíbulas, além das dentadas de cimento e pedra, invisíveis pedaços de película em Technicolor, palavras brancas caídas das legendas dos filmes, risos abafados, matinés de domingo, declarações de amor, lágrimas disfarçadas, noites de sábado, bilhetes de plateia amarelecidos pelo tempo, cartazes com deusas de carne e osso ou solitários cow-boys, beijos a preto e branco, perseguições de automóveis a cores, o bigode de Charlot, os olhos de Gene Tierney, a voz de Lawrence Olivier, as personagens de Bergman e três letras repetidas incansavelmente no fim de cada sessão. Campo de Ourique tinha o seu cinema Paraíso (embora lhe tivesse dado outro nome). Agora, tem um buraco na sua memória, que nenhum condomínio privado com apartamentos de luxo, piscina (e eventualmente um centro cultural) poderá preencher.
sábado, 15 de janeiro de 2011
Argumento teológico

Nas repartições públicas, nas lojas e noutros cenários onde alguém coloque uma questão que põe em causa as (provavelmente absurdas) leis de funcionamento desse pequeno mundo governado por uma entidade abstracta (ou pelo menos ausente), é frequente ouvir como argumento a expressão: apenas cumpro ordens superiores. Como se o sujeito que assim responde fosse o fiel e obediente representante de uma entidade divina, a ponto de parecer que só ele tem acesso àquele deus caprichoso e legislador das pequenas coisas. O que aconteceria se justificássemos os nossos gestos e comportamentos quotidianos, dos mais evidentes aos particularmente incompreensíveis, com este imbatível argumento teológico: apenas cumpro ordens superiores? E se Deus fosse uma boa desculpa para (quase) tudo?
Presente subtil
domingo, 9 de janeiro de 2011
Admiração dúplice
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
domingo, 2 de janeiro de 2011
O tempo suspenso
Ouvido a um octogenário
Ouvido a uma criança
sábado, 1 de janeiro de 2011
A sabedoria dos fracos

Numa caixa de bombons, ninguém começa pelos sabores de que julga gostar menos. Os primeiros a serem escolhidos (no caso da caixa ter uma legenda com a imagem de cada um deles e a indicação da sua composição, como se de um mini-dicionário ilustrado se tratasse, a tarefa fica até bastante mais facilitada) são inevitavelmente aqueles que se adivinham como preferidos. Chocolate com avelãs, praliné, crocante, arroz tufado, framboesas, com café. Nada de chocolate branco ou recheio de ananás e caramelo. Sobretudo, nada de coco ou pistáchio. Alguns dias mais tarde, na ausência de termos de comparação, os bombons preteridos podem saber melhor do que os primeiros, os que foram preferidos. Será essa a sabedoria dos fracos: esperarem pacientemente pela sua vez?
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
O ladrão melancólico

Separados por poucos meses e alguns quilómetros, foram roubados dois “Nada de Melancolia” do Pedro Mexia, de duas livrarias Bulhosa. Haverá um melancólico ladrão à solta? Terá sido o mesmo ladrão em Oeiras e em Campo de Ourique? E nesse caso, para que quereria ele uma segunda cópia? Para oferecer? Qual terá sido o título da crónica ou o número da página que lhe deram a coragem necessária para roubar o livro? Andará de comboio a lê-lo e terá como marcador de livro um bilhete obliterado? Mas afinal, roubar nada de melancolia é roubar alguma coisa? E a expressão "ladrão melancólico" não será redundante? Não é sempre por melancolia que o ladrão rouba, para preencher a ausência que dói?
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