sábado, 11 de dezembro de 2010

Verdade a preto e branco

Então, ele disse: Um piano desafinado é um piano em sofrimento.

Sonho lúcido

Às vezes, sonhamos que estamos a sonhar. Mas isso, em vez de nos descansar, ainda adensa mais a complexidade da experiência. Porque faz parte dos sonhos acreditarmos que aquilo está mesmo a acontecer (tomando o sonho por realidade). Ou talvez porque estejamos a ter dois sonhos em simultâneo. Ou porque, apesar de sabermos que se trata de um sonho, desconhecemos como sair dele, como se tivéssemos entrado numa casa cuja porta entretanto desapareceu.

Ouvido no Pingo Doce

- Às vezes, zango-me com Deus.
- E o que fazes?
- Ralho-lhe.

Mapa de palavras

Peixes com pernas. Fantasma do amor. Primeira máquina fotográfica. Ponto de interrogação. Wittgenstein trabalhou num jardim de freiras. Melhor designer gráfico do mundo. É perseguindo este mapa de palavras que alguns chegam aqui. Por mero acaso.

domingo, 24 de outubro de 2010

Imaginar

Imaginar é espreitar o que não aconteceu.
(fotografia de Maya Deren)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

A colecção de cromos

O Facebook parece uma caderneta de 5 mil cromos. Só que, em vez de ser com equipas de futebol ou personagens dos desenhos animados, é com rostos reais (serão?). Também por isso, demora muito mais tempo a completar e os cromos difíceis não se podem obter por troca. No mundo inteiro, não há duas colecções completas rigorosamente iguais. A qualidade da colecção (ter mais cromos difíceis, logo raros, do que outra) não interfere na contabilidade final. São sempre 5 mil faces (leia-se cromos) que é preciso juntar, sejam quais forem as caras, os nomes, o nível de conhecimento ou a amizade real. No entanto, há colecções que valem muito mais do que outras, a julgar pela sonoridade e visual dos nomes que a compõem. Há muitos nomes conhecidos (escritores, actores, jornalistas, artistas plásticos) que aceitam quase qualquer um para seu facebook friend. O que acontece é que depois, de tanto se banalizarem, deixam de o fazer pois estão perto de completar a sua própria colecção. E aí, tornam-se mais raros do que nunca. A única solução (não sei se na vida virtual, à semelhança do que acontece na real, podemos eliminar os amigos e cortá-los da nossa lista das amizades, reduzindo assim o seu número) é começar uma nova caderneta. Mas o que confere raridade a um cromo pode nem sequer ser a popularidade da figura em questão. Há também figuras anónimas que não concedem o carimbo desta amizade virtual sem mais nem menos e, apesar de não serem cromos importantes, tornam-se difíceis. Sobretudo, para quem não goste de ficar com um pedido sem resposta. Ainda não percebi se uma pessoa pode ser facebook friend de si própria, embora a vida aconselhe sabiamente: sê o teu melhor amigo.

domingo, 10 de outubro de 2010

O melhor designer gráfico do mundo

Os gatos são a prova inequívoca de que Deus é o melhor designer gráfico do mundo.
(fotografia de Catarina Saraiva)

A ratoeira do tempo

O tempo é uma ratoeira a que a fotografia não sabe escapar. Não se consegue fotografar o passado (embora tenhamos a ilusão de que é o passado que foi fotografado, sempre que olhamos para uma fotografia), do mesmo modo que não se consegue fotografar o futuro.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

... ( ) " " â

As reticências são um ponto final gago?
Os parêntesis parecem pestanas caídas no texto.
Estarão as aspas de sobrolho franzido?
O acento circunflexo é o mais cavalheiro dos sinais ortográficos.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Life friends

Descobri no outro dia que há um limite de amigos no facebook: 5000. Na vida real, felizmente, são muito menos. Talvez entre 6 a 10 amigos. Para quem tiver dúvidas sobre o número exacto, nada melhor do que começar por fazer algumas perguntas, cuja resposta tem como exigência ser apenas um número. Daqueles a quem chamamos amigos, quantos nos iriam buscar à China? Quantos se levantariam de noite para levar o nosso gato ao hospital veterinário? Quantos ficariam com os olhos a brilhar se nos avistassem ao longe? Quantos conseguiriam adivinhar o nosso pensamento antes de nós? E quantos nos emprestariam dinheiro e fingiriam ter-se esquecido disso? Com quantos poderíamos partilhar um segredo e saber que ele continuaria a ser isso mesmo, um segredo? Quantos nos visitariam no hospital? (a pergunta deve ser feita com vários exemplos de doenças, que necessariamente terão respostas diferentes). Quantos teriam paciência para ouvir o nosso coração despedaçado ao telefone durante várias horas, a repetir os mesmos pedaços de frases? Quantos esperariam uma hora e meia por nós com um sorriso no rosto? Quantos se preocupariam realmente em saber se tinhamos chegado bem a casa, depois de um encontro? Com quantos poderíamos estar uma hora em eloquente silêncio? E finalmente, uma pergunta noutro tempo verbal: quantos irão ao nosso funeral?

Às vezes

Às vezes, é preferível fazer as coisas mais íntimas com estranhos.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cintilantes

Há palavras que cintilam como estrelas.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tripla citação


Quando citamos a citação de uma citação, deveríamos colocar aspas três vezes? """Pode um homem matar o tempo sem ferir a eternidade?""" - Thoreau, citado por George Steiner em The New Yorker (ed. Gradiva), citado aqui.

A um passo de Deus

Há uma teoria que diz que estamos a apenas 2,3, na pior das hipóteses a 4 passos de conhecer alguém famoso. Seja o Johnny Depp, a Angelina Jolie, o Cristiano Ronaldo, o António Lobo Antunes, a Kate Moss, o Papa ou o Bill Gates. Há sempre alguém que conhecemos que conhece alguém que conhece. Não interessa se é um jornalista, um empregado de bar, uma antiga colega do liceu, um vizinho do prédio, uma cozinheira macrobiótica ou um dos nossos maiores amigos. O que essa teoria se esquece de nos lembrar, é que estamos apenas a um passo de conhecer Deus: nós próprios.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Falsas memórias

As fotografias promovem falsas memórias. Muitas vezes não nos lembramos se realmente vivemos um momento ou se há uma fotografia que nos lembra que vivemos esse momento. Um pouco como se não nos recordássemos com toda a certeza de que lá tínhamos estado, mas alguém nos provasse isso. E nós acreditássemos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Greguérias # 145 / A raposa

A raposa parece um cão disfarçado de gato.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Greguérias # 144 / O girassol

De noite, o girassol muda o nome para giralua.

domingo, 9 de maio de 2010

The Hungry Eye # 50

A fotografia é a cicatriz da imagem.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Greguérias # 144 / O mundo

O mundo é o berlinde de Deus.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Batota ontológica

Sempre que se fotografa a si próprio, tornando-se simultaneamente sujeito e objecto, o fotógrafo faz uma espécie de batota ontológica. Embora o olhar e a pose coincidam no jogo do auto-retrato, o eu acredita que é o outro. É o Narciso que não se reconhece no reflexo da imagem que obedece à visão interior.

domingo, 25 de abril de 2010

O fotógrafo sonâmbulo

Talvez haja, algures no mundo, um fotógrafo sonâmbulo. Em certas noites, de olhos fixamente abertos, poderia percorrer a casa e tirar fotografias. Ou então, e porque estava a dormir, teria acesso a algo quase inimaginável: fotografar os seus sonhos. Em ambos os casos, de nada se lembraria pela manhã, quando os primeiros raios de sol o despertassem a ele e à máquina fotográfica dormindo a seu lado.