quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Life friends

Descobri no outro dia que há um limite de amigos no facebook: 5000. Na vida real, felizmente, são muito menos. Talvez entre 6 a 10 amigos. Para quem tiver dúvidas sobre o número exacto, nada melhor do que começar por fazer algumas perguntas, cuja resposta tem como exigência ser apenas um número. Daqueles a quem chamamos amigos, quantos nos iriam buscar à China? Quantos se levantariam de noite para levar o nosso gato ao hospital veterinário? Quantos ficariam com os olhos a brilhar se nos avistassem ao longe? Quantos conseguiriam adivinhar o nosso pensamento antes de nós? E quantos nos emprestariam dinheiro e fingiriam ter-se esquecido disso? Com quantos poderíamos partilhar um segredo e saber que ele continuaria a ser isso mesmo, um segredo? Quantos nos visitariam no hospital? (a pergunta deve ser feita com vários exemplos de doenças, que necessariamente terão respostas diferentes). Quantos teriam paciência para ouvir o nosso coração despedaçado ao telefone durante várias horas, a repetir os mesmos pedaços de frases? Quantos esperariam uma hora e meia por nós com um sorriso no rosto? Quantos se preocupariam realmente em saber se tinhamos chegado bem a casa, depois de um encontro? Com quantos poderíamos estar uma hora em eloquente silêncio? E finalmente, uma pergunta noutro tempo verbal: quantos irão ao nosso funeral?

Às vezes

Às vezes, é preferível fazer as coisas mais íntimas com estranhos.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Cintilantes

Há palavras que cintilam como estrelas.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Tripla citação


Quando citamos a citação de uma citação, deveríamos colocar aspas três vezes? """Pode um homem matar o tempo sem ferir a eternidade?""" - Thoreau, citado por George Steiner em The New Yorker (ed. Gradiva), citado aqui.

A um passo de Deus

Há uma teoria que diz que estamos a apenas 2,3, na pior das hipóteses a 4 passos de conhecer alguém famoso. Seja o Johnny Depp, a Angelina Jolie, o Cristiano Ronaldo, o António Lobo Antunes, a Kate Moss, o Papa ou o Bill Gates. Há sempre alguém que conhecemos que conhece alguém que conhece. Não interessa se é um jornalista, um empregado de bar, uma antiga colega do liceu, um vizinho do prédio, uma cozinheira macrobiótica ou um dos nossos maiores amigos. O que essa teoria se esquece de nos lembrar, é que estamos apenas a um passo de conhecer Deus: nós próprios.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Falsas memórias

As fotografias promovem falsas memórias. Muitas vezes não nos lembramos se realmente vivemos um momento ou se há uma fotografia que nos lembra que vivemos esse momento. Um pouco como se não nos recordássemos com toda a certeza de que lá tínhamos estado, mas alguém nos provasse isso. E nós acreditássemos.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Greguérias # 145 / A raposa

A raposa parece um cão disfarçado de gato.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Greguérias # 144 / O girassol

De noite, o girassol muda o nome para giralua.

domingo, 9 de maio de 2010

The Hungry Eye # 50

A fotografia é a cicatriz da imagem.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Greguérias # 144 / O mundo

O mundo é o berlinde de Deus.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Batota ontológica

Sempre que se fotografa a si próprio, tornando-se simultaneamente sujeito e objecto, o fotógrafo faz uma espécie de batota ontológica. Embora o olhar e a pose coincidam no jogo do auto-retrato, o eu acredita que é o outro. É o Narciso que não se reconhece no reflexo da imagem que obedece à visão interior.

domingo, 25 de abril de 2010

O fotógrafo sonâmbulo

Talvez haja, algures no mundo, um fotógrafo sonâmbulo. Em certas noites, de olhos fixamente abertos, poderia percorrer a casa e tirar fotografias. Ou então, e porque estava a dormir, teria acesso a algo quase inimaginável: fotografar os seus sonhos. Em ambos os casos, de nada se lembraria pela manhã, quando os primeiros raios de sol o despertassem a ele e à máquina fotográfica dormindo a seu lado.

sábado, 24 de abril de 2010

O melhor esconderijo

Tirando os sonhos de uma menina, o melhor esconderijo para o Cheshire Cat continua a ser a sua cabeça louramente sonhadora.

Greguérias # 144 / Os braços

Os braços são asas demasiado cansadas para voar.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A fotogenia

A fotogenia alimenta um curioso equívoco: parece ser a grande reveladora de uma beleza escondida, quando, pelo contrário, é a inesperada criadora de uma beleza inexistente. A fotogenia não descobre uma imagem; inventa-a. Diz à cópia: és (ainda) mais bela do que o original.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O espelho

O sonho secreto do espelho era ser uma porta. Assim, podia mostrar tudo o que acontece do outro lado.

Voyeur do invisível

O fotógrafo é um grande voyeur. Ponto final. Deve ser por isso que espreita o mundo, o outro, as paisagens e os rostos com um olho fechado, como se espreitasse o buraco de uma fechadura. E para não ver pela metade, pede um olho mecânico emprestado, ao qual não pára de exigir que veja cada vez melhor. É um voyeur do mundo e de si próprio, do visível e do invisível. Quer ver melhor, para ver mais e até ver aquilo que apenas imagina. Quer ver o nunca visto. E leva o seu voyeurismo ao paroxismo de querer fotografar o que não vê.

The Hungry Eye # 45

Quantas vezes, de máquina fotográfica na mão, o fotógrafo não deseja ser invisível, esquecido de que a máquina o trairia?

domingo, 18 de abril de 2010

The Hungry Eye # 44

O fotógrafo é aquele que desistiu de pintar e começou a desenhar com luz.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

The Hungry Eye # 43

Talvez o fotógrafo queira ver apenas meia realidade.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

The Hungry Eye # 42

Depois da sua mulher morrer, Nobuyoshi Araki fotografava o céu, visto da varanda de casa. Acreditava que o rosto dela ia aparecer ali, algures entre as nuvens.