quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Greguérias # 145 / A raposa

A raposa parece um cão disfarçado de gato.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Greguérias # 144 / O girassol

De noite, o girassol muda o nome para giralua.

domingo, 9 de maio de 2010

The Hungry Eye # 50

A fotografia é a cicatriz da imagem.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Greguérias # 144 / O mundo

O mundo é o berlinde de Deus.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Batota ontológica

Sempre que se fotografa a si próprio, tornando-se simultaneamente sujeito e objecto, o fotógrafo faz uma espécie de batota ontológica. Embora o olhar e a pose coincidam no jogo do auto-retrato, o eu acredita que é o outro. É o Narciso que não se reconhece no reflexo da imagem que obedece à visão interior.

domingo, 25 de abril de 2010

O fotógrafo sonâmbulo

Talvez haja, algures no mundo, um fotógrafo sonâmbulo. Em certas noites, de olhos fixamente abertos, poderia percorrer a casa e tirar fotografias. Ou então, e porque estava a dormir, teria acesso a algo quase inimaginável: fotografar os seus sonhos. Em ambos os casos, de nada se lembraria pela manhã, quando os primeiros raios de sol o despertassem a ele e à máquina fotográfica dormindo a seu lado.

sábado, 24 de abril de 2010

O melhor esconderijo

Tirando os sonhos de uma menina, o melhor esconderijo para o Cheshire Cat continua a ser a sua cabeça louramente sonhadora.

Greguérias # 144 / Os braços

Os braços são asas demasiado cansadas para voar.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

A fotogenia

A fotogenia alimenta um curioso equívoco: parece ser a grande reveladora de uma beleza escondida, quando, pelo contrário, é a inesperada criadora de uma beleza inexistente. A fotogenia não descobre uma imagem; inventa-a. Diz à cópia: és (ainda) mais bela do que o original.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O espelho

O sonho secreto do espelho era ser uma porta. Assim, podia mostrar tudo o que acontece do outro lado.

Voyeur do invisível

O fotógrafo é um grande voyeur. Ponto final. Deve ser por isso que espreita o mundo, o outro, as paisagens e os rostos com um olho fechado, como se espreitasse o buraco de uma fechadura. E para não ver pela metade, pede um olho mecânico emprestado, ao qual não pára de exigir que veja cada vez melhor. É um voyeur do mundo e de si próprio, do visível e do invisível. Quer ver melhor, para ver mais e até ver aquilo que apenas imagina. Quer ver o nunca visto. E leva o seu voyeurismo ao paroxismo de querer fotografar o que não vê.

The Hungry Eye # 45

Quantas vezes, de máquina fotográfica na mão, o fotógrafo não deseja ser invisível, esquecido de que a máquina o trairia?

domingo, 18 de abril de 2010

The Hungry Eye # 44

O fotógrafo é aquele que desistiu de pintar e começou a desenhar com luz.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

The Hungry Eye # 43

Talvez o fotógrafo queira ver apenas meia realidade.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

The Hungry Eye # 42

Depois da sua mulher morrer, Nobuyoshi Araki fotografava o céu, visto da varanda de casa. Acreditava que o rosto dela ia aparecer ali, algures entre as nuvens.

The Hungry Eye # 41

O rosto é a chave do corpo.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

The Hungry Eye # 40

Se a fotografia não tivesse sido inventada, como poderíamos existir a preto e branco?

terça-feira, 6 de abril de 2010

The Hungry Eye # 39

Quem se expõe mais numa fotografia: o fotógrafo ou o ser fotografado?

terça-feira, 30 de março de 2010

As lágrimas

As personagens literárias estão expressamente proibidas de chorar. Já imaginaram o que era, as palavras começarem a desbotar, a escorrer tinta para a linha de baixo e a desaparecerem no fundo da página, transformadas num ténue fio de tinta de cor variável, diluindo o seu sentido em forma de lágrima na palma da mão do leitor? Talvez seja essa a grande diferença entre leitores e personagens literários: uns choram, outros não.

Chat ou chá?

Não lhe basta fazer perguntas indiscretas e desaparecer, sem um gesto cerimonioso. O gato de Cheshire também gosta de aparecer discretamente no centro de uma festa, enroscado em forma de bule de chá. Por isso, já sabem: sempre que vos servirem chá num bule cor de laranja, não se admirem se dele escapar uma daquelas perguntas que deixaria mesmo um mestre zen sem resposta, por mais chávenas de chá que esvaziasse.

Os gémeos

Não é quando se assemelham que os gémeos confundem o mundo. É quando se distinguem, quer seja em pequenos pormenores, como em grandes contradições. Os gémeos confundem-nos quando fazem afirmações contrárias, apontando o seu discurso em direcções opostas. É demasiado fácil reconhecer as evidentes semelhanças. Difícil, é decidir a validade das obscuras diferenças. Ou seja, em qual dos gémeos acreditar?