quinta-feira, 22 de abril de 2010

Voyeur do invisível

O fotógrafo é um grande voyeur. Ponto final. Deve ser por isso que espreita o mundo, o outro, as paisagens e os rostos com um olho fechado, como se espreitasse o buraco de uma fechadura. E para não ver pela metade, pede um olho mecânico emprestado, ao qual não pára de exigir que veja cada vez melhor. É um voyeur do mundo e de si próprio, do visível e do invisível. Quer ver melhor, para ver mais e até ver aquilo que apenas imagina. Quer ver o nunca visto. E leva o seu voyeurismo ao paroxismo de querer fotografar o que não vê.

The Hungry Eye # 45

Quantas vezes, de máquina fotográfica na mão, o fotógrafo não deseja ser invisível, esquecido de que a máquina o trairia?

domingo, 18 de abril de 2010

The Hungry Eye # 44

O fotógrafo é aquele que desistiu de pintar e começou a desenhar com luz.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

The Hungry Eye # 43

Talvez o fotógrafo queira ver apenas meia realidade.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

The Hungry Eye # 42

Depois da sua mulher morrer, Nobuyoshi Araki fotografava o céu, visto da varanda de casa. Acreditava que o rosto dela ia aparecer ali, algures entre as nuvens.

The Hungry Eye # 41

O rosto é a chave do corpo.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

The Hungry Eye # 40

Se a fotografia não tivesse sido inventada, como poderíamos existir a preto e branco?

terça-feira, 6 de abril de 2010

The Hungry Eye # 39

Quem se expõe mais numa fotografia: o fotógrafo ou o ser fotografado?

terça-feira, 30 de março de 2010

As lágrimas

As personagens literárias estão expressamente proibidas de chorar. Já imaginaram o que era, as palavras começarem a desbotar, a escorrer tinta para a linha de baixo e a desaparecerem no fundo da página, transformadas num ténue fio de tinta de cor variável, diluindo o seu sentido em forma de lágrima na palma da mão do leitor? Talvez seja essa a grande diferença entre leitores e personagens literários: uns choram, outros não.

Chat ou chá?

Não lhe basta fazer perguntas indiscretas e desaparecer, sem um gesto cerimonioso. O gato de Cheshire também gosta de aparecer discretamente no centro de uma festa, enroscado em forma de bule de chá. Por isso, já sabem: sempre que vos servirem chá num bule cor de laranja, não se admirem se dele escapar uma daquelas perguntas que deixaria mesmo um mestre zen sem resposta, por mais chávenas de chá que esvaziasse.

Os gémeos

Não é quando se assemelham que os gémeos confundem o mundo. É quando se distinguem, quer seja em pequenos pormenores, como em grandes contradições. Os gémeos confundem-nos quando fazem afirmações contrárias, apontando o seu discurso em direcções opostas. É demasiado fácil reconhecer as evidentes semelhanças. Difícil, é decidir a validade das obscuras diferenças. Ou seja, em qual dos gémeos acreditar?

The Hungry Eye # 38

Há olhares que saltam para fora da fotografia.

sábado, 6 de março de 2010

Cinema Maravilha

Acto mágico de fabricar pedaços de imagens e juntá-las. Os primeiros passos do cinema não são muito diferentes dos primeiros passos de uma criança que aprende a andar e a descobrir o mundo e o seu lugar nele. Primeiros passos feitos de saltos, cortes, pequenas quedas, joelhos esfolados, a decisão de rir do susto de cair em vez de chorar, o espanto de quase existir. A celebração da imagem diante dos nossos olhos. A negação da cegueira. O festim do sonho. Imagens com vida própria, projectadas na parede como um sonho a preto e branco (ninguém pode garantir se sonhamos a cores ou a preto e branco, ou de ambas as formas). Uma criança com mais de 120 anos finge ser a primeira Alice do cinema. Um gato verdadeiro, gordo e aristocrático, aparece em cima da árvore sem ter frequentado aulas de rir, talvez ruivo, felinamente alheio à história, numa árvore quase ao alcance das mãos curiosas de Alice. Efeitos sonoros exteriores ao próprio filme, que os personagens não conseguem ouvir - o cinema mudo é sempre surdo. Um desfile de espectros, seres que pela matemática do calendário estão todos mortos, embora se continuem a mexer. Palavras que se não se fixam, como se hesitassem acerca do seu lugar, nem se ouvem, porque não têm voz. Um homem-coelho mais homem do que coelho, Alice cada vez mais Alice, a crescer, Alice a encolher sem perder letras no seu nome, palavras mais firmes, um cenário teatral, o cinema ainda disfarçado de teatro, preso ao sonho do palco, imagens incompletas tapadas por uma cortina volátil, o dramatismo a preto e branco das teclas do piano. O cinema ainda perto da fotografia, o cinema como fotogramas animados, coreografias de papel perseguidas por labaredas de luz a comer pedaços da imagem. Imagens que lembram folhas amachucadas que se desembrulham e alisam, sem nunca perderem os vincos, fantasmas no jardim que se alimentam da imaginação, a festa do chá com imagens desbotadas, como se o Chapeleiro Louco tivesse entornado chá em cima da película. Um interminável desfile de crianças-cartas (o que terão elas achado de tudo isto, as crianças de carne e osso?), uma legião de corações, seres com 3, 5, 8, 9 ou mesmo 10 corações, crianças de copas vermelhas a preto e branco para servir uma jovem rainha irada, o despertar de Alice no momento em que acredita que tudo não passou de um sonho. A inevitável solidão dos sonhos, condenados a apenas um sentido, a visão, incapazes de ser ouvidos (mesmo quando descrevemos um sonho a outra pessoa, ela nunca o conseguirá ver), tocados, saboreados ou inspirados em busca de um cheiro, na verdade condenados à falta de sentido. As limitações da tecnologia, que só existem no olhar do tempo. Nos primeiros anos do século XX, este filme de pouco mais de 9 minutos era talvez uma longa-metragem e o equivalente ao nosso 3 D de agora, em que até precisamos de uns óculos (ou serão olhos?) suplementares para o ver melhor. Esquecidos de que um sonho só se torna real quando é sonhado.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Palavras começadas por chá

Sem consultar o dicionário. Com ou sem acento. Algumas a pedir assento. Obedecendo a esta lógica: a palavra apanhada traz outra pela mão, segurando-a como se segura uma chávena de. Chá. Champagne. Champignon. Chapéu(de chuva?). Chaleira. Chaminé. Chama. Chávena. Chave. Chão. Cha-cha-cha. Charuto. Chauvinismo. Chatice. Chapada. Chakras. Chamuças. Charcutaria. Chantilly. Chanfrado. Chapeleiro.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

The Hungry Eye # 37

A história, ouvi-a numa aula de jornalismo no liceu. Embora na altura estivesse certa de que era contada por Roland Barthes na sua Câmara Clara, o tempo foi-se encarregando de empalidecer essa verdade, tal e qual como acontece nas fotografias em papel (empalidecerão elas por terem olhos que desconhecemos e nos observam, invisíveis, e deste modo se assustam com o nosso olhar?). Hoje, essa história parece mais uma quase anedota, contada antes ou depois de uma referência à obra de Barthes, sobre o poder da fotografia. Uma mãe passeia um carrinho de bebé na rua e recebe rasgados elogios de outra mulher à beleza do seu filho, ao que responde: E ainda não viu a fotografia dele.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

The Hungry Eye # 35

O fotógrafo não gosta de ser fotografado. Talvez sinta que tem o seu olhar desprotegido, irremediavelmente nu, sem a máquina à frente dos olhos. Não consegue impedir-se de imaginar que o outro o olhará com uma lente impiedosa e argutamente ampliada, tal e qual como ele gosta de fazer (esquecendo-se que o seu olhar é ele próprio uma lente que nenhuma marca do mundo saberia produzir e comercializar em série). Fará tudo para ser fotografado com uma máquina fotográfica à frente do seu olhar, numa tentativa dupla de boicote: à descoberta da sua alma e ao trabalho do fotógrafo. Além de ser um excelente disfarce – a máquina fotográfica acaba por funcionar como uns obscuros óculos de sol e o fotógrafo gosta de permanecer na sombra, pois sabe que a luz é revelação - é uma pose que diz ao mundo: não gosto que os outros (me) façam o que faço. Em ambos os casos, é um cliché ditado por uma deformação profissional.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Skullbook

Se os vivos têm o Facebook, como se chamará a rede social dos mortos?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A luz da nudez

O escritor Michel Tournier conta uma bela história sobre fotografia. Um dia pediu a uma jovem para lhe fotografar o rosto e para sua (grande?) surpresa, a jovem despiu-se completamente. O corpo despido para o fotógrafo mas não revelado na fotografia transformou o seu rosto: a luz da nudez iluminava-o em segredo.
fotografia de Paolo Roversi

sábado, 30 de janeiro de 2010

Greguerías # 139 / A imaginação

A imaginação nunca tem a lotação esgotada.
ilustração de Tiago Manuel

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Jogar às cartas


Todos os carteiros deviam jogar às cartas. Não com as cartas de jogar, sempre enfadonhamente iguais (não obstante elas se acharem absolutamente diferentes) e sem vida interior, mas com as cartas que transportam todos os dias consigo, levando palavras a chocalhar e por vezes até um coração a bater com cuidado, para não ganhar muito volume (fora todos os números das cartas dos bancos, da EDP, da Optimus, das finanças, da Epal e do Círculo de Leitores), de um lado para o outro. Teriam de ler e tomar nota de todas as cartas pessoais (aquelas que não tinham números) que entregavam, para quem eram e de quem vinham. Caso essa carta estivesse mais de um mês sem receber resposta, eles próprios a escreveriam, não se sabe bem com que consequências. Podia acontecer que a carta que escrevessem ficasse também ela sem resposta e então, um mês depois, estariam a escrever para si próprios, fingindo não o saber.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

The Hungry Eye # 33

Muitas vezes, quando olhamos uma fotografia, esquecemo-nos de procurar onde se escondeu o fotógrafo.