sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A auto-ficção

Quem és tu? - pergunta a Lagarta, embora convide o corpo a encostar-se no silêncio em forma de cogumelo, enquanto desenha palavras de fumo. Tal como apenas nos conseguimos ver mediatizados no espelho, em fotografias, através do outro, também só nos conseguimos descrever como ficção. Pensamos em nós próprios como se fossemos outros: acariciamo-nos na pele de papel das fotografias, avistamo-nos no fantasma do espelho, vestimos o nosso corpo com palavras. Saímos para fora de nós. Precisamos de acreditar que somos uma ficção, como se a nossa vida não chegasse ou não coubéssemos nela. Temos uma história que contamos a nós próprios, simultaneamente narradores e ouvintes. Alguém me pode dizer quem sou eu?

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Um desconto no título

Há alguns anos, a editora italiana Mondadori colocou os seus livros ao alcance da mão, dos olhos e da imaginação do leitor. Com um desconto de 30%, milhares de livros de qualidade indiscutível foram vendidos a um preço inimaginável. Com um pequeno pormenor: na campanha publicitária, o desconto foi aplicado ao título da capa, através da redução dos números que fazem parte do nome das obras. Feitos os descontos, estes clássicos transformaram-se, mas mantiveram todas as suas palavras.
Abcdefghijklmnopqrstuvwxyz. As 23 letras do alfabeto, combinadas entre si, produzem os mais variados efeitos. Fazem pensar, rir, chorar, sonhar, odiar, desejar, ter medo, compreender. Nas mãos de Lewis Carroll, tornaram-se “Alice no País das Maravilhas”. A partir da mente fantasiosa de Alexandre Dumas, deram corpo a “Os Três Mosqueteiros”. O pensamento original de George Orwell transformou-as no “1984”. A solidão da escrita e muita inspiração fizeram delas “Cem Anos de Solidão”, nas mãos de Gabriel Garcia Marquez. Oscar Wilde misturou-as de forma a criar “O Retrato de Dorian Gray”. Através delas, ficámos a conhecer seres flutuantes como Alice, Romeu e Julieta, Gulliver, Ema Bovary, Meursault, Tom Sawyer, Gatsby e Joseph K. , numa galeria infinita de personagens, com as quais o leitor se mistura. Passeia entre as frases, como num bosque e descobre sentidos. O livro é uma máquina de imaginar e não tem substituto no nosso imaginário. Leva-nos a lugares que nunca visitámos, apresenta-nos pessoas que nunca conhecemos, empresta-nos sensações e sentimentos que não eram nossos. No prazer solitário da leitura, ouve-se a voz dos autores e vêem-se as personagens, que saltam das folhas para a cabeça do leitor, num estranho bailado. Italo Calvino escreveu um dia que “os clássicos são os livros de que se costuma ouvir dizer: “Estou a reler” e nunca, “Estou a ler.” Os clássicos são os livros que “persistem como ruído de fundo mesmo onde domina a actualidade mais incompatível”. Nunca dizem completamente o que querem dizer, daí que convidem a novas leituras. A engenhosa escolha recaiu sobre três títulos com números: um, de unidades, outro na casa das centenas e um da ordem do milhar. Três livros de áreas distintas da literatura, como a aventura, a ficção científica e o romance, escritos por um autor francês, um inglês e um colombiano. Qualquer pessoa com o mínimo de cultura geral reconhece a alteração inesperada e não desprovida de humor dos títulos originais destas três obras de referência da literatura mundial. Os números comandam a campanha, como aliás tantas coisas na vida. O desconto aplica-se tanto ao preço do livro como ao título da capa, através da redução de 30% nos números que fazem parte dos títulos das obras. Assim, “Cem anos de Solidão” ficam reduzidos a “Setenta Anos de Solidão”. “Os Três Mosqueteiros” cedem à lógica implacável da matemática e transformam-se em “ Os 2,1 Mosqueteiros”. O que será que ficou do 3º mosqueteiro? Um braço, duas mãos, os pulmões? O famoso “1984” de George Orwell passa a referir-se a outra data. Deixa de ser futurista, visto que foi escrito em 1948 e era, então, um livro sobre o que ainda não tinha acontecido e é remetido para “1388,8”, em plena Idade Média. De vanguardista aterra na idade das trevas, na viagem pela máquina de calcular e pela máquina do tempo. Uma vírgula separa a data em anos da casa decimal, que é ocupada por um oito. Será um oito de Agosto, o oitavo mês do ano?
Nestes subversivos (mas ao mesmo tempo lógicos) actos de nomeação, os livros perdem valor numérico nos títulos, mas mantém todo o seu valor literário. Têm todas as personagens, folhas, palavras e os espaços em branco entre elas que fizeram deles clássicos da literatura. E se estes livros estimulam a imaginação, a campanha publicitária da Saatchi & Saatchi Milan, apesar da sua simplicidade, também nos deixa à procura de outros títulos aos quais aplicar o desconto. “A Volta ao Mundo em 80 dias”, “Fahrenheit 451”, “As Mil e Uma Noites”, “Branca de Neve e os Sete Anões” e “Seis Personagens à procura de um Autor” foram os primeiros a surgir, mas há decerto muitos mais. Depois, é pegar na caneta (ou na máquina de calcular) e descobrir como se passariam a chamar estes clássicos. Os tais livros que ganham sempre algo de cada vez que são tocados com o olhar, mesmo que percam no preço. Na certeza de que, depois de abertos, nunca mais se voltam a fechar, pelo menos na nossa imaginação.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Greguerías # 131/ O escritor fantasma

O escritor fantasma tem corpo de letra.

domingo, 8 de novembro de 2009

Greguerías # 128 / Os gémeos

Os gémeos são uma imagem em estéreo.

Greguerías # 127 / Os sonhos

Todas as noites, antes de adormecermos, damos corda aos sonhos.

domingo, 25 de outubro de 2009

No Reino dos Porquês # 24

Como são as impressões digitais do vento?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O silêncio

Silêncio. Assim não consigo ouvir o meu pensamento. E pensar é falar com o volume do som no zero. Embora por vezes me admire com o facto de ninguém conseguir ouvir os pensamentos que ribombam como tambores na minha cabeça, tanta é a nitidez com que os oiço. Quantos decibéis tem a batida de um tambor? O toque de um sino? O zumbido de uma abelha? Um segredo encostado ao ouvido? Um estalido sobressaltado no soalho de madeira? O borbulhar de uma lata de Coca-Cola acabada de abrir? Uma história zen contada num mosteiro? O avião que acabou de fazer estremecer o prédio lá do alto da noite? Sei que há uma tabela para todos estes sons com um, dois ou três dígitos. Mas quantos decibéis tem um pensamento? E quantos decibéis tem o silêncio? Não me digam que o silêncio espada que corta, reluzente, o ar tem o mesmo som do silêncio algodão que afaga, como uma carícia escorregadia, a pele. Ou que o silêncio intervalo luminoso entre as palavras de um poema é igual ao silêncio fantasma dos ruídos familiares. O silêncio não é a transparência sonora, é antes um ser habitado por sombras falantes, mais ou menos opacas. Alguém pode inventar uma máquina para pesar silêncios? Ou, pelo menos, um dicionário silêncio - palavras?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

The Hungry Eye # 25

Quando olhamos para a fotografia de alguém que já morreu (mesmo sabendo que todos os seres fotografados, sem excepção, pagam com a morte o preço da imortalidade nesse preciso instante em que o fotógrafo dispara, não a bala de uma arma, mas o botão de uma máquina de fotografar) é como se no momento da fotografia, às vezes tirada décadas antes, já estivessem mortos. Como se eles já estivessem mortos mesmo sem o saber. Como se nós já não os conseguíssemos imaginar vivos em nenhuma idade, depois de os sabermos mortos. Ver uma fotografia de um ser morto é como ler um livro detrás para a frente. A última página explica e justifica tudo o resto, sobrepondo-se a todas as outras em verdade. Apesar de, numa fotografia, sermos sempre a ficção de alguém.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Nos braços de Buenos Aires

Poderá uma esquina influenciar uma frase? O entardecer num bairro determinar um poema? Ou um pátio com madressilvas inspirar uma metáfora? A resposta a estas e outras perguntas encontra-se no livro “A Buenos Aires de Jorge Luís Borges”. O seu autor, Carlos Alberto Zito, estuda a obra do escritor argentino há mais de 25 anos e este livro é a melhor prova disso. Mas comecemos pelo princípio, ou seja, o dia 24 de Agosto de 1899. Em Buenos Aires, no nº 840 da Rua de Tucamãn, nasceu um bebé a quem foi dado o nome de Jorge Luís Borges. Curiosamente, o apelido Borges significa “burgo”, ou seja, o habitante da cidade. Como mais tarde diria o poeta, “nasci no coração da cidade”. O apelido e o local de nascimento são uma explicação possível para Buenos Aires ter ocupado toda a vida o seu coração. A família Borges mudou-se para o Bairro de Palermo cerca de dois anos depois e foi aí que Georgie (como era tratado pela família), cresceu “num jardim, por detrás de uma grade com lanças, e numa biblioteca de ilimitados livros ingleses”. A biblioteca do pai, advogado e filósofo anarquista, revelou-lhe o poder da poesia e autores como Oscar Wilde, Lewis Carroll e Mark Twain. Quanto à cidade que via através do gradeamento, esta exerceu desde sempre (e talvez por isso mesmo), um enorme fascínio sobre ele. Nas suas raras saídas para o exterior visitava frequentemente o Jardim Zoológico, onde contemplava com adoração o tigre real amarelo. Muitos anos mais tarde, em 1921, depois de viver em Genebra, Lugano, Sevilha e Madrid, Borges regressa a Buenos Aires, ansioso por reencontrar a cidade que fervilhava na sua imaginação. Mais tarde considera este momento do regresso o mais importante da sua vida. Em 1923, escreve o primeiro livro de poesia, cujo título traduz os seus sentimentos pela cidade: “Fervor de Buenos Aires”. Nele refere-se às ruas do bairro como “quase invisíveis de tão habituais” e confessa que “as ruas de Buenos Aires estão já dentro de mim”. Não lhe interessam as avenidas, mas sim a Buenos Aires profunda, dos subúrbios, onde não se cansa de descobrir beleza, mesmo onde outros vêem fealdade. Porque o jovem culto que passa horas na biblioteca do pai e o jovem fascinado pelo mundo dos marginais que “deambula pelos subúrbios e espia os submundos da cidade, onde se impõe o tango rude e de bordel” são uma e a mesma pessoa. Ao longo das páginas do livro, povoadas com inúmeras fotografias a preto e branco, vamos espreitando, num irresistível exercício de voyeurismo, os lugares que atraíram e marcaram o escritor. Passo a passo (neste caso, página a página), percorremos as casas onde viveu, o espaço em que nasceram os seus livros, os bairros das suas longas caminhadas a pé, as livrarias e cafés que frequentou, as duas bibliotecas onde trabalhou e até o parque onde foi surpreendido pela polícia a beijar uma mulher. Em suma, fazemos uma visita guiada a todos os cenários das suas obsessões. Seguindo os seus passos nesta “ cidade de ruas direitas e solitárias, com horizontes incandescentes”, percebemos a estreita relação afectiva e dialéctica que se estabeleceu entre o escritor e a sua cidade natal. Buenos Aires determinou, de forma decisiva, o escritor e a sua escrita. Como Borges reconheceu “ se tivesse nascido em qualquer parte, (…) não teria sido eu a nascer ali, mas uma outra pessoa.” Tal como, inversamente, Jorge Luís Borges recriou Buenos Aires, tornando-a uma cidade literária. Para o efeito, utilizou todos os seus elementos: a luz, a arquitectura dos edifícios e até os meios de transporte. Na mão de Borges, o pátio é “o declive por onde se derrama o céu na casa”. As casas de bairro são “esse monumento da nossa arquitectura instintiva” e os arrabaldes, “monótonas lembranças de um quarteirão”. A paixão por uma mulher ( teve várias) fê-lo vaguear por certas ruas da cidade, onde celebrou entardeceres, lugares solitários, recantos sem nome e o som de guitarras num pátio. Em cada esquina, encontramos reminiscências de outras histórias. À Buenos Aires lírica e frágil dos poemas repletos de imagens nostálgicas contrapõe-se à Buenos Aires histórica e misteriosa dos ensaios, contos e textos de ficção. A partir de 1944, Borges instala-se com a sua mãe definitivamente na Rua Maipú, nº 994. Aí viverá durante 41 anos (excepto durante os três anos do seu casamento com Elsa Astete Millán) e nesse apartamento escreverá O Aleph, O Fazedor, O Relatório de Brodie e O Livro de Areia, entre outros. Em 1955 é nomeado director da Biblioteca Nacional. Sobravam-lhe livros (tinha à sua disposição mais de 900 mil), mas faltava-lhe a vista. Os dois directores anteriores tinham igualmente cegado, como se de uma maldição se tratasse. A imensidão de uma biblioteca que jamais poderá ler assemelha-se a um castigo dos deuses. Tacteando com a sua bengala as ruas da cidade que já não reconhecia, percorria todos os dias a pé o caminho para a biblioteca, geralmente sozinho. As ruas da sua cidade tinham-se tornado invisíveis, ligadas pelas trevas. “Os olhos já não podem ver os livros nem a cidade, mas estão já minuciosamente fixados na sua memória e dela continuarão a brotar – embora anacrónicos – textos e poemas”. Com a bússola da memória, caminhava na cidade que se transformou numa labiríntica ilusão e das visões do interior das pálpebras nasciam as suas arquitecturas de palavras. Como tinha “Buenos Aires dentro dos meus olhos”, para Borges os lugares não mudaram desde 1955. Continuou a ver o que já não existia e deixou de ver o que existia. Não assistiu ao envelhecimento da cidade, dos rostos familiares nem do seu próprio. Não viu o que o tempo foi roubando (árvores, pátios e bancos de jardim) nem acrescentando (edifícios, lojas, carros e arranha-céus). Da contemplação à evocação, a cidade cristalizou-se. Foi distorcida pelo filtro da memória e retocada pelo pincel da imaginação. Tornou-se uma imagem de si própria, “uma Buenos Aires pretérita, distante no tempo umas quatro ou cinco décadas”. A Buenos Aires que amou como a uma mulher e onde gostava sempre de regressar, inspirava-lhe também sentimentos menos nobres, como o desejo de exclusividade. Por isso, recomendava às pessoas interessadas que visitassem outras cidades da América Latina. A ideia de alguém ficar encantado com Buenos Aires enchia-o de ciúmes. E tinha toda a razão. A partir do momento em que deixou de (a) ver, Buenos Aires tornou-se sua. Porque como escreveu no seu derradeiro livro, Os Conjurados, “só é nosso o que perdemos”.

texto originalmente editado no DNa

Línguas de gato

Desconfio que grande parte do mistério do gato se deve ao facto de não falar. Só pode ser por causa do seu imperturbável silêncio que gostamos tanto de escrever sobre ele. Domesticado e independente, interessante e interesseiro, ambíguo e contraditório, o gato é matéria de estudo para uma vida inteira. Talvez também por isso, seja o maior amigo de um escritor. Gatos e escritores sempre viveram juntos em casas cheias de livros, com ou sem jardim, junto a uma máquina de escrever, agora substituída pelo computado ou no canto da hora mais solitária. Sentados junto a um monte de manuscritos e ao longo das suas (sete) vidas, os gatos foram os primeiros a conhecer as palavras dos seus donos. E também foram os únicos a ver todas as folhas de papel que acabaram amarrotadas no lixo. Muitas vezes, até brincaram com os rascunhos transformados em pequenos corpos disformes como se fossem ratos. Desde sempre, as palavras e os gatos andaram de mãos dadas. Não deve ser por acaso que a Assírio & Alvim tem uma magnífica colecção de poesia chamada Gato Maltês. E também uma original antologia de poesia contemporânea sobre gatos, “Assinar a pele” de seu nome. Se um gato é um poema, como diz Jean Burden nas primeiras páginas do livro, nesta antologia, são 57. Os seus donos são Charles Baudelaire, Fernando Pessoa, Lewis Caroll, Paul Verlaine, T. S. Eliot, Rainer Maria Rilke, Ezra Pound, Pablo Neruda, Alexandre O’Neill e Al Berto, entre muitos outros. Poetas e escritores que não resistiram a escrever sobre os seus amigos felinos, em várias línguas (português, alemão, francês, inglês e espanhol), todas elas, afinal, línguas de gato. Procuram vasculhar na sua alma e captar a sua essência, tentam interpretar as suas atitudes majestosas e ler o seu olhar sábio e imóvel. Com palavras que mais são festas e afagos feitos por uma mão melancólica, que sabe que um gato nunca lhe vai pertencer por inteiro. Os gatos, inesgotável tema literário, são o único personagem dos poemas e ainda bem que não sabem ler, pois senão ainda se tornavam mais orgulhosos e senhores do seu nariz. Descobriam, por exemplo, que têm a liberdade a que o poeta aspira. Fernando Pessoa inveja o gato. “És feliz porque és assim. Todo o nada que és é teu”. E quando abrimos o livro “Assinar a Pele”, os gatos saltam de um poema para o outro como de um telhado para um pátio soalheiro e espreguiçam-se num título. Esfregam os bigodes numa palavra e fogem de outra que se cruza no seu caminho. Cheiram um parágrafo com desconfiança e arranham as unhas numa ideia como se ela fosse um sofá. Têm medo de um ponto de exclamação, mas olham altivos para uma metáfora. Porque o gato é como a poesia. Passa por nós como uma sombra pelos olhos. Deve ser por isso que o gato é o maior amigo do poeta. Guillaume Appolinaire confessa que não pode viver sem “um gato passeando por entre os livros”. Porque o gato tem o dom da clarividência, mas respeita o silêncio. Está sempre a uma palavra de falar, mas nunca quebra o silêncio. Como escreve Charles Baudelaire “para dizer as maiores frases não necessita de palavras”. E como o poderia fazer? E. Guillevic lembra-nos que “o gato nada sabe do que vem nos dicionários”. E depois, há o olhar. Um olhar que é uma presença ausente e parece contemplar o vazio. Paul Eluard define-o com inspiração: “E quando pensa é até às fronteiras dos seus olhos”. Ainda sobre os olhos, Pablo Neruda escreve “seus olhos amarelos deixaram uma única ranhura para lançar as moedas da noite”. No poema “Como dar nome aos gatos”, T.S. Eliot explica-nos como esta questão é difícil. “Podeis pensar que sou doido varrido quando vos digo que um gato deve ter três diferentes nomes. Antes de mais nada há o nome que a família emprega diariamente (…) mas , digo-vos eu, um gato precisa de um nome que seja particular. (…) mais acima e mais além, falta ainda outro nome . E esse é o nome que jamais adivinhareis. O nome que nenhuma investigação humana pode descobrir mas o próprio gato sabe-o e nunca confessará.” A natureza dupla do gato faz dele um ser ambivalente. E à falta de melhor, antropomorfizamo-lo, emprestando-lhe um pouco de nós. Dos nossos defeitos, medos, paixões e manias. T. S. Eliot explica-se e explica-nos. “E agora a minha opinião é a de que não precisais de intérprete para compreender o seu carácter. Haveis compreendido o suficiente para verem que os gatos são muito parecidos connosco e comigo.” Talvez o gato resista a todas as definições, menos a uma tautologia. Pablo Neruda, na sua “Ode ao gato” escreveu: O gato quer ser somente gato e todo o gato é gato desde o bigode ao rabo.” Estes 57 poemas são como os gatos. Pequenos mas belos, reservados mas eloquentes. Tal como o silêncio, os gatos recusam-se a falar. E para capturar o seu mistério, o poeta usa armadilhas feitas com palavras e vírgulas, janelas decoradas com pontos de interrogação e travessões no lugar de trelas. Mesmo sabendo que quando quer, o gato consegue sempre fugir entre duas palavras. Deve ser por isso que nunca somos donos de um gato. Talvez seja ele o nosso dono. “Cúmplice de um medo ainda sem palavras, sem enredos, quem somos nós, teus donos ou teus servos?” ( Alexandre O’Neill). O livro termina com um texto de Pedro Paixão, no qual o escritor confessa que “gostava de ser como o gato (…) sem que nada pudesses levar da minha alma, pois nem saberias o que dela roubar.” E cento e onze páginas depois, o mistério do gato persiste. A este, junta-se um outro. Não me perguntem como, mas as minhas gatas parecem ter adivinhado que este texto (também) era sobre elas. Sentaram-se ao meu colo e até escreveram palavras e sinais incompreensíveis com a ajuda do teclado. Quem sabe se eram poemas. Nunca o saberei, porque esta língua de gato não sei ler.

texto originalmente editado no DNa

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Aproximação à vida

Chegou pelo correio este postal com ar de fotografia antiga. Vinha numa carta daquelas, raras, que ainda se abrem com os dedos, tocam com a pele e andam connosco no bolso. Tal como uma fotografia escrita a preto e branco. É uma imagem de 1963 (pelo que os seres que nela não envelheceram, a estarem vivos, terão à volta de 50 anos), tirada em Buenos Aires e chama-se “Aproximación a la vida”. Talvez devesse ser esse o nome de todas as fotografias. Nesta aproximação à vida e à janela, crianças e boneca confundem-se, até que o olhar foque a imagem. Nas crianças, os olhos curiosos querem tocar, as mãos pequenas e espalmadas desejam ver. A boneca tem os olhos demasiado abertos para ver e as mãos suficientemente fora de campo para tocar. “A curiosidade, como a luz, atravessa todas as janelas”, escreveu a mão, obedecendo ao olhar, no verso deste postal. Os fotógrafos não desaprendem o espanto. As crianças aprendem a desilusão. É difícil permanecer curioso na escuridão.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Greguerías # 109 / As pestanas

As pestanas fazem cócegas nas palavras.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Fotografias por domesticar

Em todas as casas, em todas as vidas, há imagens que se encontram domesticadas. São fotografias em família, da infância e até de seres num tempo em que ainda não existiam na nossa vida. Podem estar geometricamente dispostas em molduras em cima do piano negro, encarquilhadas na parede rugosa da sala ou até guardadas num álbum, embora regra geral estejam sempre à vista e façam parte da paisagem doméstica. Por mais nitidez que conservem, foram desbotadas pelo tempo e retocadas pela memória. Mas isso nem sequer nos importa. Já as vimos tantas vezes que as saberíamos descrever de olhos fechado. Tal como as conseguimos ignorar de olhos abertos. Estão domesticadas pelo chicote do tempo e amaciadas pelo bálsamo do olhar. A função destas duas lentes? Protegerem-nos de acessos de ligeira melancolia ou profunda tristeza, ao contemplar estas vidas já desaparecidas. Mas se por acaso os olhos descobrem, em sincronia com as mãos, uma fotografia há muito não tocada (pode ser na página 67 de um livro de Nietzsche, nas arrumações das gavetas da escrivaninha de cerejeira ou numa pasta de enigmático nome no desktop do computador), é provável que essa visão rasgue o nosso coração. A memória adormecida tinge-se de sangue, ganha cheiro e começa a espreguiçar-se qual felino predador. Os seres fotografados saltam das imagens para a vida em câmara lenta, rompendo uma imobilidade ensaiada durante anos. E isso é quase tão chocante com ver um morto a atravessar a rua diante dos nossos olhos ou irmos contra ele ao virar da esquina. Logo nós, que até assistimos ao seu funeral e desde então choramos baixinho a sua ausência. As fotografias não deviam aparecer sem bater à porta. Será que não sabem como o tempo magoa os olhos que as mãos escondem?

domingo, 20 de setembro de 2009

The Hungry Eye # 23

A alma despe-se com luz, mas revela-se na câmara escura.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Gatos & livros

Há duas perguntas (são mais, mas fiquemos por estas) que têm a particularidade de me deixar momentaneamente irritada. Nada que dure mais do que alguns segundos, insuficientes para se transformarem num minuto redondo, mas os necessários para que um vago sentimento de perplexidade emocionada me invada. A primeira costuma ser feita em lugares públicos, regra geral na rua, em lojas de animais ou consultórios veterinários. É habitualmente feita por pessoas que me tratam por você e aos felinos por tu. É formulada a alto e bom som, com tanta clareza e objectividade, que imagino o mundo inteiro de ouvidos bem esticados, à espera da resposta. Quantos gatos tem? A outra costuma ganhar vida no espaço que habito e só pode ser feita por quem não tem intimidade com livros. Já leste estes livros todos? O tratamento por tu é a chave do desconforto e até permite perceber o cerne da questão: o tom formal ou informal das perguntas. Se a pergunta fosse: já leu estes livros todos?, penso que teria paciência para explicar por que não respondia. Se a pergunta fosse: quantos gatos tens?, acho que dispararia o número exacto com voz firme. É verdade. Tenho uma enorme biblioteca fragmentada por divisões para afagar (sobretudo desde que descobri como certos livros ronronam quando a minha mão lhes acaricia a lombada). Não é mentira. Tenho um número respeitável de gatos, que parecem saídos de livros e se passeiam esquivos pelos cantos da casa, para folhear. Mas prefiro não responder. Não vá trocar as respostas e dizer que tenho tantos gatos quanto o número de livros que li. Ou responder que apenas li da minha biblioteca o número de gatos que tenho. Enquanto gatos e livros crescem em ritmos muito diferentes, aguardo uma nova pergunta: os gatos já leram todos os livros da biblioteca?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Namorada ou noiva?

Um amigo que ando a fazer devagar, como deve ser feito tudo aquilo que precisa de tempo (e espaço) para crescer, referiu-se ao telefone espontaneamente a esta morada como a noiva de Wittgenstein, o que provocou um pequeno turbilhão de sensações e pensamentos. Primeiro, quase corei com receio de que o Ludwig, apesar dos seus 120 anos de idade, ainda estivesse na posse de capacidades auditivas suficientes para ter ouvido a palavra noiva, não fosse ele pensar que andava para aí a apregoar um noivado inexistente e sem anel, a menos que o anel seja a sua obra completa em alemão, e ainda por cima contra a sua vontade. Depois, quase empalideci com a perspectiva de estar a caminho de um altar, mesmo filosófico, que me impossibilitaria, social e moralmente, de continuar a ser namorada de outros homens fascinantes com quem me tenho cruzado. Se estivesse noiva de Wittgenstein, como poderia ser a namorada de Barthes? Para que não desconfiem de uma eventual queda para me apaixonar por homens com uma homossexualidade mais ou menos assumida, acrescento: ou a namorada de Neruda? E também a namorada de Borges? Reforço: como poderia ser a namorada de Antonioni? A namorada de Cohen? E a namorada de Balthus? Ou a namorada de Pessoa? E, confesso, a namorada de Gainsbourg? A namorada de cummings? E para fechar uma lista que poderia ter um fim longínquo, a namorada de Kundera? Por esta altura, respirei fundo e recuperei oxigénio e lucidez. Pensei nos verbos que habitualmente precedem as palavras namorada e noiva. Entre ser ou estar, ser namorada parece-me um estado ontologicamente menos transitório do que estar noiva. Talvez esteja mais casada com Wittgenstein do que imaginei. Ou mais indisponível para ter outros namorados do que escrevi.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os anagramas

Os anagramas são palavras vistas num espelho distorcido. Do outro lado, as letras mudam de ordem e fazem novas combinações, explorando as suas possibilidades físicas. Um pouco como um rosto em que os olhos estão no lugar das orelhas, ou a boca faz de nariz, a testa ocupa quem sabe o espaço do queixo ou as sobrancelhas surgem debaixo dos olhos. O centro de gravidade da imagem desloca-se. No entanto, a distorção e o rearranjo dos elementos não impedem a percepção de formas com significado. Ao espelho, espaço de encontros fortuitos ou acasos concretos, estas composições que lembram gestos surrealistas continuam a ser um rosto. Tal como na boca, as palavras continuam a fazer sentido. Tenho 5 peças desmontáveis na mão. A-L-I-C-E. As letras dissecam o sentido da sua anatomia. Embora não faça qualquer sentido chamar-me Célia ou Ecila, não acham?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A mais velha profissão do mundo

Depois de ter pedido ao meu interlocutor para repetir três vezes a palavra, por não a estar a entender, concluí que "profissão" e "prostituição" se confundem com alguma facilidade.

sábado, 5 de setembro de 2009

A subtileza

No país da realidade, há quem confunda uma subtileza com um erro. Tal e qual como se confundem dois gémeos. E como se isso não bastasse, há quem confunda um erro com uma subtileza, como se eles fossem irmãos.

O sangue

O sangue parece sempre doce, quando comparado com as lágrimas.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Os móveis-livro

Era uma vez um jovem casal, que entretanto já é menos jovem e talvez até já nem seja casal. Então, habitava a mesma casa e não tinha dinheiro para gastar em móveis. Como juntos, tinham muito mais livros do que dinheiro, decidiram criar os móveis da casa utilizando-os como matéria-prima e criando um design sui generis. A mesa, as cadeiras e até peças que pediam mais flexibilidade e conforto, como o sofá ou a cama, eram feitos de pilhas de livros. Os móveis tinham nomes como a mesa de telefone existencialista, cujas pernas eram feitas com os livros de Jean-Paul Sartre e Vergílio Ferreira e um tampo com a obra completa de Simone de Beauvoir, Heidegger e Husserl. A mesa de cozinha linguística era feita com livros em hard cover de Saussure, Kristeva, Jackobson e vários números da revista de Comunicação e Linguagens. A cadeira absurda era exclusivamente composta pela obra de Kierkegaard em tradução francesa e por livros de Camus, Kafka e Dostoiewski. A prateleira dicionário tinha todos os dicionários da casa, desde o Alemão - Português ao dicionário dos símbolos, do dicionário das superstições ao das etimologias. Parecia excelente para colocar alguns bibelots. E a cadeira Assírio & Alvim, habitualmente muito disputada pelas visitas da casa, era composta pela obra poética de Ruy Belo, Alexandre O’Neill, Herberto Helder e Fiama Hasse Pais Brandão. Os livros que tinham a dobrar (do tempo em que ainda não se tinham encontrado) formavam a cama de livros duplicados, com dois Palomar, duas Memórias de Adriano, dois O Amor e o Ocidente, duas Confissões de uma Máscara, dois Diários Mínimos (o 2ª volume), duas Mitologias, dois xix poemas, duas Crónicas Americanas, dois Nocturnos Indianos, duas Novas Cosmicómicas, duas Ficções, dois Paraísos Artificiais e dois Maias, entre muitos outros livros gémeos. Como um dos pés parecia instável, tiveram de fazer batota e colocar um único exemplar das Histórias para uma Noite de Calmaria a suster o peso de tanta literatura duplicada. Criaram ainda o sofá estóico, com as obras de Marco Aurélio, Epícteto e Séneca, assim como livros sobre esta corrente filosófica. E até tinham à entrada o banco policial negro, composto por camadas de livros da colecção Vampiro dos anos 70 e das edições Rififi de Dennis Mc Shade. Os nomes dos modelos dos móveis faziam parte do dicionário privado do casal, embora para quem os visitava, não fossem mais do que montes de livros por arrumar. Uma das grandes vantagens era que os móveis iam mudando de rosto, sempre que alguém tirava um livro do sítio e não paravam de surpreender o olhar. No dia a dia, a consulta dos livros exigia uma grande perícia, pois a qualquer momento as pilhas de livros podiam cair por terra. Às vezes, ela estava deitada no sofá estóico e ele precisava de consultar A Arte de Viver. Outras vezes, ela queria ler em voz alta um poema de Herberto Helder (Aos Amigos) e a sua maior amiga estava sentada na cadeira Assírio & Alvim. Houve uma noite em que durante um jantar entre amigos na mesa poética, um tira-teimas por causa do nome da editora de O Barco Bêbado (seria a etc ou a Hiena?) quase fez com que o robalo com puré de batata se estatelasse no soalho de madeira corrida. Isto já para não falar daquele serão em que alguém lia a primeira frase de um livro e os outros tinham de adivinhar de que obra se tratava. Nessa noite, a casa ficou realmente desarrumada. Os amigos decidiram oferecer-lhes uma enorme estante no Natal. Era o primeiro móvel da casa. Talvez o único. As suas prateleiras permaneceram vazias.