quarta-feira, 15 de julho de 2009

The Hungry Eye # 17

Quando seguramos uma fotografia nas mãos, quantas vezes não desejamos, mesmo apenas por um breve fotograma, que os seres fotografados saltem da sua pose de estátuas para a vida, ressuscitando numa imagem de carne e osso? Mas parecendo que adivinham o que iria acontecer, esses seres não se mexem um milímetro sequer no rectângulo da fotografia. Sabem que, do lado de cá, não encontrariam com quem falar. Também nós já não somos a pessoa que éramos no dia em que aquela imagem ganhou vida, para que o real desaparecesse ali, mesmo diante dos olhos do mundo. Somos outras fotografias animadas que, deste lado do papel, se agitam com gestos imperfeitos, não compreensíveis para as estátuas. Podemos fazer todos os gestos do mundo, excepto tirar os seres fotografados de lá, do sítio onde ficaram para sempre, depois de partirem para outro lugar. Mesmo depois de partir, nunca te deixo - dizem, sem mexer os lábios, enquanto repetem um gesto imóvel até ao cansaço.

terça-feira, 14 de julho de 2009

The Hungry Eye # 16

No outro dia, recebi uma grande lição de uma amiga fotógrafa. É certo que os fotógrafos não são, regra geral, muito faladores sobre o seu ofício e preferem estar a focar o objecto do que a distrair um sujeito com surpreendentes revelações sobre a arte de congelar imagens ou capturar instantes. Gostam de fazer perguntas com os olhos e disparar com os dedos. Preferem a acção à teoria, como se soubessem o que fazem por instinto. No entanto, desconfio que os fotógrafos sabem quase tanto sobre o tempo como um mestre relojoeiro. Pois é precisamente com esta matéria que trabalham: o tempo Conhecem o andar dos ponteiros das horas e dos minutos no rosto. Traduzem os segundos em imagens, dizendo ao tempo que ainda não desistiram de o tentar parar. Sabem que a alma também precisa que lhe dêem corda. Dão valor ao tempo. E foi essa a lição que me deram a mim. A minha amiga fotógrafa tinha-me tirado uma fotografia descontraída, no meio de uma sessão de trabalho. Uns dias depois, ofereceu-ma e não consegui disfarçar. Não gostava daquela fotografia. Acrescentei que a culpa certamente não seria dela, devia ser do modelo (permanecerá para sempre um mistério saber quantos por cento têm o fotografo e o ser fotografado de responsabilidade e mérito nas fotografias de que se gosta). Ela ficou quase ofendida, mas disparou logo, não com a máquina, mas com a voz de fotógrafa: daqui a 5 anos, vais gostar imenso dela. Resolvi não esperar tanto tempo. Comecei a a gostar dela nesse preciso momento. Não há nada como dar tempo ao olhar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

The Hungry Eye # 15

A vida é uma interminável colecção de fotografias. Não daquelas que estão espalmadas nos álbuns das mães, presas à agenda de bolso dos pais ou que trazemos coladas na memória, algumas delas já com cantos dobrados e tons desbotados. São fotografias com corpo e relevo bidimensional, um eterno presente que acompanha a vertiginosa experiência de correr em direcção ao infinito. Somos imagens com seres lá dentro, que sobem as escadas do tempo, dobram as esquinas da vida e rasgam a pele porque o coração às vezes doi. O caminho para a escola tem uma seta invisível onde não se pode ler “vida” e os livros na mochila tornam-se cada vez mais pesados. Ou serão os medos? Perde-se uma bicicleta, depois de se ter perdido um triciclo e um berço, para se ganhar uma mota. O amor é um acidente do destino à boleia na estrada e a experiência, definitivamente, não serve à ciência. A vida tem altos e baixos: voa nos céus, mergulha nos oceanos, escava-se na areia, constrói-se no papel. Só há tempo para tudo ser único e somos sempre mais e menos do que parecemos. Cada fotografia é a primeira: congela o momento inaugural. Um divino olho cósmico (talvez Deus seja uma máquina fotográfica omnipresente e omnisciente) revela tudo o que nasce. É preciso perder a memória para continuar a viver.  A história de cada nome acontece dentro da moldura da vida. Tanto melhor, se houver uma Olympus Pen por perto, para a escrever. Quantas fotografias conta a tua vida? E se tivesses de escolher uma, qual seria?

sexta-feira, 3 de julho de 2009

The Hungry Eye # 14


In almost every picture # 2
Esta é a estranha colecção de fotografias de um taxista holandês que transportou no seu Mercedes uma mulher no banco do lado. O taxista fotografa o táxi e a sua passageira. Ela é sempre a mesma passageira, mas sempre em paisagens diferentes. O livro progride com a quilometragem no conta-quilómetros. Ela faz parte do carro e o carro faz parte da paisagem. A natureza bruta revela-se nas paisagens tristes e dramáticas, com rochas, escarpas, árvores despidas e terras áridas. Em várias fotografias vemos o que ela vê de costas. Em muitas, o táxi está parado na berma das estradas. Por vezes, a porta do lado dela está aberta, apesar dela não se poder levantar e andar. Noutras, é a janela que está aberta e ela espreita, com um sorriso de fadiga, a despedida do sol ou a chegada do vento. De quando em quando, aparecem outros carros nas fotografias. Há duas fotografias ao tabelier do táxi, na certeza de que ela estava ao lado dele, quando as fotografias foram tiradas. Há o inesquecível rosto dela na escuridão do carro e da noite, sentada no seu lugar. Há nevoeiro e o pôr do sol que incendeia o carro de luz. As cores nítidas do mar e as cores deslavadas da paisagem coberta de neve. Como se houvesse uma meteorologia do seu estado de espírito, com correspondência nos décors exteriores. Às vezes, ela parece ser apenas uma sombra no vidro, um reflexo pouco nítido da mulher que gostaria de ter sido. O táxi tem a característica de um camaleão e absorve as diferentes paisagens, nestes detalhes de uma cumplicidade a dois escolhidos, iluminados e fixados por este fotografo amador. Juntos, viajaram pela Alemanha, França, Suíça e Áustria. No início do livro, a matrícula do Mercedes é 20-78-VT. A partir do quilómetro 06911, o táxi continua a ser um Mercedes, mas a sua matrícula é 14-81-PZ. Finalmente, no quilómetro18 003, o próprio fotógrafo foi fotografado e ficámos a conhecer o taxista que era os pés, as pernas e até os olhos desta mulher. Ao longo destes 18 mil quilómetros de solidão, testemunhámos a impotência de uma mulher em andar pelos seus próprios pés. Mas a sua vontade de conhecer mais do que as paredes da casa e a paisagem que via pela janela determinaram esta longa viagem. Quase como se fosse ela que conduzisse o carro - e não era? Não era a sua vontade e as suas ordens que determinavam o percurso e o destino? O taxista tem duas amantes - o seu carro, "a noiva mecânica" e a sua passageira constante. Não será o fotografo amador precisamente aquele que ama o ser que fotografa? Ela nunca saia do carro porque não podia sair, devido à sua deficiência física. Pelas fotografias, até parece que nunca saia de lá, que viva nesse lugar, o lugar do morto, talvez o único onde se sentisse realmente viva. Mas devia dar trabalho. Devia custar muito, aos dois. E o carro parava por que motivo? Para ele descansar? Para ela admirar a paisagem? Ou, muito simplesmente, para ele a fotografar? Ou para ela se imaginar nas fotografias enquanto admirava as paisagens? E quem terá tirado a fotografia do taxista? Ela própria? O livro é dedicado à memória do taxista e fotógrafo A.J. Paetzhold (1924 - 1995). E se ele morreu, quem é que a leva agora a ver o mundo? O fotógrafo teve uma necessidade obsessiva de fixar a paisagem e oficializar as memórias da passageira num lugar distante de casa. Viajaram juntos durante muitos anos, criaram um relacionamento e, de vez em quando, o condutor parava para tirar uma fotografia e registar oficialmente a sua existência. Como escreve o credactor Tyler Wisnand, na última e única página com texto, "como que a dizer: Eu estive aqui, por causa desta passageira. E estou aqui por causa deste carro. Deste táxi. Vocês têm de acreditar em mim. Foi aqui que estivemos". E assim, vai-se descobrindo um pequeno caso de amor que aconteceu "enquanto nós estávamos adormecidos pelo movimento da nossa vida". Nesta história comovente, em que o carro, o taxista e a passageira estão sempre a caminho, em busca de si próprios.

Texto publicado na revista Alice, no Verão de 2005

The Hungry Eye # 13


In almost every picture # 1
São 12 anos de registos fotográficos de um marido, que tem como modelo exclusivo a sua mulher. A primeira é de Junho de 1956, sentada numa pequena rocha no mar e a última fotografia do livro é de Dezembro de 1969, no largo de uma igreja em Alcala Henares (um prenúncio da morte?). Ao longo de dezenas de fotografias, viajamos no tempo e no espaço com esta mulher e assistimos ao seu envelhecimento. Vamos sabendo as datas das fotografias e o local: praia, campo, neve, cidade. Desfila nas quatro estações do ano, assistimos à evolução da moda e dos penteados, à alteração do corpo, com a passagem dos anos e às oscilações de peso. Testemunhamos os azuis do mar, os barcos, os lagos, os jardins com flores, as estátuas, a aliança sempre no anelar esquerdo, as igrejas, o Renault 4, o piquenique com batatas fritas e a lata de cerveja Amstel, o letreiro luminoso da Coca-Cola, a mesa do chá. Faz uma informal passagem de modelos e em fato de banho, na praia, ou na cidade, com tailleurs, luvas, colares, chapéus, malas de mão, ela está sempre bem vestida. "Após vermos algumas fotografias, podemos reconhecer o estilo do fotógrafo. Primeiro, ele faz uma composição cuidadosa, depois tira as fotografias, revela-as e escreve a data e o local no verso da fotografia, antes de a juntar à colecção". A colecção foi encontrada e comprada por Eric Kessels na feira da ladra de Barcelona. Neste livro, entramos dentro das fotografias e tentamos descobrir o que está escondido nelas. A aparente banalidade esconde intimidade, uma intimidade inacessível e misteriosa. Uma leitura atenta das legendas das fotografias revela alguns hábitos: férias grandes, sempre em Julho, em diferentes praias (Tamarin, La Fosca, Cap Roig), idas a Andorra, à neve, entre Janeiro e Abril. Em diversos Outonos, há visitas a Barcelona. Nos dias mais quentes, é o sol que lhe ilumina o sorriso. E depois, há imagens que apenas surgem uma vez. A rosa na boca, no campo de trigo, de onde vem? Não deve ter tido filhos e só aparece uma vez com uma criança. Apenas a fotografia da mesa com o serviço de chá se passa no interior de um espaço. Numa, há um cão e em muito poucas, a mulher surge acompanhada por uma amiga. Entre as mais de 500 fotografias, onde se esconde o "eu"? Terá ela sido feliz? Onde regressavam sempre? Como era a sua casa? De que falariam? Qual seria a profissão dele? Estas são as suas recordações de férias e de viagens, dos momentos em que saíam da rotina quotidiana. E no entanto, adivinha-se a descoberta, no hábito, do amor mais duradouro. O olhar dela diz que só tem olhos para ele, nestes registos fotográficos em que ele só tinha olhos para ela. A verdade sobre o marido não estará nos olhos dela? Os olhos dela olham para ele em quase todas as fotografias. Será que ele lhe dizia:"chega-te um pouco mais para a esquerda. Compõe o cabelo. Sorri um pouco mais. Assim estás mesmo bem bem"? Eles foram assim. As fotografias são clichés do que eles parecem ter sido. A colecção é única porque não foi planeada e permite-nos espreitar as memórias privadas do casal. As últimas palavras do livro, no verso da contra-capa, prometem a devolução das fotografias, caso apareça algum familiar do fotógrafo ou do sujeito fotografado. Porque é que as fotografias terminam em 1969? Eles já terão morrido? Uma galeria de Barcelona exibiu-as e foi colocado um poster a pedir informações sobre a mulher fotografada. Uma colega de escola reconheceu-a e foi assim que se ficou a saber o nome dela: Josefina Iglésias, já desaparecida da vida, mas eternizada nas fotografias do marido e neste livro singular. Resta perguntar: quem teve coragem de pôr à venda toda esta intimidade, numa feira? Felizmente, as fotografias vieram parar às mãos certas e, por isso, tocaram o nosso olhar.

Texto publicado na revista Alice, no Verão de 2005

The Hungry Eye # 12


"Coleccionar fotografias é coleccionar o mundo".
Susan Sontag, "Ensaios sobre Fotografia"

Nunca se sabe quando vai aparecer a próxima colecção de fotografias e este é, seguramente, um dos seus maiores encantos. In almost every Picture são dois livros da agência de publicidade holandesa Kesselskramer, editados e com design gráfico de Erik Kessels. Neles, há apenas um único texto, escrito pelo copywriter Tyler Wisnand que, na última página dos livros, ajuda a decifrar um pouco das histórias. Publicados pela Artimo Amsterdam, ambos mostram viagens de dois seres a caminho de algum lugar. Duas mulheres foram captadas pela câmara fotográfica de dois homens, num conjunto de registos que têm uma evolução espácio-temporal através de datas ou quilómetros. Um casal é sempre singular e único e o mundo nunca o entenderá a ponto de saber falar sobre ele. Nestas duas histórias de amor por contar, feitas de gestos quase casuais, a banalidade e a singularidade misturam-se. Será intimidade ou hábito? Vontade ou imposição? Generosidade ou egoísmo? Presença ou ausência? As imagens são sempre fragmentárias e incompletas e as fotografias, as suas revelações. Estas imagens sequenciais são evidências de uma realidade já passada. O seu tom ligeiramente amarelado e os pontos pretos provocados pela humidade dizem-nos que as fotografias também envelhecem, tal como as pessoas e como o papel que lhe serve de suporte. Atacadas pela luz, gastam-se e empalidecem e muitas vezes delas se perdem os negativos que possibilitariam a sua reprodução. Como se isto não bastasse, as fotografias são já por definição objectos frágeis que se tornam valiosos pela tentativa de reprodução do irrepetível. Cada história pessoal é feita de partículas e fragmentos. O número de fotografias que se podem tirar é inumerável. Porquê fotografar assim e não de outro modo? As fotografias dos dois livros são ingénuas, mas não descontraídas ou acidentais. A pose, pensamento de um instante, diz sobre a forma como querem ser vistos para a posteridade. Estas imagens são pessoais e intransmissíveis, daí que cada fotografia mostre apenas uma personagem, numa solidão habitada e compartilhada. Se nos aproximarmos um pouco mais, quase ouvimos o bater do seu coração. As fotografias têm esta particularidade: fazem inventar histórias. E estas fotografias pensativas, que mostram o que escondem, colocam imensas questões. Somos tentados a reconstituir as histórias destes sujeitos temporariamente transformados em objectos e destes corpos traduzidos em imagem. A historicidade da imagem pede que as fotografias sejam inscritas numa ordem de continuidade, num plano sequencial. Há uma certeza - o presente - e uma dúvida - o futuro, que entretanto já se tornou passado. Mas nem por isso todas as respostas estão dadas. Pegamos nestes objectos melancólicos que são os dois livros e temos a esperança de descobrir a verdade (mas que verdade?) sobre estas histórias. A sequência em que as fotografias devem ser olhadas é proposta pela ordem das páginas, ou talvez não. Nada obriga o leitor a obedecer-lhe. Estas imagens portáteis, que se tornam uma espécie de ritual, mostram apenas parte do que eles foram. Há muitas coisas que não cabem nas fotografias e por isso, ficam sempre de fora: os cheiros, os sons, o cenário que não se vê, as vozes que não se ouvem e os sonhos que não se deixam apanhar. As fotografias são provas de que algo aconteceu e paradoxalmente, são a sua negação, ao transformar esse acontecimento numa recordação. “Inventário da mortalidade", como lhes chamou Susan Sontag, há algo de fantasmagórico nestas fotografias, a que corresponde uma ilusão de participação do leitor. Os dois fotógrafos são coleccionadores deste "potencial objecto de fascinação", movidos por uma paixão do presente. Por que motivo decidiram os fotógrafos que estas eram as imagens que deviam ser fotografadas? Depois de contempladas e imaginadas todas as fotografias, será que alguém sabe responder a esta pergunta? Nesta busca de magia no real, em quase todas as fotografias, eles fotografavam as viagens ou viajavam para fotografar?

texto publicado na revista Alice, no Verão de 2005


quinta-feira, 2 de julho de 2009

Dicionário não-etimológico: "sólidas"

sólidas = só lidas. Desconfiemos de tudo o que não fica escrito, diz o mundo sem o escrever. Há palavras, frases, verdades, declarações, teorias, histórias, perguntas, confissões e vidas que só lidas. Contadas, ninguém acredita. Podiam facilmente confundir-se com o seu próprio fantasma. E onde se guardariam as palavras que não são escritas e por isso não são lidas ou sólidas? No bolso das calças de ganga, dentro do livro preferido, numa caixa de madeira com uma pequena chave ou na curva mais secreta do ouvido? Se ler também é ver, queremos ler para crer. Ler a Bíblia numa página aberta ao acaso, juntar todos os pedaços de uma longa conversa telefónica numa noite sem sono, colar os fragmentos de um discurso adjectivável de amoroso ou apanhar para sempre uma história com cabelos brancos numa folha branca que deixa de o ser. Como se as outras palavras, as etéreas, ditas, insinuadas e até caladas, não contassem. Nem as ditas ao ouvido com os decibéis de um segredo ou as gritadas a alto e bom som numa avenida movimentada. Como se a memória desconfiasse de tudo e de todos, até mesmo de si própria. Pede-se à palavra que seja única, mas que deixe uma testemunha visível, palpável, com corpo, peso e medida. Gostava de tocar nas palavras que acabei de ouvir, como se elas fossem uma escultura de pedra. Se não estão aqui à frente dos meus olhos, podem estar em qualquer outro lugar. Só lidas me inspiram confiança: posso lê-las incontáveis vezes (até acreditar nelas) e até exibi-las como prova ao mundo. A quem se atrever a duvidar daquilo que digo. Parece que o papel lhes dá valor, solenidade e poder. Há mesmo quem pense: se foi escrito é porque é verdade. Quem se atreveria a escrever uma mentira? Os livros prometem solidez, apesar das bibliotecas se incendiarem. As palavras escritas seguem a seta da eternidade, esquecendo-se que são seres datados. As dedicatórias na terceira página dos livros mentem sem saber porquê. Os documentos garantem factos que estão permanentemente a ser reescritos. As palavras sólidas lembram um contrato em que apenas uma parte assina. Escreve, que eu não assino. Basta-me a tua palavra mais sólida. A palavra escrita impede as palavras de serem empurradas pelo vento, pensamos. Esquecidos de que elas nunca chegam e muitas vezes até já partiram para outro lugar. Contemplamos as suas sólidas ruínas com a mesma devoção com que olhamos as estrelas mortas que brilham no céu. Por vezes, lamentamos que algumas palavras não possam ser colocadas no congelador, para durarem mais e um dia termos a última palavra. Talvez as cartas tenham sido inventadas por um coração que descobriu a falta de solidez de algumas palavras. Mas isto não serve apenas para elas. Também só lidos acreditamos em certos silêncios. Se as palavras falassem em seu nome, e não através do nosso, talvez dissessem que gostariam de ser de vidro transparente. Sólidas para quem acredita no que não lê. 

terça-feira, 30 de junho de 2009

The Hungry Eye # 11

O fotógrafo é o mago que tira rostos da cartola. 

segunda-feira, 29 de junho de 2009

À procura de uma legenda

As fotografias têm formato standard para que seja fácil encontrar uma moldura que lhes faça companhia. Uma multiplicação simples de centímetros em madeira ou metal abraça o corpo de papel. A solidão, não. É da ordem do peso invisível, uma balança que dá números negativos e tira medidas a ausências subjectivas. Todas as fotografias trazem uma solidão que não cabe no seu corpo nem se pode encerrar numa moldura. Como se na própria fotografia, um olho invisível, furado na pele de luz e sombra, deixasse transbordar o olhar que estende as mãos. As fotografias a preto e branco são ainda mais solitárias do que as outras. Falta-lhes a presença do real, com as suas reconfortantes cores. Concentram o essencial, ampliam a solidão e dizem ao tempo que não as pode emendar na sua irrealidade a dois tons. Lembram a cama de casal onde dois corpos encontram sempre espaço para não se tocarem. Nunca apetece tanto imaginar um pensamento como quando ele se esconde a preto e branco. É como se tentássemos ver um sonho que não nos pertence. Todas as fotografias pedem ao olhar: encontra uma legenda para mim, sei que me sentiria menos só na companhia de algumas palavras. Porque será que as molduras não trazem alguns centímetros a mais, onde caiba pelo menos um adjectivo que ilumine e faça companhia à solidão revelada?

The Hungry Eye # 9

Enganamo-nos sempre que espreitamos a vida dos outros.
 

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Alice # 29 / O sorriso do gato

Por que sorri o gato? Ele ri-se das explicações que inventaram para o seu sorriso. Terá engolido um quarto minguante de queijo ou um quarto crescente de lua? Estará a ter um ataque de cócegas ou acabou de fazer um silogismo aristotélico com humanos? Será o gato mais trocista da história ou a sua capacidade de aparecer e desaparecer, servindo duas verdades, diverte-o assim tanto? Terá descoberto que a linha que separa a genialidade da loucura é mais fina do que um só dos seus longos bigodes? Desconfiará que a ciência projecta sombras na noite? Acreditará que o segredo da sedução é carregar no botão da descontinuidade? Saberá ele que um sorriso ambíguo abala todas as certezas e alimenta quase todas as palavras? O gato sorri porque não vai desfazer o equívoco. Mas o gato sorri, porque ri só. Só, ri. Há sempre uma solidão no sorriso, não perguntem porquê.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O leque

O leque é uma pequena cortina móvel no teatro de uma conversa. O leque é um objecto teatral e é sempre indiscreto. Mostra descaradamente que está a esconder. É uma mão de seda com muitos dedos bem coreografados. É um gesto com cerca de 30 centímetros que se imita a si próprio enquanto faz o trabalho da invisibilidade. Não deixa ler o segredo que se está a dizer. Não deixa ver as imagens que permanecem por traduzir. Não deixa que alguém entre neste recanto da história. Ondula as palavras, dá corpo ao sorriso, coloca o tempo na penumbra. Diz que o silêncio se estende na linha do seu horizonte arredondado, lá onde se estilhaçam os cristais das palavras. O leque, máscara flutuante, concentra toda a malícia no olhar. Mas também, além de mim, quem acredita que um coelho possa falar?

terça-feira, 12 de maio de 2009

No Reino dos Porquês # 1

Quantas idades tem a vida?

domingo, 10 de maio de 2009

The Hungry Eye # 7

O fotógrafo imortaliza gestos desajeitados do quotidiano e dá à banalidade o estatuto de eternidade. 

sexta-feira, 8 de maio de 2009

The Hungry Eye # 7

O fotógrafo ri-se do tempo, mas não o tempo inteiro.

The Hungry Eye # 6

As fotografias também envelhecem, embora a uma velocidade muito diferente daquela a que envelhecem os seres fotografados. As fotografias nascem no momento em que foram tiradas e reveladas. Às vezes, têm menos 2 anos do que o bebé que mostram, outras, menos 34 anos do que a fotógrafa fotografada. A fotografia chega sempre atrasada à vida (seja um segundo ou várias décadas), embora eternize o momento. Como vivem noutra temporalidade, as fotografias envelhecem devagar. Nelas, as rugas são as dobras de papel, o tempo é o amarelo insidioso que as invade lentamente e as queima por dentro, a memória é o seu desaparecimento dentro de uma caixa de sapatos ou o seu aparecimento inesperado no meio de um livro. As fotografias vivem para lá da morte dos seres fotografados. Imortalizam-nos, embora não os possam ressuscitar. Apenas fixam o momento que eternizaram, cada vez com menor nitidez, até se desfazerem em luz e pó. As fotografias envelhecem como as cartas escritas, fotografias reveladas com palavras. O destinatário das fotografias e das cartas é o "para sempre". Algures no caminho, ambas se perdem. 

domingo, 3 de maio de 2009

The Hungry Eye # 5


O fotógrafo consegue ver o que um rosto esconde, mesmo quando ele é tapado pelo segundo rosto que são as mãos.

The Hungry Eye # 4


O fotógrafo olha o mundo através do seu alfabeto visual.

sábado, 2 de maio de 2009

Alice # 26 / Entrar numa porta


Os corpos que atravessam as portas deixam a sua marca: um gigantesco buraco de fechadura. A porta transforma-se em espelho e revela o rosto de quem a atravessou. Agora, todos vão saber que fui eu. Porque é que não esperei pacientemente que a porta se abrisse? Do outro lado, perguntavam: "Quem és tu"?  E a senha para entrar não era: "Sou eu". Era: "Já não sou eu". Mas isso eu não sabia, porque ainda não tinha entrado. Não sabia responder antes do tempo, por isso a porta não me convidou. Agora, se quiser voltar, não consigo. A menos que ande de marcha atrás, sempre de costas para esta história. Só o lugar de partida pode ser o lugar de regresso. E a porta apenas tem forma para eu entrar. Para sair, teria de desenhar um simétrico desta ausência de corpo que já não sou eu. E depois, deste lado, quem estaria a perguntar: "Quem és tu"? A vida é-nos dada vazia. Nem sempre as palavras chegam para a preencher. 

The Hungry Eye # 3


O fotógrafo traz metade do seu olhar nas mãos.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Alice # 25 / A coroa


Uma coroa não faz a rainha, mas diverte a menina.