quinta-feira, 30 de abril de 2009

The Hungry Eye # 1


O fotógrafo tem um olhar faminto. Come rostos como outros comem pão acabado de fazer com manteiga derretida. Saboreia nuvens como quem percorre uma caixa de bombons com os dedos. Mastiga olhares como quem trinca uma maçã verde. Congela imagens como outros congelam ervilhas.  O fotógrafo traz uma boca escondida nos olhos. Uma boca insaciável. Deve ser por isso que fala com o olhar. 

domingo, 26 de abril de 2009

Parabéns, Ludwig!

Parabéns, Ludwig ! Faz hoje 120 anos que nasceste. Não te esqueças: se alguém te perguntar que idade tens, é isso mesmo que deves responder. Tens 120 anos, o que fará de ti, sempre, um recém-nascido ao pé de Sócrates, mas um velho sapiente junto de Umberto Eco. Quando nasceste, Picasso tinha oito anos e já era uma criança prodígio. Quando nasceste, Fernando Pessoa tinha 10 meses e aprendia a gatinhar, ignorando desassossegos ou heteronímias. Quando nasceste, em 26 de Abril, nasceram nesse mesmo mês dois ditadores: Salazar e Hitler. Hitler adiantou-se seis dias a ti e Salazar atrasou-se dois. Quem diria, tu no meio de dois ditadores. Mas a História tem algo de cómico e dez dias antes de ti tinha nascido Charlie Chaplin, que talvez te tenha feito rir muitos anos mais tarde. Quando nasceste, a Torre Eiffel tinha sido inaugurada poucos meses antes, na mesma cidade em que nasceu, nesse mesmo ano, Jean Cocteau. Em 1889, os deuses deram vida a outro filósofo, talvez para teres um interlocutor com quem discutir: Martin Heidegger. Mas os vossos caminhos feitos de madeira e pensamento foram diferentes. Quando nasceste, o teu irmão Paul já era uma criança triste. Quando nasceste, decidiste que ias ser filósofo, embora pudesses ter sido cientista, jardineiro, arquitecto ou inventor. Decidiste escrever um tratado, esquecido de que a lógica esgota a esperança e que pensar é uma actividade de funâmbulo. É preciso acreditar que não se vai cair do fio do pensamento. Afinal, ele é feito de frágeis, escorregadias e ambíguas palavras. Mas isso, sabes tu melhor do que ninguém. Na hora da morte, disseste: "Tell them I had a wonderful life". Há vidas em que apetece acreditar.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Clarice mora aqui


A casa do poeta tem uma visita feminina que ocupou uma sala inteira com fotografias suas nas paredes. E como se isso não bastasse, ainda espalhou a sua mala pelo chão, uma mala com tamanho suficiente para albergar escovas de cabelo, pensamentos introspectivos (como se não o devessem ser, todos), maços de cigarro, fragmentos de discurso, canetas, palavras luminosas com zonas de sombra, porta-moedas, espantos e mistérios, lenços, fotografias queimadas pela verdade do tempo, blocos e até um livro de formato A4, de capa cor de laranja e com um título irresistível: “Só para Mulheres”. A autora desse livro é o rosto das fotografias da parede: a mulher que entrou pela casa do poeta sem bater à porta, como se soubesse a senha para a abrir. Talvez a senha fosse “a hora da estrela” ou “perto do coração selvagem”. Felizmente, os nossos passos não precisam de dizer palavras para entrar. E basta as nossas mãos esticarem-se um pouco para segurarmos a vida de Clarice Lispector nas mãos, vida pesada de 668 páginas com centenas de fotografias e textos que exaltam o mistério da sua vida. As biografias têm essa particularidade de tudo quererem ordenar, de forma lógica e cronológica, como se uma vida se explicasse à luz da morte e todos os passos dados justificassem a chegada ao fim. Fazem profecias ao contrário, procuram descobrir as causas nos efeitos, fazem rewind, por vezes pause, tentam saber sempre mais sobre a pessoa transformada em personagem, como se tudo pudesse ter sido diferente. E podia? A capa mostra uma fotografia da escritora que não se reconhece ao primeiro olhar. Um rosto envelhecido, queimado pelo sol brasileiro (é verdade, o sol tem nacionalidade), com marcas da vida, a preto e branco, iluminado num fundo escuro a pedir que o arranquemos de toda aquela escuridão, onde até o batôn é preto. Por mais que olhemos para ela, sabemos que nos vai ganhar no jogo do olhar, pois os seus olhos fixaram-se naquele que está do lado de cá da fotografia e estão imóveis, pelo que os nossos serão os primeiros a desistir, também porque há uma certa ânsia em entrar no mundo de Clarice. Com tanta curiosidade como pudor, combinação irresistível, entramos na vida que foi escrita à margem dos livros, no livro da sua vida. A infância, os pais, os irmãos, o bilhete de identidade, postais e cartas, a obra, as capas dos livros, o Rio de Janeiro, os amores, os filhos as viagens, recortes de jornais, a escritora no seu ofício, e por fim, a morte. Dezenas e dezenas de fotografias que mostram este olhar penetrantemente belo e atento de alguém que vê o invisível e o quer devolver ao mundo em palavras impalpáveis - o eco da pergunta a que os deuses não respondem. Um olhar do qual imaginamos escorrerem lágrimas feitas de cinzas dos cigarros que segurava na mão. Excepção para duas fotografias: uma, onde tem as duas mãos a cobrir o rosto e esta, tirada em Nápoles, em 1944, num quarto de frente para o mar, onde Clarice está de olhos fechados, quem sabe para melhor ver o azul do Mediterrâneo ou agarrar as primeiras palavras de um dos seus contos. Então, vem à memória a vontade de tocar no livro laranja caído no chão e após um pedido de autorização para desarranjar por breves instantes a instalação, partir à descoberta dos conselhos, segredos e receitas da escritora que assinou com pseudónimos artigos nos jornais brasileiros e onde ensina como pintar os olhos ou evitar os quilos a mais e fala da importância da leitura ou da cidade que se descobre de madrugada. Devolvido ao seu lugar o livro onde a escritora parece mais irreal do que na sua fotobiografia, pedimos para levar uma vida de Clarice connosco. E imaginamos, à saída, que na noite branca, quando só os fantasmas que saltam dos livros habitam a casa, Fernando e Clarice poderão ler textos em voz alta e quem sabe Clarice vai comer chocolates, porque não há mais metafísica no mundo, enquanto lembra a quem não a consegue ouvir: “Não lamentem os mortos. Eles sabem o que fazem”.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Alice # 22 / Imaginar a vida

O ponto de interrogação pode transformar-se, de repente, num ponto de exclamação, como se esticasse as suas costas num exercício instantâneo de ginástica nos espaldares ou se colocasse numa posição de quase horizontalidade vertical num sofá. O critério até pode parecer simples na sua aparente infantilidade, mas lá que resulta, resulta. Sempre que se encontra perante uma dúvida ou indecisão, no que diz respeito à acção, a cabeça (com a ajuda subtil do coração) pede a si própria para visualizar o acontecimento em questão, a priori. Um pequeno milagre interior, como a religião pede aos crentes a fé, com imagens que nascem no coração. Então, o sujeito deste exercício imagina-se (ou não) a fazer determinada coisa. Deita-se por momentos num sofá imaginário, como se tivesse tempo e pede ao corpo que vá andando antes do tempo, que ele, se o vir a andar, já o imita e segue dentro de minutos. Muitas vezes, a imaginação tem capacidade para projectar, interpretando, a força de vontade da mente. Mas nem sempre é assim. A imaginação não é completamente obediente. Só imagina aquilo que se imagina a imaginar, realmente. E nesse jogo, imito-a e só faço aquilo que me imagino a fazer, realmente. Pensava que não iria a uma consulta no dentista, mas imaginei-me a ir, para grande pena minha. Julgava que iria a um jantar combinado com todo o cuidado e atenção, mas no último momento não me vi a caminhar para o restaurante e ainda menos a sentar-me à mesa ou a consultar a ementa. Ou seja, nem sempre faço aquilo que pensava que gostaria de fazer. Sempre, em qualquer dos casos, como se o meu corpo e a minha vontade não me pertencessem por inteiro e tivessem de se sujeitar aos caprichos de uma imaginação que, apesar de ser a minha, não dominaria completamente (e que assegura assim o factor surpresa em todos os momentos da vida, ao contrário do que este exercício, de início, poderia dar a entender). Quando desisto de uma acção, se ela implicar outras pessoas, tenho a tentação de dizer: não vou, não faço, porque não me imaginei a fazê-lo. Quase sempre, resisto a confessá-lo. A grande vantagem é que, no a posteriori que é o próprio acontecimento, costumo apreciar as acções em causa, sentindo-me bem e familiar nelas. Sem, no entanto, pensar que sejam o decalque daquilo que imaginei. Como todas aquelas vezes em que dei comigo surpresa com o que acabei de fazer. Porque são essas as melhores coisas, as que fazemos sem nunca as termos imaginado antes. As que não vimos enquanto futuro no passado. O momento da surpresa. Nunca me tinha imaginado a escrever estas palavras. Apesar de já as ter vivido muitas vezes.

domingo, 19 de abril de 2009

Alice # 20 / A fotografia

O fotógrafo é um espelho invertido. Um espelho invertido que pede para sermos o seu espelho não invertido: a projecção visível do seu olhar. O fotógrafo é o deus dos pequenos instantes. Gostava de fotografar o tempo, numa fotografia interminável, mas o tempo apenas se deixa apanhar em fragmentos. O tempo de uma fotografia, o intervalo invisível entre duas imagens, congelado. A fotografia é um espelho de bolso onde mora uma imagem que perdeu o seu tempo e que nos mostra o que nunca vimos, ou aquilo que ainda não recordamos. Querem saber a minha idade? Tenho 134 anos. A fotografia tem um instante de idade. O instante em que foi tirada. O instante que me foi tirado. Sempre o mesmo. Embora no seu verso esteja escrito, em letra quase sumida: Londres, 7 anos.

Alice # 19 / O espelho

O espelho responde sem pensar. Dá a resposta antes de ouvir a pergunta. Como se alguém lhe tivesse dito, muito baixinho a resposta, pedindo para ele inventar uma pergunta. Só então. Depois, para disfarçar, enquanto tentamos descobrir onde se escondem os seus olhos (como se estes fossem a maçaneta para abrir a sua porta), finge que é obediente. E nós acreditamos que somos o ser dentro do espelho, como se tivessemos entrado lá para dentro, através do seu olhar. Piscamos o olho esquerdo e a nossa imagem diz-nos que estamos a piscar o olho direito. Acenamos-lhe com a mão esquerda e é a mão direita que responde. Vemos o relógio no pulso contrário e de repente sentimos que nem a nossa imagem nos pertence. Tinhamo-nos esquecido outra vez que o espelho mente, porque mostra a resposta ao contrário. E o contrário da verdade pode ser uma mentira bem contada, ou, neste caso, mostrada. O espelho não consegue devolver o real. Num mundo sem espelhos, dependeriamos do outro para nos dizer como (a)parecemos. No mundo dos espelhos, eles dependem de luz para nos mostrarem. Os olhos dos espelhos não vêem no escuro e nunca pensam na luz. O espelho é desumano porque nunca deixa de ser neutro. Embora fale sempre na nossa primeira pessoa, ao mostrar-nos a segunda, o espelho nunca poderia ter o nosso nome. É uma imagem provisória e, ainda por cima, tem a pele fria. Sonho com o dia em que o espelho me imite realmente. Ou então, com o dia em que me pare de imitar de vez e se ria quando estou triste, ou penteie o cabelo enquanto lavo os dentes. Sonho com o dia em que o espelho ganhe vida, nem que para isso a imagem que ele faz de mim desapareça.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Alice # 18 / As irmãs

Nas nossas irmãs, vemos aquilo que teríamos sido se tivessemos sido diferentes. Outras variações sobre o mesmo tema. Gémeas de anos separados, como se uma se tivesse esquecido de nascer durante alguns anos e tivesse vivido num universo líquido, paralelo, até aparecer, já crescida, de um dia para o outro. Mais flores do mesmo canteiro. Os gestos aleatórios da hereditariedade. Mais peças de loiça de um serviço de chá. O gosto de que todas gostamos. Um livro com três volumes. Uma linguagem privada comum. Uma espécie de espelho ambulante que se passeia pela rua, para apenas muito de vez em quando aparecer, sem avisar, diante dos nossos olhos. Em fotografias a preto e branco, podemos confundir-nos. A cores, apenas os outros confundem a nossa imagem. São maiores que a maior amiga, aceitam sem perceber, gostam aconteça o que acontecer e partilham medos, cremes, dinheiro, roupas, conselhos, sapatos de salto alto, livros e chocolates, como antes partilharam bonecas, porquinhos mealheiros, discussões, roupas, gripes, livros, chocolates e medos. Ter uma irmã mais velha e uma irmã mais nova é uma benção do tempo. Em ambas, descobrimos a nossa diferença e, assim, a nossa identidade. Numa, vemos como seremos dentro de poucos anos: na outra, recordamos o que deixámos de ser. As irmãs fazem-nos o favor de envelhecer ao mesmo tempo que nós, fingindo não reparar. O tempo de ver as nossas sombras crescer e diminuir. As irmãs fazem-nos também o favor de dizer certas verdades, fingindo não  querer. Com as irmãs, temos segredos que não sabemos que o são. Porque com ambas, estamos em casa na rua, no carro, no caos, na tristeza, na dúvida, no mundo. Todas juntas, somos hoje as irmãs da nossa mãe, a menina que um dia teve três filhas. Muito de vez em quando, recorda-se o exercício infantil de tentar imaginar como seria outra irmã. A quarta. A que nunca se lembrou de nascer. As que nasceram, essas são uma espécie de "eu" que saiu à rua sem darmos por isso, uma extensão narcisista que só não o é mais porque as achamos muito mais bonitas, talentosas e perfeitas do que nós. E dizerem-nos que somos parecidas com elas continua a provocar um espanto genuíno, como se ainda hoje não acreditassemos que temos irmãs. Ou que de alguma forma damos ares àqueles seres que podíamos ter sido nós. Em dívida com a vida por nos ter dado estas vidas. As únicas que parecem saber responder às perguntas que fazemos ao espelho. Esta noite, se por acaso parecer que estamos a caminhar em direcções opostas, é apenas porque gostamos de experimentar caminhos diferentes no regresso a casa.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Alice # 17 / A morte

A morte obriga-nos a crescer, de repente. Porque para os que continuam vivos, a morte também tem algo de definitivo: temos de aprender a viver de novo. Como se regressássemos à primeira classe e nos pedissem para fingir que não sabemos fazer contas complicadas, falar francês, escrever palavras como "oxímoro" ou "telúrico"e tudo o que fomos aprendendo pelo caminho. A morte pede-nos para fingir. Porque só assim a vida pode continuar suportável. A morte lembra-nos todos os dias que a nossa infância não mais será o que foi. Seja qual for a nossa idade. E ainda nos pede para termos muito cuidado com a palavra "saudades". É que só se podem matar saudades de seres vivos. Os que vivem dentro de nós e são invisíveis para o mundo, habitam, incansáveis, o espaço onde a saudade nunca se poderá sentar. Não fosse ela lembrar-se de começar a ganhar corpo.

Alice # 15 / A teimosia

O coração é uma máquina de fazer saudades que precisa de voltar à fonte de alegrias infinitas. O passado dorme no presente e, às vezes, lembra-se de acordar. A memória é a maior das nossas teimosias. Lembra-se sempre de que esqueceu. E lembra-me sempre do que me esqueci. Já fui de pedra e agora sou de carne e osso. E as flores que tenho na mão nunca vão murchar. Tal como o meu sorriso.

Alice # 14 / As casas

De que vivem as casas? De pessoas, das pessoas que as habitam. E é apenas por as pessoas serem desatentas que não percebem o brilho no olhar da parede, a alegria dos candeeiros, o alívio da mesa, o contentamento da cama, o suspiro das fotografias, a boa disposição dos sofás e cadeiras, os saltos da torradeira e do bule de chá e o riso nervoso dos livros, quando colocam a chave na fechadura e entram nela. As casas estão repletas de animais domésticos, são um zoológico onde cabem os mais improváveis exemplares. Seres animados que vivem secretamente, mesmo à frente dos nossos olhos e aproveitam os momentos em que respiramos, rimos, cantamos, falamos em voz alta ou dormimos para fazerem exactamente o mesmo, ao mesmo tempo, na mais perfeita das sincronias, como se fossem nós. Como se fossemos eles. As casas têm vidas secretas e uma senha para entrar. O nome que é sussurrado no buraco da fechadura, esse olho atento disfarçado de ouvido, onde só aquela chave cabe. Onde se esconde um mundo que nem a demolição da casa ou o tempo das ruínas vai revelar. A casa que vive dentro de nós, no ruído leve dos nossos passos. 

Alice # 12 / A infância, sempre

Ao contrário da idade adulta, a infância dura a vida inteira.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Alice # 11/ O tempo


Será o relógio uma versão espalmada, a preto e branco e minimal do sempre colorido e esférico globo terrestre? Uma outra forma de dizer ao tempo que ele é espaço? Ou melhor, que ele é a condição do espaço ser e, assim, do tempo acontecer? Imaginem que em vez de usarmos relógios, medíamos o tempo em chávenas de chá, em malmequeres, em páginas de livro, em cogumelos, em baralhos de cartas, em trevos de 4 folhas, em receitas de tarte de framboesa, em berlindes, em guarda-chuvas, em bombons de chocolate com recheio, em bigodes de gato. Assim, as pessoas combinariam: encontramo-nos dentro de 20 chávenas de chá, à hora dos 14 malmequeres, na página 54 do livro, quando tiveres um trevo de 4 folhas na mão, depois de termos feito a receita da tarte de framboesas e por aí fora. Como obviamente todos demoramos tempos diferente a executar essas tarefas, assim sendo de cada vez que as executamos, o mundo estaria cheio de desencontros. E depois, como se poderiam trazer estes relógios sempre à mão? Haveria pessoas a olhar para a chávena de chá que tiravam do bolso, a contar os malmequeres que estavam a segurar, a guardar berlindes na mochila e a consultar uma página no livro. Era uma grande confusão. Quase tão grande como as que nascem do facto de usarmos relógio. O mundo dividido em 12, depois em 60, multiplicado por 2 ao dia. Vinte e quatro horas de desencontros, desacertos, fusos horários, atrasos e equívocos. Porque o nosso relógio é do tamanho do nosso corpo e só ele sabe que horas temos. E isto acontece com todos os seres vivos, coelhos brancos de Março incluídos.

Alice # 10/ Os presentes


Quando oferecemos algo, damos sempre muito menos do que imaginamos. Quando oferecemos algo (já sem discutir o facto de que esse algo devia ser feito por nós, ter nascido das nossas cabeças, corações e mãos, como um poema, um bolo, uma planta semeada num vaso, uma jarra de cartão ou uma fotografia) deviamos oferecer o tempo que o nosso objecto leva a ser vivido. Por exemplo: um livro também devia trazer as suas horas de leitura, incluindo a vontade de o reler muitos anos mais tarde. Uma caixa de chocolates não estaria completa sem os poucos minutos que seriam necessários para a devorar, inteira. E um disco tinha de trazer embrulhado o tempo da sua duração vezes 52, no mínimo, para garantir a descoberta e o gozo de todas as músicas, até se saberem de cor. E por aí fora. Com isso, estaríamos a dar fermento ao presente. Pelo contrário, damos presentes ausentes de certezas, quase com falta de esperança de que sejam apreciados no sentido mais profundo do termo. Damos presentes sem futuro, que não sabemos se, como ou quando, vão ser vividos e conjugados no único verbo que importa: viver. Todos os presentes deviam trazer um relógio escondido. E talvez fosse melhor, a partir de então, chamar-lhes “futuros”. Porque o tempo é o maior dos presentes. Talvez o único.

domingo, 12 de abril de 2009

De novo, a memória

As circunstâncias que inscrevem o acontecimento na nossa memória são muito mais importantes do que o próprio acontecimento. A memória guarda quase tudo o que perdeu: as pessoas, as casas, os cheiros, os tons de voz, os sabores, certas palavras. Talvez tenha os 5 sentidos pouco apurados. A memória amplia e distorce precisamente porque se esqueceu das circunstâncias. Quer completar a fotografia nunca revelada e ainda por cima esbatida pelo tempo. Por isso inventa. A memória dá-se mal com o vazio.

Alice # 8/ O fotógrafo

O fotógrafo é aquele que rouba momentos. Para os devolver, outros, depois de revelados, sob a forma de figuras de espanto. O fotógrafo é o ladrão da imaginação.

Alice # 7/ As surpresas


De que é que mais gosto? De surpresas. Nunca me cansam. Uma vida inventada vira as certezas ao contrário.

Alice # 6 / Uma escola


Porque é que nunca inventaram uma escola onde se ensinasse a desaprender?

Alice # 5 / Certas flores

Há flores que são infinitamente mais belas do que o nome com que as colhem. Já experimentaram apanhar a palavra “ranúnculos” e oferecê-la a alguém?

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Alice # 4 / A infância

Quando lhe perguntaram o que queira ser quando fosse grande, respondeu sem hesitar: pequena.

Alice # 3 / O outro

O outro é o ser que pode existir sem nós. É por isso que é a promessa de um diálogo, mesmo que responda em língua de gato. É o olhar do outro que nos faz existir, não o olhar do espelho. Porque esse olhar ainda é nosso, tal como as palavras que ainda não dissemos. E a que ele vai responder na única língua que conhece: a língua do outro. O silêncio é um espelho cego.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Alice # 2 / As meninas

As verdadeiras mulheres continuam a ser tratadas pelo mundo por “meninas”, como se o tempo tivesse parado de um dos lados do espelho.