quinta-feira, 16 de abril de 2009

Alice # 17 / A morte

A morte obriga-nos a crescer, de repente. Porque para os que continuam vivos, a morte também tem algo de definitivo: temos de aprender a viver de novo. Como se regressássemos à primeira classe e nos pedissem para fingir que não sabemos fazer contas complicadas, falar francês, escrever palavras como "oxímoro" ou "telúrico"e tudo o que fomos aprendendo pelo caminho. A morte pede-nos para fingir. Porque só assim a vida pode continuar suportável. A morte lembra-nos todos os dias que a nossa infância não mais será o que foi. Seja qual for a nossa idade. E ainda nos pede para termos muito cuidado com a palavra "saudades". É que só se podem matar saudades de seres vivos. Os que vivem dentro de nós e são invisíveis para o mundo, habitam, incansáveis, o espaço onde a saudade nunca se poderá sentar. Não fosse ela lembrar-se de começar a ganhar corpo.

Alice # 15 / A teimosia

O coração é uma máquina de fazer saudades que precisa de voltar à fonte de alegrias infinitas. O passado dorme no presente e, às vezes, lembra-se de acordar. A memória é a maior das nossas teimosias. Lembra-se sempre de que esqueceu. E lembra-me sempre do que me esqueci. Já fui de pedra e agora sou de carne e osso. E as flores que tenho na mão nunca vão murchar. Tal como o meu sorriso.

Alice # 14 / As casas

De que vivem as casas? De pessoas, das pessoas que as habitam. E é apenas por as pessoas serem desatentas que não percebem o brilho no olhar da parede, a alegria dos candeeiros, o alívio da mesa, o contentamento da cama, o suspiro das fotografias, a boa disposição dos sofás e cadeiras, os saltos da torradeira e do bule de chá e o riso nervoso dos livros, quando colocam a chave na fechadura e entram nela. As casas estão repletas de animais domésticos, são um zoológico onde cabem os mais improváveis exemplares. Seres animados que vivem secretamente, mesmo à frente dos nossos olhos e aproveitam os momentos em que respiramos, rimos, cantamos, falamos em voz alta ou dormimos para fazerem exactamente o mesmo, ao mesmo tempo, na mais perfeita das sincronias, como se fossem nós. Como se fossemos eles. As casas têm vidas secretas e uma senha para entrar. O nome que é sussurrado no buraco da fechadura, esse olho atento disfarçado de ouvido, onde só aquela chave cabe. Onde se esconde um mundo que nem a demolição da casa ou o tempo das ruínas vai revelar. A casa que vive dentro de nós, no ruído leve dos nossos passos. 

Alice # 12 / A infância, sempre

Ao contrário da idade adulta, a infância dura a vida inteira.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Alice # 11/ O tempo


Será o relógio uma versão espalmada, a preto e branco e minimal do sempre colorido e esférico globo terrestre? Uma outra forma de dizer ao tempo que ele é espaço? Ou melhor, que ele é a condição do espaço ser e, assim, do tempo acontecer? Imaginem que em vez de usarmos relógios, medíamos o tempo em chávenas de chá, em malmequeres, em páginas de livro, em cogumelos, em baralhos de cartas, em trevos de 4 folhas, em receitas de tarte de framboesa, em berlindes, em guarda-chuvas, em bombons de chocolate com recheio, em bigodes de gato. Assim, as pessoas combinariam: encontramo-nos dentro de 20 chávenas de chá, à hora dos 14 malmequeres, na página 54 do livro, quando tiveres um trevo de 4 folhas na mão, depois de termos feito a receita da tarte de framboesas e por aí fora. Como obviamente todos demoramos tempos diferente a executar essas tarefas, assim sendo de cada vez que as executamos, o mundo estaria cheio de desencontros. E depois, como se poderiam trazer estes relógios sempre à mão? Haveria pessoas a olhar para a chávena de chá que tiravam do bolso, a contar os malmequeres que estavam a segurar, a guardar berlindes na mochila e a consultar uma página no livro. Era uma grande confusão. Quase tão grande como as que nascem do facto de usarmos relógio. O mundo dividido em 12, depois em 60, multiplicado por 2 ao dia. Vinte e quatro horas de desencontros, desacertos, fusos horários, atrasos e equívocos. Porque o nosso relógio é do tamanho do nosso corpo e só ele sabe que horas temos. E isto acontece com todos os seres vivos, coelhos brancos de Março incluídos.

Alice # 10/ Os presentes


Quando oferecemos algo, damos sempre muito menos do que imaginamos. Quando oferecemos algo (já sem discutir o facto de que esse algo devia ser feito por nós, ter nascido das nossas cabeças, corações e mãos, como um poema, um bolo, uma planta semeada num vaso, uma jarra de cartão ou uma fotografia) deviamos oferecer o tempo que o nosso objecto leva a ser vivido. Por exemplo: um livro também devia trazer as suas horas de leitura, incluindo a vontade de o reler muitos anos mais tarde. Uma caixa de chocolates não estaria completa sem os poucos minutos que seriam necessários para a devorar, inteira. E um disco tinha de trazer embrulhado o tempo da sua duração vezes 52, no mínimo, para garantir a descoberta e o gozo de todas as músicas, até se saberem de cor. E por aí fora. Com isso, estaríamos a dar fermento ao presente. Pelo contrário, damos presentes ausentes de certezas, quase com falta de esperança de que sejam apreciados no sentido mais profundo do termo. Damos presentes sem futuro, que não sabemos se, como ou quando, vão ser vividos e conjugados no único verbo que importa: viver. Todos os presentes deviam trazer um relógio escondido. E talvez fosse melhor, a partir de então, chamar-lhes “futuros”. Porque o tempo é o maior dos presentes. Talvez o único.

domingo, 12 de abril de 2009

De novo, a memória

As circunstâncias que inscrevem o acontecimento na nossa memória são muito mais importantes do que o próprio acontecimento. A memória guarda quase tudo o que perdeu: as pessoas, as casas, os cheiros, os tons de voz, os sabores, certas palavras. Talvez tenha os 5 sentidos pouco apurados. A memória amplia e distorce precisamente porque se esqueceu das circunstâncias. Quer completar a fotografia nunca revelada e ainda por cima esbatida pelo tempo. Por isso inventa. A memória dá-se mal com o vazio.

Alice # 8/ O fotógrafo

O fotógrafo é aquele que rouba momentos. Para os devolver, outros, depois de revelados, sob a forma de figuras de espanto. O fotógrafo é o ladrão da imaginação.

Alice # 7/ As surpresas


De que é que mais gosto? De surpresas. Nunca me cansam. Uma vida inventada vira as certezas ao contrário.

Alice # 6 / Uma escola


Porque é que nunca inventaram uma escola onde se ensinasse a desaprender?

Alice # 5 / Certas flores

Há flores que são infinitamente mais belas do que o nome com que as colhem. Já experimentaram apanhar a palavra “ranúnculos” e oferecê-la a alguém?

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Alice # 4 / A infância

Quando lhe perguntaram o que queira ser quando fosse grande, respondeu sem hesitar: pequena.

Alice # 3 / O outro

O outro é o ser que pode existir sem nós. É por isso que é a promessa de um diálogo, mesmo que responda em língua de gato. É o olhar do outro que nos faz existir, não o olhar do espelho. Porque esse olhar ainda é nosso, tal como as palavras que ainda não dissemos. E a que ele vai responder na única língua que conhece: a língua do outro. O silêncio é um espelho cego.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Alice # 2 / As meninas

As verdadeiras mulheres continuam a ser tratadas pelo mundo por “meninas”, como se o tempo tivesse parado de um dos lados do espelho.

Alice # 1 / A memória

Não podemos voltar a um tempo que já passou. Da mesma forma que não podemos entrar num espaço que já não existe. A infância na praia de São Martinho do Porto e um jantar no snack-bar das Galerias Ritz equivalem-se como memórias. Ambos podem apenas ser visitados à distância, como quem olha para uma ferida aberta que os dedos não se atrevem a tocar. Não é isso a memória? Um espelho que não reflecte a realidade?

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Girl Power com sotaque francês

Entretanto, o tempo passou e as lolitas dos anúncios a preto e branco cresceram, mas apenas o suficiente. Em meados da década de 90, são jovens adultas e os anúncios onde surgem ganharam cor. Corto Maltese, numa das suas aventuras pelo mundo, lamentava-se sobre o facto de um homem não poder cair nos braços de uma mulher sem ficar nas suas mãos. Nas mãos das mulheres é como ficam os homens na segunda fase da campanha Kookai. Não sabemos se caíram nos seus braços, mas decerto caíram perante as suas roupas ousadas e sedutoras. Depois da educação e filosofia de vida recebidas, encontramo-las a brincar de forma efectiva com jovens representantes do sexo oposto. De quem fazem gato sapato e trinta por uma linha. Passaram da teoria à prática. Mostram e demonstram o que elas e a roupa Kookai (como já devem ter percebido, trata-se de uma joint venture!) fazem aos homens, a vingarem séculos de subjugação e domínio do chamado sexo forte. Resultado desta inversão cultural e social, o sexo forte encolheu e tem o tamanho de um pequeno objecto. E é assim que os homens nos aparecem: minúsculos, mas com tamanho suficiente para nos apercebermos de que são extremamente bonitos. Aniquilados, ridicularizados e enfraquecidos, não apresentam argumentos. Perderam o corpo e, pior ainda, perderam a razão. Abandonaram o seu estatuto de sujeito e tornaram-se, decididamente, num objecto. No seu novo estatuto, tanto são um pequeno animal de estimação (peixe), como um objecto (piercing) ou modelos à escolha numa máquina de vendas automáticas. Como alternativa a tudo isto, são pequenos escravos que espalham bronzeador pela pele das jovens ou lhes depilam as virilhas, actos indispensáveis para elas usufruírem da praia e dos biquínis Kookai. Até foi criado um pequeno pictograma, que acompanha todos estes anúncios. Representa um homem a ser atingido por um raio, que possivelmente vai direito ao coração. Escravos da sedução, estão enfeitiçados e presos na sua própria teia de desejo. E o mais humilhante é pensar que é preciso tão pouco para reduzir um homem à sua insignificância. Nenhum dos anúncios tem headline, corpo de texto ou sequer assinatura. Palavras para quê? É como se o processo da sedução fosse silencioso, instantâneo e fulminante. E enquanto não for encontrado um antídoto, vai ser sempre assim. Porque estas mulheres (não) são para brincadeiras. Jovens e independentes, mantêm os homens em banho-maria. Se umas vezes lhes dão atenção, é só para reforçar a sua dependência delas. É verdade. Eles dependem da vontade delas. Parecem assustados, mas ninguém os acode. São presas demasiado fáceis. E o que valoriza uma vitória é a força do opositor. Se fosse um combate de boxe, as mulheres venciam por K.O. no 1º assalto, ao fim de 10 segundos. Da roupa, pouco se vê. São decotes, peças de roupa interior, vestidos colantes e tops exíguos. Tudo em nome da sedução. A cor favorece os modelos de roupa reduzidos que elas envergam. São predominantes os azuis, os lilases e os verdes. Elas estão extremamente maquilhadas e não prescindem de pintar as unhas de cores fortes ou de usar sapatos de saltos muito altos. Já não são liceais arrogantes. São universitárias licenciadas em sedução, com 20 valores na matéria. E sabem, melhor do que ninguém, que o segredo é mostrar, mas não mostrar tudo. É como se estas roupas coloridas e justas ganhassem a propriedade de um véu esvoaçante, que brinca com o olhar, num incessante movimento entre mostrar e esconder. Esse é o ritual. Até porque a imaginação de cada um faz o resto. Essa é a armadilha. As mulheres Kookai são perigosas, porque são Evas disfarçadas. Não usam a parra, mas tapam o corpo com pouco mais. Não oferecem a maçã, mas tiram a lucidez. E sabem-se donas do mundo, como o leão se sabe dono da savana, só de olhar para ela. Este é o lado irracional. Mas se formos pela lógica, as coisas não melhoram. Todas as mulheres são escravas da moda. Os homens são escravos das mulheres, logo, podemos concluir: afinal, os homens é que são escravos da moda. Quem diria!

Editado na Pública, em data por confirmar

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Alice # 0 / A inocência

O que aconteceria se a inocência se pudesse ganhar, e não apenas perder?

terça-feira, 31 de março de 2009

As novas Lolitas

Lembram-se? No final da década de 80, as páginas das revistas francesas foram invadidas por um novo tipo de rapariga. Ou melhor, como elas próprias se definiam: “uma nova espécie de género de rapariga.” Estávamos em 1987 e a agência francesa CLM/BBDO lançava a sua campanha publicitária para a marca Kookai. E o que era a Kookai? Uma linha de roupa não muito cara, nova e, sobretudo, irreverente. Este produto estava direccionado para as jovens que se preocupam com a sua imagem. O grupo alvo era (e continua a ser) o público feminino com idades entre os 15 e os 30 anos. O imperativo do preto e branco, por motivos económicos, foi transformado num tom original, ao nível da comunicação. Os criadores desta campanha escolheram imagens de liceais pretensiosas. Os textos que acompanhavam as fotos eram testemunhos destas jovens que ostentavam a certeza de serem irresistíveis. Sabem porquê? Perguntavam incessantemente ao espelho se eram a mais bela do mundo. Em noites de insónia, contavam rapazes para adormecer. Eram escravas da moda e um pequeno cheque deixava-as primeiro, contentes e depois, bonitas. Qual era o seu desporto favorito? As compras, claro. Afirmavam com insolência que gostariam que um rapaz lhes resistisse, nem que fosse apenas por uma vez. E por falar em rapazes, nos anúncios, nem vê-los. Tudo era deixado ao sabor da nossa imaginação. E não era difícil imaginar imberbes e pálidos adolescentes com um ar angustiado provocado pelos desgostos de amor. Dominados por insónias, com falta de apetite e completamente subjugados aos encantos e argumentos destas jovens sedutoras. A julgar pelos anúncios, as roupas Kookai podiam atingir mais corações masculinos do que as setas certeiras de Cupido. Num anúncio, a Kookai aparecia mesmo com o estatuto de ideologia. Uma jovem completamente démodée dizia que o noivo era contra a Kookai. Noutro, uma mãe desabafava : ”Espera só até o teu pai chegar a casa”. Havia também um anúncio com um pai que comentava: “A nossa filha veste Kookai. Esperemos que não se constipe”. A Kookai representava um desafio à autoridade materna e paterna. Uma proibição, a juntar à extensa lista de tentações de que os progenitores queriam afastar as filhas a todo o custo. Nalguns anúncios, as jovens lolitas envergam modelos Kookai. Noutros, nem isso. Os seus corpos eram ornamentados com grandes motivos como mãos, bocas ou olhos, inspirados nas colagens de Man Ray. O produto já não se encontrava visualmente presente. Mas mesmo sem roupa, elas eram despidas pela Kookai. Com esta linha de comunicação, a Kookai dizia-nos (não dizendo), como quase todas as marcas de roupa, que o importante é parecer e não ser. Que é mais fácil ficar bonita do que ser a melhor aluna da turma. Que é melhor saber vestir-se bem do que saber fórmulas de química. Que a matemática é mais útil para contar os rapazes conquistados do que para fazer equações de 3º grau. No entanto, algumas das frases proferidas por estas jovens revelavam capacidades intelectuais consideráveis, como este headline: “Detesto que me amem pela minha inteligência.” Em suma: estava lançada a marca Kookai, que assentava numa promessa forte e sedutora. Prometia tornar as mulheres irresistíveis. E não é esse o desejo secreto de qualquer mulher, quando compra roupa?

Publicado na Pública, já nem me lembro quando.


sexta-feira, 27 de março de 2009

Querem que me dispa?

Pediram para me apresentar. É a primeira vez que me dispo em público e é bem provável que seja a última. Mas já que me deram tempo de antena, gostava de explicar por que estou aqui: para demonstrar que as mulheres gostam cada vez mais de jogar videojogos. Ah, mas importa acrescentar: da marca Playstation. Sim, porque por muito pequeno que apareça o logótipo, símbolo da marca, ele é e será sempre a razão de ser do anúncio. Já vos consegui chamar atenção? A estranheza do meu corpo, que todos os dias visto, como se a pele não lhe chegasse, prendeu o vosso olhar? (Só por curiosidade: sabiam que a pele de um corpo, completamente esticada, ocupa uma cama de casal?) Sou um personagem conceito e vivo numa superfície digital. O meu corpo caiu num jogo. Preciso de roupas que me protejam da monotonia dos dias. Visto o meu corpo com a pele dos heróis como quem veste uma paisagem. Sei que acham o meu corpo estranho. Sou uma mulher, mas tenho o tronco atlético, sólido e assexuado de um homem e os braços demasiado musculados. Como não imagino quem sou, prefiro descrever-me pelos personagens com quem partilho o sabor da imortalidade. A ilusão é o princípio mais igualitário que existe. Somos todos iguais. Todos podemos ser tudo. Sou o homem-aranha. Sou o conquistador de galáxias no céu e de tesouros no fundo do mar. Já pilotei aviões de combate e lutei com dragões. Vivi em castelos medievais com masmorras e passagens secretas e deslizei pelos esgotos subterrâneos de uma cidade futurista. Encarno os personagens que imagino ser com violência e êxtase num corpo que já não é meu. Penso que domino o mundo. Mas, e se o jogo fosse precisamente esse: o de me fazer acreditar que sou o criador da máquina, quando não passo de um operador? Por detrás do jogo, há alguém escondido que se ri de mim. Apetecia-me virar a minha pele ao contrário. Nem que fosse para descobrir que ela é o que tenho de mais profundo. Como se os jogos existissem antes de mim e eu tivesse nascido para lhes dar corpo. Por favor, não me digam que não sou real. Até como maçãs vermelhas e pão com sementes de sésamo. Mas não acreditem em tudo o que digo. Sou apenas um anúncio para vender videojogos. Ah, mas importa acrescentar: da PS2.

Publicado na Egoísta em 2005

O beijo atrasado


Era uma vez um anúncio. Como todos os bons anúncios, tinha o poder encantatório das fábulas infantis e fazia disparar a imaginação. Era um anúncio sem palavras e, só por isso, convidava a inventar histórias. Como esta. Sei que esta história não tem idade, mas eu tenho. Que idade terei? A minha idade leva muito tempo a dizer. Envelheci à espera do beijo que não recebi. Adormeci, e quando estamos a dormir, o tempo passa de outra maneira. Noite após noite, cresceu o sono e cresceram as horas, os dias, os anos e os cabelos. Na história que começa com “Era uma vez...” estava escrito que tu virias. Este anúncio é genial (desculpem a minha falta de modéstia, mas bem vi o furor que causei em Cannes) porque a história não continua da forma como sempre nos contaram. E a publicidade é isso mesmo: recriar a realidade de forma inesperada, nunca vista. E assim foi. Tu não vieste. Por isso, existo como uma árvore. Ganhei raízes e perdi cor. Estou pálida como a morte e os meus cabelos confundem-se com os fios de lã do tear. As minhas roupas podiam ser asas de anjo. A velhice chegou-me durante o sono. A minha cabeleira destaca-se na noite como o clarão de uma tempestade. A minha pele nunca vai arder na ponta dos teus dedos. Apenas os botões de comando da consola. Trocaria de bom grado a memória dos beijos que não me deste por um beijo teu. Mas não há nada que perdure tanto como a lembrança de um amor que não se viveu. Quem me disse para viver tanto? Não tenho idade para ter a idade que tenho. Não há lábios que me acordem. O problema é que ainda acredito no príncipe encantado. A esperança, sobretudo a mais próxima, alimenta-se da ilusão, tal como os jogos da Playstation. Desde que te ofereci a PS2 naquela tarde, nunca mais te vi. Ouvi dizer que tens o jogo da Fórmula 1. Vives a adrenalina nas pistas e conduzes bólides a mais de 330 quilómetros à hora. Nunca te devia ter dado a consola. Agora, só te falta a imortalidade para te sentires Deus. A mim, continua a faltar-me o teu beijo para me sentir mortal. Se viesses a cavalo, como na outra história, já cá tinhas chegado há muito. Mas ao volante de um Ferrari, estás demasiado distante de mim. Mesmo assim, espero que esta história sirva para alguma coisa. Talvez para a Sony vender mais alguns milhões de consolas PS2 em todo o mundo. Ou para eu encontrar a minha imortalidade num anúncio de publicidade. Enquanto o beijo é adiado por mais um dia e os publicitários que me criaram recebem convites para mudar de agência.



Publicado na Alice ccp em 2005

quarta-feira, 25 de março de 2009

A nova Eva

Esta é a minha verdade: sou uma ficção publicitária. Vivo apenas no interior deste anúncio, inventado por uma dupla criativa que trabalha na TBWA em Paris, provavelmente a cidade mais romântica (quem diria!) do mundo, mas o mundo não está para romantismos. O amor está fora de moda e por vezes as pessoas parecem ter máquinas no lugar do coração. Eu próprio ganhei corpo para convencer um grupo alvo maioritariamente masculino, urbano e com uma média de idade de 28 anos, de que há máquinas que nos dão mais prazer do que muitos seres humanos. E passe a publicidade, essas máquinas têm nome: PS2. O psicólogo do departamento de planeamento estratégico deu inputs interessantes. Quem é o outro quando as relações já não passam pelos sentimentos humanos, mas pelos gestos maquinais? A Playstation não poderá posicionar-se como sendo melhor do que sexo? Mas não tenham ilusões. Destas considerações teóricas até a imagem de um rapaz (eu próprio, uma projecção dos vossos desejos) a encher uma boneca insuflável de formas inusitadas (já lá vamos) houve um longo caminho a percorrer. Foram tardes de riso, momentos de desespero, muitos cigarros, noites de trabalho e, quando os criativos já estavam a entrar naquela fase de descrença nas suas capacidades, deu-se o salto criativo. A PS2 é o sexo da vida. É como aquelas bonecas insufláveis nas sex-shops. Um brinquedo para adultos capaz de inspirar fantasias mais excitantes, radicais e imagináveis do que qualquer parceiro sexual. Enche-se e esvazia-se como o desejo e alimenta o fascínio erótico. Fizeram um esboço meu e ainda fui parar ao caixote do lixo, mas felizmente ressuscitei para tocar com os dedos o objecto do meu desejo. Pronto: confesso. Tenho pavor da intimidade e medo de me apaixonar. Ainda bem que inventaram a nova Eva, a amante que corresponde inteiramente aos meus desejos, porque é uma parceira muda e não faz reclamações. É um corpo básico, feito com as formas dos quatro botões do comando da PS2: o quadrado, o triângulo, o círculo e a cruz. Agora, tenho um corpo para tocar, sem fissuras ou carne para decifrar. As minhas pulsões revelam-se num encadeado de ficções. O quarto tornou-se um templo de mundos temporários: a arena, a pista de Fórmula 1, o castelo gótico e até a vida real. Como vêem, não é preciso haver uma história de amor, com desencontros, o telefone que não toca, as cenas de ciúmes e as perguntas incómodas. Vivo num êxtase de prazer. Só não percebi ainda por que não me apetece deitar na cama desfeita, quando o jogo acaba.

Editado na Egoísta em 2005