segunda-feira, 13 de abril de 2009

Alice # 10/ Os presentes


Quando oferecemos algo, damos sempre muito menos do que imaginamos. Quando oferecemos algo (já sem discutir o facto de que esse algo devia ser feito por nós, ter nascido das nossas cabeças, corações e mãos, como um poema, um bolo, uma planta semeada num vaso, uma jarra de cartão ou uma fotografia) deviamos oferecer o tempo que o nosso objecto leva a ser vivido. Por exemplo: um livro também devia trazer as suas horas de leitura, incluindo a vontade de o reler muitos anos mais tarde. Uma caixa de chocolates não estaria completa sem os poucos minutos que seriam necessários para a devorar, inteira. E um disco tinha de trazer embrulhado o tempo da sua duração vezes 52, no mínimo, para garantir a descoberta e o gozo de todas as músicas, até se saberem de cor. E por aí fora. Com isso, estaríamos a dar fermento ao presente. Pelo contrário, damos presentes ausentes de certezas, quase com falta de esperança de que sejam apreciados no sentido mais profundo do termo. Damos presentes sem futuro, que não sabemos se, como ou quando, vão ser vividos e conjugados no único verbo que importa: viver. Todos os presentes deviam trazer um relógio escondido. E talvez fosse melhor, a partir de então, chamar-lhes “futuros”. Porque o tempo é o maior dos presentes. Talvez o único.

domingo, 12 de abril de 2009

De novo, a memória

As circunstâncias que inscrevem o acontecimento na nossa memória são muito mais importantes do que o próprio acontecimento. A memória guarda quase tudo o que perdeu: as pessoas, as casas, os cheiros, os tons de voz, os sabores, certas palavras. Talvez tenha os 5 sentidos pouco apurados. A memória amplia e distorce precisamente porque se esqueceu das circunstâncias. Quer completar a fotografia nunca revelada e ainda por cima esbatida pelo tempo. Por isso inventa. A memória dá-se mal com o vazio.

Alice # 8/ O fotógrafo

O fotógrafo é aquele que rouba momentos. Para os devolver, outros, depois de revelados, sob a forma de figuras de espanto. O fotógrafo é o ladrão da imaginação.

Alice # 7/ As surpresas


De que é que mais gosto? De surpresas. Nunca me cansam. Uma vida inventada vira as certezas ao contrário.

Alice # 6 / Uma escola


Porque é que nunca inventaram uma escola onde se ensinasse a desaprender?

Alice # 5 / Certas flores

Há flores que são infinitamente mais belas do que o nome com que as colhem. Já experimentaram apanhar a palavra “ranúnculos” e oferecê-la a alguém?

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Alice # 4 / A infância

Quando lhe perguntaram o que queira ser quando fosse grande, respondeu sem hesitar: pequena.

Alice # 3 / O outro

O outro é o ser que pode existir sem nós. É por isso que é a promessa de um diálogo, mesmo que responda em língua de gato. É o olhar do outro que nos faz existir, não o olhar do espelho. Porque esse olhar ainda é nosso, tal como as palavras que ainda não dissemos. E a que ele vai responder na única língua que conhece: a língua do outro. O silêncio é um espelho cego.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Alice # 2 / As meninas

As verdadeiras mulheres continuam a ser tratadas pelo mundo por “meninas”, como se o tempo tivesse parado de um dos lados do espelho.

Alice # 1 / A memória

Não podemos voltar a um tempo que já passou. Da mesma forma que não podemos entrar num espaço que já não existe. A infância na praia de São Martinho do Porto e um jantar no snack-bar das Galerias Ritz equivalem-se como memórias. Ambos podem apenas ser visitados à distância, como quem olha para uma ferida aberta que os dedos não se atrevem a tocar. Não é isso a memória? Um espelho que não reflecte a realidade?

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Girl Power com sotaque francês

Entretanto, o tempo passou e as lolitas dos anúncios a preto e branco cresceram, mas apenas o suficiente. Em meados da década de 90, são jovens adultas e os anúncios onde surgem ganharam cor. Corto Maltese, numa das suas aventuras pelo mundo, lamentava-se sobre o facto de um homem não poder cair nos braços de uma mulher sem ficar nas suas mãos. Nas mãos das mulheres é como ficam os homens na segunda fase da campanha Kookai. Não sabemos se caíram nos seus braços, mas decerto caíram perante as suas roupas ousadas e sedutoras. Depois da educação e filosofia de vida recebidas, encontramo-las a brincar de forma efectiva com jovens representantes do sexo oposto. De quem fazem gato sapato e trinta por uma linha. Passaram da teoria à prática. Mostram e demonstram o que elas e a roupa Kookai (como já devem ter percebido, trata-se de uma joint venture!) fazem aos homens, a vingarem séculos de subjugação e domínio do chamado sexo forte. Resultado desta inversão cultural e social, o sexo forte encolheu e tem o tamanho de um pequeno objecto. E é assim que os homens nos aparecem: minúsculos, mas com tamanho suficiente para nos apercebermos de que são extremamente bonitos. Aniquilados, ridicularizados e enfraquecidos, não apresentam argumentos. Perderam o corpo e, pior ainda, perderam a razão. Abandonaram o seu estatuto de sujeito e tornaram-se, decididamente, num objecto. No seu novo estatuto, tanto são um pequeno animal de estimação (peixe), como um objecto (piercing) ou modelos à escolha numa máquina de vendas automáticas. Como alternativa a tudo isto, são pequenos escravos que espalham bronzeador pela pele das jovens ou lhes depilam as virilhas, actos indispensáveis para elas usufruírem da praia e dos biquínis Kookai. Até foi criado um pequeno pictograma, que acompanha todos estes anúncios. Representa um homem a ser atingido por um raio, que possivelmente vai direito ao coração. Escravos da sedução, estão enfeitiçados e presos na sua própria teia de desejo. E o mais humilhante é pensar que é preciso tão pouco para reduzir um homem à sua insignificância. Nenhum dos anúncios tem headline, corpo de texto ou sequer assinatura. Palavras para quê? É como se o processo da sedução fosse silencioso, instantâneo e fulminante. E enquanto não for encontrado um antídoto, vai ser sempre assim. Porque estas mulheres (não) são para brincadeiras. Jovens e independentes, mantêm os homens em banho-maria. Se umas vezes lhes dão atenção, é só para reforçar a sua dependência delas. É verdade. Eles dependem da vontade delas. Parecem assustados, mas ninguém os acode. São presas demasiado fáceis. E o que valoriza uma vitória é a força do opositor. Se fosse um combate de boxe, as mulheres venciam por K.O. no 1º assalto, ao fim de 10 segundos. Da roupa, pouco se vê. São decotes, peças de roupa interior, vestidos colantes e tops exíguos. Tudo em nome da sedução. A cor favorece os modelos de roupa reduzidos que elas envergam. São predominantes os azuis, os lilases e os verdes. Elas estão extremamente maquilhadas e não prescindem de pintar as unhas de cores fortes ou de usar sapatos de saltos muito altos. Já não são liceais arrogantes. São universitárias licenciadas em sedução, com 20 valores na matéria. E sabem, melhor do que ninguém, que o segredo é mostrar, mas não mostrar tudo. É como se estas roupas coloridas e justas ganhassem a propriedade de um véu esvoaçante, que brinca com o olhar, num incessante movimento entre mostrar e esconder. Esse é o ritual. Até porque a imaginação de cada um faz o resto. Essa é a armadilha. As mulheres Kookai são perigosas, porque são Evas disfarçadas. Não usam a parra, mas tapam o corpo com pouco mais. Não oferecem a maçã, mas tiram a lucidez. E sabem-se donas do mundo, como o leão se sabe dono da savana, só de olhar para ela. Este é o lado irracional. Mas se formos pela lógica, as coisas não melhoram. Todas as mulheres são escravas da moda. Os homens são escravos das mulheres, logo, podemos concluir: afinal, os homens é que são escravos da moda. Quem diria!

Editado na Pública, em data por confirmar

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Alice # 0 / A inocência

O que aconteceria se a inocência se pudesse ganhar, e não apenas perder?

terça-feira, 31 de março de 2009

As novas Lolitas

Lembram-se? No final da década de 80, as páginas das revistas francesas foram invadidas por um novo tipo de rapariga. Ou melhor, como elas próprias se definiam: “uma nova espécie de género de rapariga.” Estávamos em 1987 e a agência francesa CLM/BBDO lançava a sua campanha publicitária para a marca Kookai. E o que era a Kookai? Uma linha de roupa não muito cara, nova e, sobretudo, irreverente. Este produto estava direccionado para as jovens que se preocupam com a sua imagem. O grupo alvo era (e continua a ser) o público feminino com idades entre os 15 e os 30 anos. O imperativo do preto e branco, por motivos económicos, foi transformado num tom original, ao nível da comunicação. Os criadores desta campanha escolheram imagens de liceais pretensiosas. Os textos que acompanhavam as fotos eram testemunhos destas jovens que ostentavam a certeza de serem irresistíveis. Sabem porquê? Perguntavam incessantemente ao espelho se eram a mais bela do mundo. Em noites de insónia, contavam rapazes para adormecer. Eram escravas da moda e um pequeno cheque deixava-as primeiro, contentes e depois, bonitas. Qual era o seu desporto favorito? As compras, claro. Afirmavam com insolência que gostariam que um rapaz lhes resistisse, nem que fosse apenas por uma vez. E por falar em rapazes, nos anúncios, nem vê-los. Tudo era deixado ao sabor da nossa imaginação. E não era difícil imaginar imberbes e pálidos adolescentes com um ar angustiado provocado pelos desgostos de amor. Dominados por insónias, com falta de apetite e completamente subjugados aos encantos e argumentos destas jovens sedutoras. A julgar pelos anúncios, as roupas Kookai podiam atingir mais corações masculinos do que as setas certeiras de Cupido. Num anúncio, a Kookai aparecia mesmo com o estatuto de ideologia. Uma jovem completamente démodée dizia que o noivo era contra a Kookai. Noutro, uma mãe desabafava : ”Espera só até o teu pai chegar a casa”. Havia também um anúncio com um pai que comentava: “A nossa filha veste Kookai. Esperemos que não se constipe”. A Kookai representava um desafio à autoridade materna e paterna. Uma proibição, a juntar à extensa lista de tentações de que os progenitores queriam afastar as filhas a todo o custo. Nalguns anúncios, as jovens lolitas envergam modelos Kookai. Noutros, nem isso. Os seus corpos eram ornamentados com grandes motivos como mãos, bocas ou olhos, inspirados nas colagens de Man Ray. O produto já não se encontrava visualmente presente. Mas mesmo sem roupa, elas eram despidas pela Kookai. Com esta linha de comunicação, a Kookai dizia-nos (não dizendo), como quase todas as marcas de roupa, que o importante é parecer e não ser. Que é mais fácil ficar bonita do que ser a melhor aluna da turma. Que é melhor saber vestir-se bem do que saber fórmulas de química. Que a matemática é mais útil para contar os rapazes conquistados do que para fazer equações de 3º grau. No entanto, algumas das frases proferidas por estas jovens revelavam capacidades intelectuais consideráveis, como este headline: “Detesto que me amem pela minha inteligência.” Em suma: estava lançada a marca Kookai, que assentava numa promessa forte e sedutora. Prometia tornar as mulheres irresistíveis. E não é esse o desejo secreto de qualquer mulher, quando compra roupa?

Publicado na Pública, já nem me lembro quando.


sexta-feira, 27 de março de 2009

Querem que me dispa?

Pediram para me apresentar. É a primeira vez que me dispo em público e é bem provável que seja a última. Mas já que me deram tempo de antena, gostava de explicar por que estou aqui: para demonstrar que as mulheres gostam cada vez mais de jogar videojogos. Ah, mas importa acrescentar: da marca Playstation. Sim, porque por muito pequeno que apareça o logótipo, símbolo da marca, ele é e será sempre a razão de ser do anúncio. Já vos consegui chamar atenção? A estranheza do meu corpo, que todos os dias visto, como se a pele não lhe chegasse, prendeu o vosso olhar? (Só por curiosidade: sabiam que a pele de um corpo, completamente esticada, ocupa uma cama de casal?) Sou um personagem conceito e vivo numa superfície digital. O meu corpo caiu num jogo. Preciso de roupas que me protejam da monotonia dos dias. Visto o meu corpo com a pele dos heróis como quem veste uma paisagem. Sei que acham o meu corpo estranho. Sou uma mulher, mas tenho o tronco atlético, sólido e assexuado de um homem e os braços demasiado musculados. Como não imagino quem sou, prefiro descrever-me pelos personagens com quem partilho o sabor da imortalidade. A ilusão é o princípio mais igualitário que existe. Somos todos iguais. Todos podemos ser tudo. Sou o homem-aranha. Sou o conquistador de galáxias no céu e de tesouros no fundo do mar. Já pilotei aviões de combate e lutei com dragões. Vivi em castelos medievais com masmorras e passagens secretas e deslizei pelos esgotos subterrâneos de uma cidade futurista. Encarno os personagens que imagino ser com violência e êxtase num corpo que já não é meu. Penso que domino o mundo. Mas, e se o jogo fosse precisamente esse: o de me fazer acreditar que sou o criador da máquina, quando não passo de um operador? Por detrás do jogo, há alguém escondido que se ri de mim. Apetecia-me virar a minha pele ao contrário. Nem que fosse para descobrir que ela é o que tenho de mais profundo. Como se os jogos existissem antes de mim e eu tivesse nascido para lhes dar corpo. Por favor, não me digam que não sou real. Até como maçãs vermelhas e pão com sementes de sésamo. Mas não acreditem em tudo o que digo. Sou apenas um anúncio para vender videojogos. Ah, mas importa acrescentar: da PS2.

Publicado na Egoísta em 2005

O beijo atrasado


Era uma vez um anúncio. Como todos os bons anúncios, tinha o poder encantatório das fábulas infantis e fazia disparar a imaginação. Era um anúncio sem palavras e, só por isso, convidava a inventar histórias. Como esta. Sei que esta história não tem idade, mas eu tenho. Que idade terei? A minha idade leva muito tempo a dizer. Envelheci à espera do beijo que não recebi. Adormeci, e quando estamos a dormir, o tempo passa de outra maneira. Noite após noite, cresceu o sono e cresceram as horas, os dias, os anos e os cabelos. Na história que começa com “Era uma vez...” estava escrito que tu virias. Este anúncio é genial (desculpem a minha falta de modéstia, mas bem vi o furor que causei em Cannes) porque a história não continua da forma como sempre nos contaram. E a publicidade é isso mesmo: recriar a realidade de forma inesperada, nunca vista. E assim foi. Tu não vieste. Por isso, existo como uma árvore. Ganhei raízes e perdi cor. Estou pálida como a morte e os meus cabelos confundem-se com os fios de lã do tear. As minhas roupas podiam ser asas de anjo. A velhice chegou-me durante o sono. A minha cabeleira destaca-se na noite como o clarão de uma tempestade. A minha pele nunca vai arder na ponta dos teus dedos. Apenas os botões de comando da consola. Trocaria de bom grado a memória dos beijos que não me deste por um beijo teu. Mas não há nada que perdure tanto como a lembrança de um amor que não se viveu. Quem me disse para viver tanto? Não tenho idade para ter a idade que tenho. Não há lábios que me acordem. O problema é que ainda acredito no príncipe encantado. A esperança, sobretudo a mais próxima, alimenta-se da ilusão, tal como os jogos da Playstation. Desde que te ofereci a PS2 naquela tarde, nunca mais te vi. Ouvi dizer que tens o jogo da Fórmula 1. Vives a adrenalina nas pistas e conduzes bólides a mais de 330 quilómetros à hora. Nunca te devia ter dado a consola. Agora, só te falta a imortalidade para te sentires Deus. A mim, continua a faltar-me o teu beijo para me sentir mortal. Se viesses a cavalo, como na outra história, já cá tinhas chegado há muito. Mas ao volante de um Ferrari, estás demasiado distante de mim. Mesmo assim, espero que esta história sirva para alguma coisa. Talvez para a Sony vender mais alguns milhões de consolas PS2 em todo o mundo. Ou para eu encontrar a minha imortalidade num anúncio de publicidade. Enquanto o beijo é adiado por mais um dia e os publicitários que me criaram recebem convites para mudar de agência.



Publicado na Alice ccp em 2005

quarta-feira, 25 de março de 2009

A nova Eva

Esta é a minha verdade: sou uma ficção publicitária. Vivo apenas no interior deste anúncio, inventado por uma dupla criativa que trabalha na TBWA em Paris, provavelmente a cidade mais romântica (quem diria!) do mundo, mas o mundo não está para romantismos. O amor está fora de moda e por vezes as pessoas parecem ter máquinas no lugar do coração. Eu próprio ganhei corpo para convencer um grupo alvo maioritariamente masculino, urbano e com uma média de idade de 28 anos, de que há máquinas que nos dão mais prazer do que muitos seres humanos. E passe a publicidade, essas máquinas têm nome: PS2. O psicólogo do departamento de planeamento estratégico deu inputs interessantes. Quem é o outro quando as relações já não passam pelos sentimentos humanos, mas pelos gestos maquinais? A Playstation não poderá posicionar-se como sendo melhor do que sexo? Mas não tenham ilusões. Destas considerações teóricas até a imagem de um rapaz (eu próprio, uma projecção dos vossos desejos) a encher uma boneca insuflável de formas inusitadas (já lá vamos) houve um longo caminho a percorrer. Foram tardes de riso, momentos de desespero, muitos cigarros, noites de trabalho e, quando os criativos já estavam a entrar naquela fase de descrença nas suas capacidades, deu-se o salto criativo. A PS2 é o sexo da vida. É como aquelas bonecas insufláveis nas sex-shops. Um brinquedo para adultos capaz de inspirar fantasias mais excitantes, radicais e imagináveis do que qualquer parceiro sexual. Enche-se e esvazia-se como o desejo e alimenta o fascínio erótico. Fizeram um esboço meu e ainda fui parar ao caixote do lixo, mas felizmente ressuscitei para tocar com os dedos o objecto do meu desejo. Pronto: confesso. Tenho pavor da intimidade e medo de me apaixonar. Ainda bem que inventaram a nova Eva, a amante que corresponde inteiramente aos meus desejos, porque é uma parceira muda e não faz reclamações. É um corpo básico, feito com as formas dos quatro botões do comando da PS2: o quadrado, o triângulo, o círculo e a cruz. Agora, tenho um corpo para tocar, sem fissuras ou carne para decifrar. As minhas pulsões revelam-se num encadeado de ficções. O quarto tornou-se um templo de mundos temporários: a arena, a pista de Fórmula 1, o castelo gótico e até a vida real. Como vêem, não é preciso haver uma história de amor, com desencontros, o telefone que não toca, as cenas de ciúmes e as perguntas incómodas. Vivo num êxtase de prazer. Só não percebi ainda por que não me apetece deitar na cama desfeita, quando o jogo acaba.

Editado na Egoísta em 2005

Isto não é o que parece

Vamos fingir. Vamos fingir que sou uma mulher apanhada pelo marido em flagrante adultério. Quantas vezes a publicidade não se inspira na vida real? Conheço um publicitário que defende serem os melhores anúncios aqueles que veiculam uma verdade inesperada. E eu concordo, enquanto a sombra do teu corpo abre a porta do nosso quarto. Desta vez, não tenho como escapar. Achavas mesmo que não havia mais ninguém? Como poderia suportar sete anos de um monótono casamento sem te trair? Tudo começou no dia em que o prazer se tornou dever e te expulsei da minha imaginação. Como se tivesses perdido tudo o que gostava em ti, à medida que te fui conhecendo. O hábito e a lógica maçam-me. E se o amor mata o tempo, o tempo mata o amor. Estás a entrar no quarto e vais-me descobrir com uma roupa interior que guardo para estes momentos de prazer secretos, rodeada pelos símbolos do comando da consola. Espero que não me peças de volta todas as horas que estive a jogar, ainda por cima com a tua PS2. É como se te tivesse traído com o teu melhor amigo. Gostava que, ao menos, não fingisses estar com ciúmes. O ciúme não é amor, a não ser que seja amor-próprio. Nas revistas que leio quando estamos deitados lado a lado nesta mesma cama, sem nada para dizer um ao outro, discute-se se o verdadeiro adultério é o físico ou o espiritual. Parece que as mulheres o desculpam melhor na sua versão física, sorte a vossa. Mas para teu azar, este caso há muito escapou à definição clássica de adultério. Já não é uma relação circunstancial e de baixo envolvimento emocional. Estou viciada na excitação deste jogo sem fim, em que estranhamente ganho sempre, seja devoradora ou submissa, presa ou predadora. Se soubesses o prazer que dele extraio, nunca mais me perdoavas. Sou uma coleccionadora de jogos e a PS2 tem todas as qualidades que tu não tens. É possível que não me perdoes. Mesmo assim, vou dizer-to: a Playstation não significa nada para mim. Foram as tuas viagens de negócios e a monotonia do nosso casamento que me obrigaram a isto. Apenas queria um corpo a que me enroscar, como uma gata mimada. Alem do mais, isto não é o que parece. Soa-te estranhamente familiar? Acho que foi exactamente o que te disse da última vez. Mas este jogo é novo. Comprei-o ontem. Gostava de me esconder debaixo da cama, mas estou presa à minha fantasia. Vais fingir que acreditas nas minha mentiras? Esse tem sido o segredo do nosso casamento. Essa talvez seja a alma da publicidade.

Editado na Egoísta em 2005

terça-feira, 24 de março de 2009

Já morri 741 vezes

Não acreditam? São mortes pequenas, é certo, e por isso, todas juntas, não somam uma morte grande, a verdadeira morte. Conhecem a expressão "petit mort"? O copywriter que me inventou lembrou-se dela porque tinha lido recentemente "A História Íntima do Orgasmo" e foi assim que eu nasci de duas palavras, elas próprias pequenas. Para quem não saiba, "petit mort" é o sentimento de vazio e tristeza que invade os humanos após a satisfação do desejo sexual. O director de arte desconhecia a expressão, mas como fazer um anúncio é um trabalho a dois, apareceram-lhe logo algumas imagens interessantes diante dos olhos. Nasci neste anúncio, como uma "petite fille" que brinca no seu quarto com a "petit mort". Claro que não podia ser uma rapariga qualquer. Tinha de ser eu, parecida com a namorada do director de arte, uma parisiense sofisticada, pálida e alourada, que trabalha como designer numa agência da concorrência. Escolheram-me no casting porque mesmo quando faço uma expressão inocente pareço perversa. Vestiram-me uma camisa de noite branca, levaram-me para um quarto quase branco e sentaram-me em cima de um edredão com flores avermelhadas (as flores do mal?) para emprestar romantismo e feminilidade ao cenário. Pediram-me para segurar uma pequena foice nos dedos, a fingir que brincava com um simulacro da morte, que apenas me foi colocado nas mãos dois dias depois de tirada a fotografia, em pós-produção. Construiram uma morte tridimensional - um minúsculo esqueleto vestido de preto (como se tivesse corpo), que agora balanceia docemente na lâmina da foice e na ponta dos meus dedos. E por fim, disseram-me algo estranho: finge que és um fantasma em êxtase, que engana a vida brincando à morte. Então, compus a minha personagem. Chamo-me Alice e sou uma estudante da Sorbonne que convoca todas as noites a morte na hora mais escura e solitária. Os rapazes maçam-me e aquilo a que se convencionou chamar amor (como se o amor pudesse ser convencional) entedia-me. Tranco-me no quarto e deixo a minha mãe pensar que estou a estudar Roland Barthes e Gilles Deleuze enquanto extraio indescritíveis prazeres da minha PS2. Não sei o que vocês pensam, mas acho que apenas se devia morrer na cama, lugar onde habitualmente se nasce. Nunca ouviram dizer que em cada berço há um túmulo? E já agora, gostava de vos perguntar a vocês que têm existência real: são mortos que vivem ou vivos que morrem? Não sabem responder? Não admira. No fundo, ninguém acredita na sua própria morte. Mas não pensem demasiado no assunto. A morte deve ser muito boa. Nunca ninguém de lá voltou. E agora, deixem-me voltar à PS2.

Texto editado na Alice ccp em 2005

De olhos bem fechados

Está aí alguém? Desculpem perguntar, mas estou sem olhos. Ainda não escolhi quais vou usar hoje. E o que se pode ver sem olhos, se a visão é a impossibilidade de não ver? Ainda bem que me deixaram já com a boca colocada no devido lugar. Assim, pelo menos, posso falar. Deverei antes perguntar se me querem ouvir? É tão difícil fazer um bom anúncio, daqueles que obrigam os olhos que ainda não tenho a parar numa página, como se uma mão vinda de dentro rasgasse o papel da própria revista e agarrasse o leitor à força. E é fácil explicar porquê. Um anúncio é a demonstração inesperada de uma promessa quase sempre banal, nem que o seja à força de se ter repetido vezes sem conta. Sei do que falo. Ando há mais de dez anos a prometer entretenimento sem fim. E se o dissesse sempre da mesma forma, já ninguém seria contaminado pela minha mensagem. Por isso, venho falar-vos agora de rostos em composição, de novas formas de humanidade. Tenho a humanidade inteira fechada no meu rosto sem olhos, nestes olhos de olhar perfurado. A minha boca, já o devem ter percebido, é uma miragem numa cavidade de que escapam segredos como estes que estou a contar. Tenho um armário cheio de próteses de orgãos faciais com as quais poderia construir um catálogo-tipo da tribo a que sonho pertencer. Ando à procura do meu rosto. Do outro em mim. De ti. Para tudo o resto ter um ar credível, estou num apartamento com aquecimento, livros empilhados e uma caixa de lenços de papel - vestígios do meu banal quotidiano quando tenho o rosto de um estudante de medicina na faculdade. A tecnologia revela a minha falta de humanidade, mas eu insisto em reconstruir o meu rosto, como um cirurgião plástico. Está tudo previsto. Quem vou ser hoje? Tenho orifícios por preencher, fragmentos de histórias excitantes por viver. As mil e uma faces do jogo devoram-me. Para te livrares de mim, basta fechares os olhos ou mudares de página. Para me livrar de ti, basta entrar no jogo. Mas ainda não ouvi a resposta. Está aí alguém, ou estás a jogar comigo? Não sabes que ouvimos de maneira diferente de olhos fechados? Aproveita e responde.

Texto editado na Egoísta em 2005

sábado, 21 de março de 2009

Tapetes de espanto

"O meu tapete de espanto num tear de nostalgia".

José Carlos Ary dos Santos, "Obra Poética"

Esta semana, estenderam um tapete de espantos no Jardim da Parada. Esse tapete não se vê (e por isso não se pisa) no chão, esconde-se antes dentro de duas indiscretas tendas brancas e tece-se com as vozes dos poetas e dos livros que as habitam. E porque não se vê, é fácil tropeçar nele e cair em tentação. Suprema tentação. As tendas que acolhem esta Feira da Poesia ondulam muito suavemente ao vento (desconfio que é só para acompanhar as árvores do jardim na sagração da Primavera) e abrem-nos a porta para a sombra da tristeza. Do lado de dentro, Alexandre O'Neill, Daniel Faria, vários Pessoa, Fiama Hasse Pais Brandão, Pablo Neruda, Adélia Prado, Carlos Oliveira, e.e. cummings, Florbela Espanca, Rainer Marie Rilke, Octavio Paz, poetas celtas e orientais, edições a 2 € e outras encadernadas, poetas desconhecidos e autores clássicos, textos bilingues e capas a duas cores, chamam por nós. E nós entramos, seja para sair com um saco verde na mão que oculta aquilo que nos tentou, seja para trazer um verso a bailar na cabeça, um verso que vale por um livro na mão. Um verso que ninguém poderia ver, mas que faz o coração bater mais depressa. Foi o que aconteceu com o tapete de espanto do Ary dos Santos, primeiras palavras que saltaram para os olhos quando abri a sua obra poética. Dois dias depois, veio para a rua no tal saco verde, a falar com o O'Neill e com um dos heterónimos do Pessoa, atentamente escutados por Luís Falcão. Mas antes, e sempre, enquanto passeio entre as mesas, sem preocupação em decorar a morada dos poetas, penso que esta experiência tem algo de comparável a uma curta visita a uma igreja, que por vezes gosto de fazer. Nas igrejas, quando olho para as paredes decoradas com luminosos vitrais que evocam momentos de esperança e quiçá de alegria e respiro a atmosfera e o cheiro a madeira e sofrimento que emana dos bancos, comovo-me com a consciência de que o espaço está decorado com infinitas camadas de pele para o qual seres humanos deslocaram todo o seu sentir. E é assim que me sinto, neste santuário improvisado da poesia, entrando dentro da vida, do coração, do desespero, da pele, da breve alegria, do sangue e, repito, da vida destes homens e mulheres que nos mostram, mesmo sem de nós saberem o nome ou a flor preferida e desconhecendo se algum dia o poderemos entender, o seu fazer da poesia num tear de nostalgia. A sombra da sua espantosa tristeza, à sombra das árvores centenárias do meu jardim.