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terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

The Hungry Eye # 35

O fotógrafo não gosta de ser fotografado. Talvez sinta que tem o seu olhar desprotegido, irremediavelmente nu, sem a máquina à frente dos olhos. Não consegue impedir-se de imaginar que o outro o olhará com uma lente impiedosa e argutamente ampliada, tal e qual como ele gosta de fazer (esquecendo-se que o seu olhar é ele próprio uma lente que nenhuma marca do mundo saberia produzir e comercializar em série). Fará tudo para ser fotografado com uma máquina fotográfica à frente do seu olhar, numa tentativa dupla de boicote: à descoberta da sua alma e ao trabalho do fotógrafo. Além de ser um excelente disfarce – a máquina fotográfica acaba por funcionar como uns obscuros óculos de sol e o fotógrafo gosta de permanecer na sombra, pois sabe que a luz é revelação - é uma pose que diz ao mundo: não gosto que os outros (me) façam o que faço. Em ambos os casos, é um cliché ditado por uma deformação profissional.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A luz da nudez

O escritor Michel Tournier conta uma bela história sobre fotografia. Um dia pediu a uma jovem para lhe fotografar o rosto e para sua (grande?) surpresa, a jovem despiu-se completamente. O corpo despido para o fotógrafo mas não revelado na fotografia transformou o seu rosto: a luz da nudez iluminava-o em segredo.
fotografia de Paolo Roversi

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

The Hungry Eye # 33

Muitas vezes, quando olhamos uma fotografia, esquecemo-nos de procurar onde se escondeu o fotógrafo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

The Hungry Eye # 32

O Photomaton é o confessionário do rosto.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Desejo do invisível

A nudez, por vezes literal, mas sempre metafórica, é o desejo do fotógrafo. O seu olhar quer arrancar todas as películas de roupa, tecido, pele, artifício e sentido sem a ajuda das mãos. Quer possuir o segredo particular do ser fotografado, revelado sob a forma universal da imagem. Mesmo quando simula uma paixão pela matéria, o fotógrafo tem o desejo do invisível.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

The Hungry Eye # 28

Há fotografias que nos fazem perguntas, sem contudo conseguirem tirar-nos as respostas. Quando é que inventam uma posição nos botões da máquina para fotografar almas, semelhante à que existe para os rostos e para as paisagens? A pele do ombro tem mais nudez do que a pele da mão? A camisola esconde um bolso onde guardar os olhos? A que distância mínima podemos estar de outro corpo sem o ver desfocado? O olhar banaliza a nudez? Quando abrir os olhos, já terás escolhido o fio de luz com que me queres tocar? Uma velha crença infantil invade-me: se tapar os olhos, não me vêem. E se não me vêem, como poderiam tirar-me uma fotografia ou dar-me uma pergunta? As mãos só acreditam no invisível de vez em quando.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Talvez ela esteja a dormir

Para entrar numa fotografia, temos de atravessar uma espessa camada de silêncio. Vários bombeiros seguram de forma delicada uma Madonna de mármore, como se ela fosse uma mulher de carne e osso. Retiraram-na dos escombros da sua morada (seria uma igreja de paredes frias aquecidas por promessas e trémulas chamas de vela ou um palácio de uma família nobre e decadente, há muito desabitado?). A terra que abanou zangada nunca conheceu o peso dos seus passos. O seu corpo irresponsável é uma pedra com vida emprestada e os seus lábios contêm um dicionário de palavras por proferir. A sua face pálida não abre os olhos à luz, como se esta magoasse. Não olha o caos da paisagem destroçada. Não vê os capacetes vermelhos cor de sangue. Não ouve as sirenes dos carros dos bombeiros, nem grita por ajuda. Podia ser um cadáver lívido, de uma fragilidade tocante, da cor da temperatura do medo. É uma deusa de mármore, bela e distante, que sobreviveu ao sismo como um milagre. As suas mãos de pedra não procuram consolo nas enormes mãos com luvas que a transportam com cuidado, não fossem despertar a sua humanidade adormecida. Parecem mãos desajeitadas, apesar dos gestos. Seguram a sua cabeça como se ela fosse habitada por pensamentos e quase tapam os seus olhos já cerrados. Amparam-lhe a nudez do peito de mármore onde não bate um coração que cora, como se desejassem tapá-la. Talvez ela esteja a dormir e não se queira lembrar da sua vida anterior. Talvez veja muito mais do que nós, porque permanece de olhos fechados. As estátuas estão habituadas a esperar. Uma fotografia revela, muitas vezes, a inutilidade das ansiosas palavras.

fotografia de Max Rossi

domingo, 6 de dezembro de 2009

The Hungry Eye # 26

A verdade nunca se deixa fotografar: ela ofusca o fotógrafo.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

The Hungry Eye # 25

Quando olhamos para a fotografia de alguém que já morreu (mesmo sabendo que todos os seres fotografados, sem excepção, pagam com a morte o preço da imortalidade nesse preciso instante em que o fotógrafo dispara, não a bala de uma arma, mas o botão de uma máquina de fotografar) é como se no momento da fotografia, às vezes tirada décadas antes, já estivessem mortos. Como se eles já estivessem mortos mesmo sem o saber. Como se nós já não os conseguíssemos imaginar vivos em nenhuma idade, depois de os sabermos mortos. Ver uma fotografia de um ser morto é como ler um livro detrás para a frente. A última página explica e justifica tudo o resto, sobrepondo-se a todas as outras em verdade. Apesar de, numa fotografia, sermos sempre a ficção de alguém.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Aproximação à vida

Chegou pelo correio este postal com ar de fotografia antiga. Vinha numa carta daquelas, raras, que ainda se abrem com os dedos, tocam com a pele e andam connosco no bolso. Tal como uma fotografia escrita a preto e branco. É uma imagem de 1963 (pelo que os seres que nela não envelheceram, a estarem vivos, terão à volta de 50 anos), tirada em Buenos Aires e chama-se “Aproximación a la vida”. Talvez devesse ser esse o nome de todas as fotografias. Nesta aproximação à vida e à janela, crianças e boneca confundem-se, até que o olhar foque a imagem. Nas crianças, os olhos curiosos querem tocar, as mãos pequenas e espalmadas desejam ver. A boneca tem os olhos demasiado abertos para ver e as mãos suficientemente fora de campo para tocar. “A curiosidade, como a luz, atravessa todas as janelas”, escreveu a mão, obedecendo ao olhar, no verso deste postal. Os fotógrafos não desaprendem o espanto. As crianças aprendem a desilusão. É difícil permanecer curioso na escuridão.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Fotografias por domesticar

Em todas as casas, em todas as vidas, há imagens que se encontram domesticadas. São fotografias em família, da infância e até de seres num tempo em que ainda não existiam na nossa vida. Podem estar geometricamente dispostas em molduras em cima do piano negro, encarquilhadas na parede rugosa da sala ou até guardadas num álbum, embora regra geral estejam sempre à vista e façam parte da paisagem doméstica. Por mais nitidez que conservem, foram desbotadas pelo tempo e retocadas pela memória. Mas isso nem sequer nos importa. Já as vimos tantas vezes que as saberíamos descrever de olhos fechado. Tal como as conseguimos ignorar de olhos abertos. Estão domesticadas pelo chicote do tempo e amaciadas pelo bálsamo do olhar. A função destas duas lentes? Protegerem-nos de acessos de ligeira melancolia ou profunda tristeza, ao contemplar estas vidas já desaparecidas. Mas se por acaso os olhos descobrem, em sincronia com as mãos, uma fotografia há muito não tocada (pode ser na página 67 de um livro de Nietzsche, nas arrumações das gavetas da escrivaninha de cerejeira ou numa pasta de enigmático nome no desktop do computador), é provável que essa visão rasgue o nosso coração. A memória adormecida tinge-se de sangue, ganha cheiro e começa a espreguiçar-se qual felino predador. Os seres fotografados saltam das imagens para a vida em câmara lenta, rompendo uma imobilidade ensaiada durante anos. E isso é quase tão chocante com ver um morto a atravessar a rua diante dos nossos olhos ou irmos contra ele ao virar da esquina. Logo nós, que até assistimos ao seu funeral e desde então choramos baixinho a sua ausência. As fotografias não deviam aparecer sem bater à porta. Será que não sabem como o tempo magoa os olhos que as mãos escondem?

domingo, 20 de setembro de 2009

The Hungry Eye # 23

A alma despe-se com luz, mas revela-se na câmara escura.

sábado, 22 de agosto de 2009

The Hungry Eye # 21

A interrogação cresce sobre a imagem como uma sombra que vence a luz.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O sino estava a tocar?

Há algumas semanas (há uma piscadela de olhos atrás, comparada com a idade da imagem), um desconhecido ofereceu-me esta fotografia. Foi mesmo no coração do jardim do bairro. Segundo contou, tinha acabado de a encontrar umas ruas atrás, junto ao caixote do lixo da reciclagem, e apesar de nunca termos falado antes, pensou que ela me interessaria. Não se enganou. Agarrei nela com todo o cuidado que merecem as memórias que não conhecemos e coloquei-a numa estante, para a qual olho muito de vez em quando, em busca de uma resposta: aquilo que se vê melhor quando deixamos de olhar. A fotografia mostra um casal acabado de casar nos longínquos anos 50 e está assinada a branco no canto inferior direito por A. Miranda. O verso completa a informação: tratava-se de um estúdio de reportagens fotográficas e do cliché nº 638. Se a morte ainda não os tiver separado (duvido, e acho que é por este casamento já estar morto que veio parar, esvoaçante, a um ponto de reciclagem para renascer, quem sabe, em jornal desportivo ou folha de papel de um escritório de advogados que trata de um processo de divórcio), já terão festejado as bodas de ouro. Ele segura as luvas brancas na mão esquerda, simétrico do bouquet de flores brancas na mão direita dela. O chapéu preto junto às luvas brancas lembra o de um mágico. Um lenço espreita por cima do coração e do seu mapa impossível de dobrar no bolso. O vermelho das estradas e artérias depressa tingiria o branco do lenço que apagou uma lágrima de felicidade transparente dela. O longo véu da noiva já mulher tapa os pés do noivo agora marido e esconde também parte do tapete que indica o caminho, feito de passos de adeus. Uma calma suspensa, semelhante àquela que se sente antes de uma tragédia, invade a imagem. Devia ser domingo. Devia ser Verão. Deviam ser os anos 50. Deviam ser felizes. As fotografias são janelas abertas sobre a vida dos outros. Há sempre uma cortina esvoaçante que acompanha o movimento dialéctico da desocultação. Aqui, há também a cortina da entrada na igreja, que faz de pano de fundo. Uma cabeça esbatida espreita curiosa e tímida, talvez para descobrir o segredo de um casamento feliz, de costas. Este casal é um segredo visual com zonas de sombra, mesmo para eles próprios. A proximidade dá a ilusão do conhecimento, mas aumenta o efeito de desfocagem. Será que alguma vez se conheceram? Uma sensação não se pode dividir em dois, como uma maçã. Nem uma dor, ou um prazer se podem trocar ou tocar, de tão fechados sobre si próprios que são. Que somos. As palavras também não se podem dividir. Conversar é tomar conta do tempo e o casamento é um longo diálogo. Quando o espanto desaparece, os adjectivos tornam-se cansados, gastos. Em que data se terão sumido os adjectivos? No dia em que acreditaram que o casamento é um amor obrigatório? Gostariam de se ter conhecido mais cedo? Terão alguma vez, depois deste dia, sentido que o domingo não é um dia triste? E o sino, estaria a tocar para fazer de banda sonora do presente? São tantas as perguntas que estes dois seres, imóveis numa felicidade antecipada, me pedem para fazer. Mas como poderiam eles explicar o passado, que aqui ainda era futuro, a quem não pertence aqui? Alguém os esqueceu completamente. O silêncio nunca se pode devolver. Resta-nos perguntar-lhe se pode aumentar o volume.

domingo, 19 de julho de 2009

The Hungry Eye # 20

As fotografias são o contrário do telefone. Este só tem voz, as fotografias só têm imagem. Por terem ambos sentidos incompletos, puxam pela imaginação. Porque se o telefone é cego, a fotografia é muda. Ao telefone, com a voz longínqua nasce a imagem próxima. Uma imagem sempre desfocada, por mais descrições que o interlocutor faça. Estou num quarto às escuras. Estou deitado de olhos fechados. Estou a beber chá verde. Estou a usar aquele vestido preto de que gostas. Tenho duas gatas ao colo. Fui à praia e estou ligeiramente bronzeada. Estou a ver televisão sem som. Estou a ver-me ao espelho. Agora bocejei e há pouco, fiz-te uma careta. Ainda bem que o telefone não tem imagem. Ao telefone, somos todos fotógrafos cegos. Dependemos das indicações do outro para nos aventurarmos no caminho da imagem, sem tropeçarmos em corpos falsos ou seres fantasmagóricos. Cuidado, não tropeces nos livros que tenho no chão. Como vês, também gosto de falar ao telefone às escuras. Sinto-me um fotógrafo no quarto escuro das revelações. Com as fotografias, passa-se o oposto. É certo que havia sons e vozes, música talvez, quando a fotografia foi tirada. Mas na revelação, vieram silêncios. Com a imagem na ponta dos dedos, escuta-se a voz de papel e encosta-se suavemente o ouvido, depois da boca ter pedido com bons modos: contas-me o teu segredo? Em que estavas a pensar? Que gesto tinhas feito imediatamente antes deste? Quem te tirou e deu esta fotografia? O que te disse o fotógrafo, para te rires desta maneira? Estava vento, nessa tarde? Havia pássaros por perto? Se pudesses falar, o que terias dito? Sabes que não te conhecia esta expressão?  Mesmo suspeitando que, além de muda, ela tambem é surda, como gostaríamos de falar ao telefone com uma fotografia. 

sexta-feira, 17 de julho de 2009

The Hungry Eye # 19

Os olhos guardam o mistério silencioso de uma conversa. O que calas tu? não pergunta o fotógrafo em voz alta ao ser fotografado.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

The Hungry Eye # 18

Confesso que tenho alergia aos álbuns de fotografias. Neles, as fotografias aparecem domesticadas. Já conhecemos a sua ordem de entrada em cena. Parece que dão uma lógica de tempo e espaço à nossa vida que ela talvez não tenha. São imagens organizadas que sublinham, como um daqueles marcadores fluorescentes, os momentos mais marcantes de uma vida. Mas porquê aqueles? E porquê por esta ordem? Prefiro guardar as fotografias em várias caixas de ténis Adidas, Puma e Gola. Agrada-me as fotografias estarem caoticamente organizadas, sem idades ou temas, tal como a nossa memória. Umas viradas para cima, outras para baixo (possibilitando a leitura de eventuais datas, legendas e palavras desbotadas a azul), de vários tamanhos e tipos de papel de revelação, impedindo as mãos de as segurarem todas ao mesmo tempo com firmeza. Escorregadias, como a nossa memória, são fragmentos de um puzzle incompleto em que cada uma vem tirar importância às outras. Vistas de repente e surgidas nem se sabe de onde (estiveram sempre ali, mesmo debaixo dos nossos olhos), põem o coração a bater mais depressa. São mil vozes que me chamam ao mesmo tempo, pedindo-me para estar embaraçada numa festa, de férias em Paris, pensativa numa secretária de trabalho, feliz com gatos, distraída a ler, gorda, magra, adolescente e só muito depois bebé, em pose dentro de casa, com o penteado fora de moda, despenteada, bronzeada, a comer maçãs, a recusar um sorriso à eternidade, a não conseguir disfarçar um medo, bem acompanhada ou muito só, com pessoas que nunca mais verei ou em sítios onde já nem me lembrava de ter estado, a suspender um pensamento como quem prende a respiração, a não pestanejar um sentimento, a saber que aquela imagem prestes a nascer estava condenada a viver num álbum de fotografias, se não houvesse as tais caixas de cartão azuis, pretas ou amarelas onde os ténis com que caminho são substituídos por imagens que lembram postais e tentam explicar, de forma quase balbuciante, de onde vim. Como se guardassem rolos por revelar. A memória ainda consegue surpreender e o passado pode ser reinventado. O futuro, esse que espere, na caixa de cartão de uns ténis ainda por comprar.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

The Hungry Eye # 17

Quando seguramos uma fotografia nas mãos, quantas vezes não desejamos, mesmo apenas por um breve fotograma, que os seres fotografados saltem da sua pose de estátuas para a vida, ressuscitando numa imagem de carne e osso? Mas parecendo que adivinham o que iria acontecer, esses seres não se mexem um milímetro sequer no rectângulo da fotografia. Sabem que, do lado de cá, não encontrariam com quem falar. Também nós já não somos a pessoa que éramos no dia em que aquela imagem ganhou vida, para que o real desaparecesse ali, mesmo diante dos olhos do mundo. Somos outras fotografias animadas que, deste lado do papel, se agitam com gestos imperfeitos, não compreensíveis para as estátuas. Podemos fazer todos os gestos do mundo, excepto tirar os seres fotografados de lá, do sítio onde ficaram para sempre, depois de partirem para outro lugar. Mesmo depois de partir, nunca te deixo - dizem, sem mexer os lábios, enquanto repetem um gesto imóvel até ao cansaço.

terça-feira, 14 de julho de 2009

The Hungry Eye # 16

No outro dia, recebi uma grande lição de uma amiga fotógrafa. É certo que os fotógrafos não são, regra geral, muito faladores sobre o seu ofício e preferem estar a focar o objecto do que a distrair um sujeito com surpreendentes revelações sobre a arte de congelar imagens ou capturar instantes. Gostam de fazer perguntas com os olhos e disparar com os dedos. Preferem a acção à teoria, como se soubessem o que fazem por instinto. No entanto, desconfio que os fotógrafos sabem quase tanto sobre o tempo como um mestre relojoeiro. Pois é precisamente com esta matéria que trabalham: o tempo Conhecem o andar dos ponteiros das horas e dos minutos no rosto. Traduzem os segundos em imagens, dizendo ao tempo que ainda não desistiram de o tentar parar. Sabem que a alma também precisa que lhe dêem corda. Dão valor ao tempo. E foi essa a lição que me deram a mim. A minha amiga fotógrafa tinha-me tirado uma fotografia descontraída, no meio de uma sessão de trabalho. Uns dias depois, ofereceu-ma e não consegui disfarçar. Não gostava daquela fotografia. Acrescentei que a culpa certamente não seria dela, devia ser do modelo (permanecerá para sempre um mistério saber quantos por cento têm o fotografo e o ser fotografado de responsabilidade e mérito nas fotografias de que se gosta). Ela ficou quase ofendida, mas disparou logo, não com a máquina, mas com a voz de fotógrafa: daqui a 5 anos, vais gostar imenso dela. Resolvi não esperar tanto tempo. Comecei a a gostar dela nesse preciso momento. Não há nada como dar tempo ao olhar.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

The Hungry Eye # 15

A vida é uma interminável colecção de fotografias. Não daquelas que estão espalmadas nos álbuns das mães, presas à agenda de bolso dos pais ou que trazemos coladas na memória, algumas delas já com cantos dobrados e tons desbotados. São fotografias com corpo e relevo bidimensional, um eterno presente que acompanha a vertiginosa experiência de correr em direcção ao infinito. Somos imagens com seres lá dentro, que sobem as escadas do tempo, dobram as esquinas da vida e rasgam a pele porque o coração às vezes doi. O caminho para a escola tem uma seta invisível onde não se pode ler “vida” e os livros na mochila tornam-se cada vez mais pesados. Ou serão os medos? Perde-se uma bicicleta, depois de se ter perdido um triciclo e um berço, para se ganhar uma mota. O amor é um acidente do destino à boleia na estrada e a experiência, definitivamente, não serve à ciência. A vida tem altos e baixos: voa nos céus, mergulha nos oceanos, escava-se na areia, constrói-se no papel. Só há tempo para tudo ser único e somos sempre mais e menos do que parecemos. Cada fotografia é a primeira: congela o momento inaugural. Um divino olho cósmico (talvez Deus seja uma máquina fotográfica omnipresente e omnisciente) revela tudo o que nasce. É preciso perder a memória para continuar a viver.  A história de cada nome acontece dentro da moldura da vida. Tanto melhor, se houver uma Olympus Pen por perto, para a escrever. Quantas fotografias conta a tua vida? E se tivesses de escolher uma, qual seria?