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sábado, 24 de abril de 2010

O melhor esconderijo

Tirando os sonhos de uma menina, o melhor esconderijo para o Cheshire Cat continua a ser a sua cabeça louramente sonhadora.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

O espelho

O sonho secreto do espelho era ser uma porta. Assim, podia mostrar tudo o que acontece do outro lado.

terça-feira, 30 de março de 2010

As lágrimas

As personagens literárias estão expressamente proibidas de chorar. Já imaginaram o que era, as palavras começarem a desbotar, a escorrer tinta para a linha de baixo e a desaparecerem no fundo da página, transformadas num ténue fio de tinta de cor variável, diluindo o seu sentido em forma de lágrima na palma da mão do leitor? Talvez seja essa a grande diferença entre leitores e personagens literários: uns choram, outros não.

Chat ou chá?

Não lhe basta fazer perguntas indiscretas e desaparecer, sem um gesto cerimonioso. O gato de Cheshire também gosta de aparecer discretamente no centro de uma festa, enroscado em forma de bule de chá. Por isso, já sabem: sempre que vos servirem chá num bule cor de laranja, não se admirem se dele escapar uma daquelas perguntas que deixaria mesmo um mestre zen sem resposta, por mais chávenas de chá que esvaziasse.

Os gémeos

Não é quando se assemelham que os gémeos confundem o mundo. É quando se distinguem, quer seja em pequenos pormenores, como em grandes contradições. Os gémeos confundem-nos quando fazem afirmações contrárias, apontando o seu discurso em direcções opostas. É demasiado fácil reconhecer as evidentes semelhanças. Difícil, é decidir a validade das obscuras diferenças. Ou seja, em qual dos gémeos acreditar?

sábado, 6 de março de 2010

Cinema Maravilha

Acto mágico de fabricar pedaços de imagens e juntá-las. Os primeiros passos do cinema não são muito diferentes dos primeiros passos de uma criança que aprende a andar e a descobrir o mundo e o seu lugar nele. Primeiros passos feitos de saltos, cortes, pequenas quedas, joelhos esfolados, a decisão de rir do susto de cair em vez de chorar, o espanto de quase existir. A celebração da imagem diante dos nossos olhos. A negação da cegueira. O festim do sonho. Imagens com vida própria, projectadas na parede como um sonho a preto e branco (ninguém pode garantir se sonhamos a cores ou a preto e branco, ou de ambas as formas). Uma criança com mais de 120 anos finge ser a primeira Alice do cinema. Um gato verdadeiro, gordo e aristocrático, aparece em cima da árvore sem ter frequentado aulas de rir, talvez ruivo, felinamente alheio à história, numa árvore quase ao alcance das mãos curiosas de Alice. Efeitos sonoros exteriores ao próprio filme, que os personagens não conseguem ouvir - o cinema mudo é sempre surdo. Um desfile de espectros, seres que pela matemática do calendário estão todos mortos, embora se continuem a mexer. Palavras que se não se fixam, como se hesitassem acerca do seu lugar, nem se ouvem, porque não têm voz. Um homem-coelho mais homem do que coelho, Alice cada vez mais Alice, a crescer, Alice a encolher sem perder letras no seu nome, palavras mais firmes, um cenário teatral, o cinema ainda disfarçado de teatro, preso ao sonho do palco, imagens incompletas tapadas por uma cortina volátil, o dramatismo a preto e branco das teclas do piano. O cinema ainda perto da fotografia, o cinema como fotogramas animados, coreografias de papel perseguidas por labaredas de luz a comer pedaços da imagem. Imagens que lembram folhas amachucadas que se desembrulham e alisam, sem nunca perderem os vincos, fantasmas no jardim que se alimentam da imaginação, a festa do chá com imagens desbotadas, como se o Chapeleiro Louco tivesse entornado chá em cima da película. Um interminável desfile de crianças-cartas (o que terão elas achado de tudo isto, as crianças de carne e osso?), uma legião de corações, seres com 3, 5, 8, 9 ou mesmo 10 corações, crianças de copas vermelhas a preto e branco para servir uma jovem rainha irada, o despertar de Alice no momento em que acredita que tudo não passou de um sonho. A inevitável solidão dos sonhos, condenados a apenas um sentido, a visão, incapazes de ser ouvidos (mesmo quando descrevemos um sonho a outra pessoa, ela nunca o conseguirá ver), tocados, saboreados ou inspirados em busca de um cheiro, na verdade condenados à falta de sentido. As limitações da tecnologia, que só existem no olhar do tempo. Nos primeiros anos do século XX, este filme de pouco mais de 9 minutos era talvez uma longa-metragem e o equivalente ao nosso 3 D de agora, em que até precisamos de uns óculos (ou serão olhos?) suplementares para o ver melhor. Esquecidos de que um sonho só se torna real quando é sonhado.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Palavras começadas por chá

Sem consultar o dicionário. Com ou sem acento. Algumas a pedir assento. Obedecendo a esta lógica: a palavra apanhada traz outra pela mão, segurando-a como se segura uma chávena de. Chá. Champagne. Champignon. Chapéu(de chuva?). Chaleira. Chaminé. Chama. Chávena. Chave. Chão. Cha-cha-cha. Charuto. Chauvinismo. Chatice. Chapada. Chakras. Chamuças. Charcutaria. Chantilly. Chanfrado. Chapeleiro.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Jogar às cartas


Todos os carteiros deviam jogar às cartas. Não com as cartas de jogar, sempre enfadonhamente iguais (não obstante elas se acharem absolutamente diferentes) e sem vida interior, mas com as cartas que transportam todos os dias consigo, levando palavras a chocalhar e por vezes até um coração a bater com cuidado, para não ganhar muito volume (fora todos os números das cartas dos bancos, da EDP, da Optimus, das finanças, da Epal e do Círculo de Leitores), de um lado para o outro. Teriam de ler e tomar nota de todas as cartas pessoais (aquelas que não tinham números) que entregavam, para quem eram e de quem vinham. Caso essa carta estivesse mais de um mês sem receber resposta, eles próprios a escreveriam, não se sabe bem com que consequências. Podia acontecer que a carta que escrevessem ficasse também ela sem resposta e então, um mês depois, estariam a escrever para si próprios, fingindo não o saber.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A claustrofobia

Há quem tenha claustrofobia retrospectiva só de se imaginar de novo encerrado, antes de nascer, dentro da barriga da mãe. Há quem tenha claustrofobia prospectiva e se aflija com a ideia de ficar fechado debaixo da terra, depois de morto. Há quem tenha claustrofobia existencial e se sinta encerrado na sua vida. Há quem tenha claustrofobia selectiva e ande de metro, mas não de avião. Ou de elevador, mas não de metro. Há quem tenha claustrofobia linguística e só ande no elevador da Glória se lhe disserem que é um eléctrico. A minha claustrofobia é literária. Estou fechada nesta ficção sem porta. O tecto desce com o peso dos meus pensamentos. As paredes de papel aproximam-se. As palavras negras sonham em juntar-se. O espaço em branco entre cada palavra comprime o meu corpo e apenas me deixa com fôlego até à palavra seguinte. Ser a protagonista de uma história lida por milhões de pessoas leva-me para todo o tipo de sítios fechados: elevadores, quartos de criança, mochilas de escola, estantes com vidros, gavetas, aviões, pesadelos, malas, comboios e até para a escuridão de uma sala de cinema. Podem dizer-me como saio daqui? Não se deixem enganar pelas janelas. São falsas, como quase tudo nesta história.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O carteiro dos mortos

Neste blogue de tendências mórbidas, a autora escreve cartas quase telegráficas e em fundo negro a pessoas mortas e cujos nomes foram sugeridos pelos leitores, as queridas pessoas vivas. Kurt Cobain, Sylvia Plath, Sócrates, Albert Camus, Lewis Carroll, Galileu, Van Gogh, Jack Kerouac e Dostoiévski, este último com erro ortográfico, são alguns destinatários destas cartas sem envelope, morada ou selo. Qual será o código postal do país dos mortos?

http://letterstodeadpeople.tumblr.com/

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os saltos altos

Os saltos altos têm uma lógica só deles. O meu rosto chega a outro andar do espelho e o homem que me inventou parece pequeno ao pé de mim. A maior magia dos saltos altos é afastarem a monotonia da vida. O seu grande paradoxo é darem poder mas tirarem mobilidade. Não se pode fugir de nada nem de ninguém em saltos altos. Nem mesmo de uma aventura. E como se isso não bastasse, no país das maravilhas os saltos altos também funcionam no sentido horizontal e são saltos compridos. Só pode ser por isso que, mesmo deitada, não caibo na casa.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A auto-ficção

Quem és tu? - pergunta a Lagarta, embora convide o corpo a encostar-se no silêncio em forma de cogumelo, enquanto desenha palavras de fumo. Tal como apenas nos conseguimos ver mediatizados no espelho, em fotografias, através do outro, também só nos conseguimos descrever como ficção. Pensamos em nós próprios como se fossemos outros: acariciamo-nos na pele de papel das fotografias, avistamo-nos no fantasma do espelho, vestimos o nosso corpo com palavras. Saímos para fora de nós. Precisamos de acreditar que somos uma ficção, como se a nossa vida não chegasse ou não coubéssemos nela. Temos uma história que contamos a nós próprios, simultaneamente narradores e ouvintes. Alguém me pode dizer quem sou eu?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O silêncio

Silêncio. Assim não consigo ouvir o meu pensamento. E pensar é falar com o volume do som no zero. Embora por vezes me admire com o facto de ninguém conseguir ouvir os pensamentos que ribombam como tambores na minha cabeça, tanta é a nitidez com que os oiço. Quantos decibéis tem a batida de um tambor? O toque de um sino? O zumbido de uma abelha? Um segredo encostado ao ouvido? Um estalido sobressaltado no soalho de madeira? O borbulhar de uma lata de Coca-Cola acabada de abrir? Uma história zen contada num mosteiro? O avião que acabou de fazer estremecer o prédio lá do alto da noite? Sei que há uma tabela para todos estes sons com um, dois ou três dígitos. Mas quantos decibéis tem um pensamento? E quantos decibéis tem o silêncio? Não me digam que o silêncio espada que corta, reluzente, o ar tem o mesmo som do silêncio algodão que afaga, como uma carícia escorregadia, a pele. Ou que o silêncio intervalo luminoso entre as palavras de um poema é igual ao silêncio fantasma dos ruídos familiares. O silêncio não é a transparência sonora, é antes um ser habitado por sombras falantes, mais ou menos opacas. Alguém pode inventar uma máquina para pesar silêncios? Ou, pelo menos, um dicionário silêncio - palavras?

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os anagramas

Os anagramas são palavras vistas num espelho distorcido. Do outro lado, as letras mudam de ordem e fazem novas combinações, explorando as suas possibilidades físicas. Um pouco como um rosto em que os olhos estão no lugar das orelhas, ou a boca faz de nariz, a testa ocupa quem sabe o espaço do queixo ou as sobrancelhas surgem debaixo dos olhos. O centro de gravidade da imagem desloca-se. No entanto, a distorção e o rearranjo dos elementos não impedem a percepção de formas com significado. Ao espelho, espaço de encontros fortuitos ou acasos concretos, estas composições que lembram gestos surrealistas continuam a ser um rosto. Tal como na boca, as palavras continuam a fazer sentido. Tenho 5 peças desmontáveis na mão. A-L-I-C-E. As letras dissecam o sentido da sua anatomia. Embora não faça qualquer sentido chamar-me Célia ou Ecila, não acham?

sábado, 5 de setembro de 2009

A subtileza

No país da realidade, há quem confunda uma subtileza com um erro. Tal e qual como se confundem dois gémeos. E como se isso não bastasse, há quem confunda um erro com uma subtileza, como se eles fossem irmãos.

O sangue

O sangue parece sempre doce, quando comparado com as lágrimas.

sábado, 25 de julho de 2009

Os gémeos

Os gémeos (atenção, estamos a falar de corpos gémeos, porque isso das almas gémeas, a ser verdade, é uma outra história) provocam um fascínio legítimo, mas também esta desconfiança que resulta de um excesso de familiaridade: vermos duas imagens iguais à nossa frente. Tweedledum e Tweedledee. Ou antes, Tweedledee e Tweedledum. Exactamente iguais, com duas letras de diferença. Estaremos a ver bem ou a dobrar? A própria palavra gémeos só existe no plural. Somos muitos. Somos dois pedaços de humanidade iguais. Somos o símbolo da dualidade e damos corpo à ambivalência. Dois corações que batem por detrás de uma mesma imagem. Na encruzilhada do discurso, a mesma voz confunde-se como um eco fatal. O dualismo é apenas uma aparência, uma manifestação da essência. Esquecido o medo primitivo de encontrar o duplo do outro lado da realidade, há uma contradição por resolver: o risco de ser igual a alguém. Os gémeos são impostores socialmente aceites, sósias oficiais, duplos que não atemorizam. Mesmo separados, os seus gestos correspondem-se, as suas vozes falam em coro, os seus corpos imitam-se um ao outro. Qual será o original? O mistério do duplo revela-se no silêncio dos espelhos, na encruzilhada do caminho. Apetece colocar uma pequena marca algures, para os distinguir, mesmo que essa verdade se inscreva num erro primeiro. Quantas vezes ao longo da vida as mães não os trocam e voltam a trocar, desde o olhar inicial? Talvez aquele nunca seja quem nós pensamos. Uma brincadeira irresistível para os gémeos é trocarem constantemente de identidade até descobrirmos um pequeno pormenor que os traia. Hoje vou fingir que sou tu. Precisam que o mundo lhes diga as suas diferenças e não as suas semelhanças. É disso que a sua identidade se alimenta, da revelação das suas assimetrias. Quando não o dizem em voz alta, pedem baixinho: descobre as diferenças. Os únicos que não se deixam confundir são eles próprios. Sabem bem quem são, por muito que se vejam ao espelho um no outro ou que o mundo os troque um pelo outro. Serão os gémeos um único singular multiplicado por dois ou um par original dividido à nascença? Talvez ter corpos gémeos não seja uma profecia de morte, mas um sinal de vida. Basta saber escolher o caminho. No fundo do jardim, na Floresta do Esquecimento, abre-se o portão da consciência. Também nós somos gémeos de um ser que a vida não arrancou ao esquecimento diante dos nossos olhos. Onde andará o nosso duplo?

sexta-feira, 24 de julho de 2009

O coração

A Rainha não sabe, mas o coração não é só de copas: também é de espadas, ouros e paus. A Rainha de Copas não acredita, mas o coração não é de papel que se rasga, antes de pele que se tinge, de carne que se magoa, de artérias que se cruzam num caminho certamente vermelho. A Rainha de Copas nem sequer imagina o tamanho do coração. Um punho fechado com cerca de 270 gramas de tridimensionalidade. Nunca experimentou desmontá-lo como se desmonta um relógio (o coração mecânico que imita o humano, como todas as máquinas imitam sempre a natureza), nem sentiu as cicatrizes que nenhum cardiologista consegue ver, a fecharem devagar. Jamais vai compreender o dilema do coração: ser uma casa que não gosta de permanecer desabitada e por isso procura de forma generosamente interesseira a simétrica metade, ou viver assombrado pelo fantasma do amor dos romances felizes, idealmente felizes. A Rainha de Copas não faz ideia de quantas pessoas cabem num coração humano; ela apenas sabe quantas cartas cabem no seu naipe. Desconhece a importância daquilo que cerca o coração e como é diferente ser um bosque medieval, um país das maravilhas, um novelo desenrolado de arame farpado ou uma mesa de jogo forrada de feltro verde. Nunca pensou: o coração é um símbolo musculado. Nunca sentiu: o coração é um órgão sentimental. Nem sequer se lembrou de perguntar: por que motivo o coração não tem a forma de um coração? Quando se emociona (e isso acontece a toda a hora), o seu coração sobe à boca e recorta os lábios de papel cor de carmim. A Rainha de Copas desconhece o direito do coração ao erro. Pensa mandar em todos os corações, embora acredite ser a dona do único coração do mundo. Alguém pode fazer-lhe esta pergunta, mesmo sabendo da sua incapacidade de lhe responder? Por que motivo o amor não tem graus, como os homicídios? E por que não tem degraus e andares, como uma casa? Um amor em segundo grau deve ser diferente de um amor sotão, não acham? Tal como um amor cave não deve confundir-se com um amor involuntário, como se o coração tivesse vontade própria, pois não?

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O chá

O vinho é verdadeiro, a cerveja é barulhenta, o café é individualista, a Coca Cola é nervosa. O chá? É cerimonioso. Parece sempre chique, mesmo quando não o é. Faz sempre companhia, mesmo que se beba longe do mundo. Convoca roupas de festa, até na nudez que não se pode despir. Pertence à categoria dos luxos quotidianos como um parêntesis líquido entre a mão e o pensamento. Todo o seu vocabulário tem poesia: flores de lótus e de cerejeira, chávenas de porcelana e rituais, imperadores e pérolas, dragões e budas, quimonos e samurais, gueixas e lendas, limão e menta, pétalas e sombras ao luar. A chávena começa com a palavra chá, que se desenha na circunferência escaldante de fronteiras redondas, como se fosse a casa onde se regressa sempre. A palavra chapéu e a palavra chalado, também. Basta tirar o acento ao “a” e o assento ao Chapeleiro Louco. Que horas são? Todas as horas são boas para beber chá. O Chapeleiro Louco bebe chá às 6 da tarde, atrasando uma hora imóvel em relação à etiqueta, enquanto rega a mente com lúcida embriaguez (já repararam como bules e regadores se assemelham?). Foi nessa hora que o seu relógio com ponteiros de dias e meses parou para sempre. Não fala sobre o tempo, trata-o como uma pessoa e convida-o para uma chávena de chá. Fala com ele sobre o outro tempo, o tempo que se manifesta no espaço. Explica que o nevoeiro de Londres resulta do vapor das chávenas de chá que se acumulam na atmosfera ao cair da tarde. Ou revela que um chá quente no deserto tira a sede como nenhum oásis verdadeiro ou qualquer sombra protectora o saberiam fazer. O chapéu é a sua coroa de bebedor de chá. Do chá que bebe sem parar, para descobrir que nenhuma chávena acalma a sua sede de absoluto. Ou será de absurdo?

terça-feira, 21 de julho de 2009

As palavras

As palavras são pequenos pontos de luz. Rainhas brancas que jogam ao sentido com o interlocutor. Berlindes disfarçados de pérolas que se agarram ao pescoço como minúsculos olhos de vidro. Pequenos corpos assombrados por vidas passadas que embrulham o silêncio. A realidade vive atrás das palavras, que nasceram noutro lugar. A repetição insistente de uma palavra familiar torna-a um corpo rugoso e pontiagudo, rasgando a sua fina película de sentido. Quando partem o fio do discurso, as palavras perdem-se entre os dedos e fragmentam-se ao tocar no chão. É por causa das palavras que as mãos sofrem de uma melancolia crónica. Acreditam ser elas que as inventam e desfazem, esquecidas de que o silêncio nunca é igual e vai mudando por causa das palavras. As palavras abraçam o silêncio até ao delicado ponto em que o poderiam estrangular. Elas sabem que apenas dizem o indizível.