sábado, 18 de fevereiro de 2012

Humanos por exclusão



Parece que escrevendo (repetindo) algumas palavras ou letras sem qualquer significado e estranhamente distorcidas, que precisamente uma máquina chamada computador escreveu, conseguimos provar, por exemplo no registo para abrir uma conta no gmail ou nas caixas de comentários de alguns blogues, que não somos robots mascarados de humanos. Até parece uma brincadeira, ser preciso tão pouco para provar a nossa cada vez mais duvidosa humanidade.

Incompleta nudez

Gostava de saber se ele ainda é vivo, o homem de idade incerta, mas ainda jovem, que no Maio de 68 caminhou nu, completamente nu, com uma nudez sem culpa e o corpo ligeiramente bronzeado, em direcção à Bastilha. Ignorou quem o olhava, ignorou os vestígios do gás lacrimogéneo, ignorou as barricadas. Despojado de referências, despido de signos, sem nome ou bilhete de identidade, entrou sem qualquer resistência para o carro da polícia. Mas a neutralidade da sua nudez não foi suficiente. Conseguiram descobrir que tinha incendiado a sua casa, apagado todos os vestígios do seu passado e a sua nova morada era o silêncio. Mesmo assim, conseguiram vesti-lo com um pouco do seu passado. Talvez a verdadeira nudez só seja possível na invisibilidade.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Arqueologia invisível


Reencontro, aqui e ali, pessoas do meu passado (como se este fosse um lugar) que me atribuem frases ou gestos de que não me recordo, embora acredite ter sido a sua autora. Vencido um certo desconforto - parece que estamos a falar de uma terceira pessoa, ausente - sobra uma sensação de quase culpa por não ter guardado essas memórias devidamente, a que se junta a súbita consciênca de que a memória não nos pertence. O nosso passado assemelha-se a uma civilização perdida, da qual se encontram espalhados pelo mundo vestígios, não arqueológicos, mas mnemónicos, que nos transformam para sempre em seres incompletos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Folie à deux


Apesar de ser um conceito da psicologia clínica e da psicanálise e dizer respeito a sintomas psicóticos como a perda de contacto com a realidade, a estados de delírio e à incapacidade de reconhecer comportamentos estranhos ou bizarros, folie à deux parece ser uma excelente definição para o estado de paixão amorosa. Dois seres ligados por uma alienação mútua, uma loucura a dois num mundo fora do mundo.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Uma falsa barba branca


Não me lembro ao certo quando foi. Houve um dia em que vi a verdade (em caixa alta) morrer diante dos meus olhos. Senti-me como as crianças que descobrem que o Pai Natal, afinal, não existe porque, apesar de ter roupas e corpo, não passa de um familiar disfarçado (e que foi traído pelos sapatos, pelo relógio ou pela falsa barba branca). Pensava que a descoberta da não existência do Pai Natal era o fim de uma ilusão e que a morte da verdade era o fim da verdade. Enganei-me: era apenas o fim de outra ilusão. 

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Omelete melancólica


Até o mais poderoso homem pode estar prisioneiro da sua memória. Como o rei melancólico de que fala Walter Benjamin nas suas Imagens do Pensamento, que exige ao seu melhor cozinheiro a reprodução de uma omelete de amoras feita por uma velhinha (seria feiticeira?) e comida na sua infância na companhia do seu pai, quando se refugiaram e perderam numa floresta escura. Se o cozinheiro fracassasse, seria condenado à morte, se fosse bem sucedido, ficaria com o seu trono. Apesar de conhecer todos os ingredientes e modo de preparação da receita da omelete de amoras, o cozinheiro reconhece que nunca poderia igualá-la. Faltar-lhe-ia o sabor do perigo e daquele presente incomum, que antevia um futuro incerto. O segredo da omelete de amoras era ser um objecto (perdido) na floresta do desejo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Uma espécie de vitória


Pensamos sempre na morte como uma derrota, mas também é verdade que a morte dá poder a quem perde a vida: uma espécie de vitória (amarga) sobre a derrota.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Movimento imóvel


Mesmo os seres que não andam por si próprios, como cadeiras, mesas (curiosamente chamam-lhes móveis) ou até bonecas, precisam das suas pernas para permanecerem no mesmo lugar e coreografarem movimentos imóveis. As pernas podem ser apenas a possibilidade do repouso.