quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

The Hungry Eye # 37

A história, ouvi-a numa aula de jornalismo no liceu. Embora na altura estivesse certa de que era contada por Roland Barthes na sua Câmara Clara, o tempo foi-se encarregando de empalidecer essa verdade, tal e qual como acontece nas fotografias em papel (empalidecerão elas por terem olhos que desconhecemos e nos observam, invisíveis, e deste modo se assustam com o nosso olhar?). Hoje, essa história parece mais uma quase anedota, contada antes ou depois de uma referência à obra de Barthes, sobre o poder da fotografia. Uma mãe passeia um carrinho de bebé na rua e recebe rasgados elogios de outra mulher à beleza do seu filho, ao que responde: E ainda não viu a fotografia dele.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

The Hungry Eye # 35

O fotógrafo não gosta de ser fotografado. Talvez sinta que tem o seu olhar desprotegido, irremediavelmente nu, sem a máquina à frente dos olhos. Não consegue impedir-se de imaginar que o outro o olhará com uma lente impiedosa e argutamente ampliada, tal e qual como ele gosta de fazer (esquecendo-se que o seu olhar é ele próprio uma lente que nenhuma marca do mundo saberia produzir e comercializar em série). Fará tudo para ser fotografado com uma máquina fotográfica à frente do seu olhar, numa tentativa dupla de boicote: à descoberta da sua alma e ao trabalho do fotógrafo. Além de ser um excelente disfarce – a máquina fotográfica acaba por funcionar como uns obscuros óculos de sol e o fotógrafo gosta de permanecer na sombra, pois sabe que a luz é revelação - é uma pose que diz ao mundo: não gosto que os outros (me) façam o que faço. Em ambos os casos, é um cliché ditado por uma deformação profissional.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Skullbook

Se os vivos têm o Facebook, como se chamará a rede social dos mortos?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

A luz da nudez

O escritor Michel Tournier conta uma bela história sobre fotografia. Um dia pediu a uma jovem para lhe fotografar o rosto e para sua (grande?) surpresa, a jovem despiu-se completamente. O corpo despido para o fotógrafo mas não revelado na fotografia transformou o seu rosto: a luz da nudez iluminava-o em segredo.
fotografia de Paolo Roversi