sábado, 30 de janeiro de 2010

Greguerías # 139 / A imaginação

A imaginação nunca tem a lotação esgotada.
ilustração de Tiago Manuel

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Jogar às cartas


Todos os carteiros deviam jogar às cartas. Não com as cartas de jogar, sempre enfadonhamente iguais (não obstante elas se acharem absolutamente diferentes) e sem vida interior, mas com as cartas que transportam todos os dias consigo, levando palavras a chocalhar e por vezes até um coração a bater com cuidado, para não ganhar muito volume (fora todos os números das cartas dos bancos, da EDP, da Optimus, das finanças, da Epal e do Círculo de Leitores), de um lado para o outro. Teriam de ler e tomar nota de todas as cartas pessoais (aquelas que não tinham números) que entregavam, para quem eram e de quem vinham. Caso essa carta estivesse mais de um mês sem receber resposta, eles próprios a escreveriam, não se sabe bem com que consequências. Podia acontecer que a carta que escrevessem ficasse também ela sem resposta e então, um mês depois, estariam a escrever para si próprios, fingindo não o saber.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

The Hungry Eye # 33

Muitas vezes, quando olhamos uma fotografia, esquecemo-nos de procurar onde se escondeu o fotógrafo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

A melhor metáfora viva para a morte

- "Porque é que a morte é a primeira noite de tranquilidade"?
- "Porque finalmente se dorme sem sonhar".

domingo, 17 de janeiro de 2010

A claustrofobia

Há quem tenha claustrofobia retrospectiva só de se imaginar de novo encerrado, antes de nascer, dentro da barriga da mãe. Há quem tenha claustrofobia prospectiva e se aflija com a ideia de ficar fechado debaixo da terra, depois de morto. Há quem tenha claustrofobia existencial e se sinta encerrado na sua vida. Há quem tenha claustrofobia selectiva e ande de metro, mas não de avião. Ou de elevador, mas não de metro. Há quem tenha claustrofobia linguística e só ande no elevador da Glória se lhe disserem que é um eléctrico. A minha claustrofobia é literária. Estou fechada nesta ficção sem porta. O tecto desce com o peso dos meus pensamentos. As paredes de papel aproximam-se. As palavras negras sonham em juntar-se. O espaço em branco entre cada palavra comprime o meu corpo e apenas me deixa com fôlego até à palavra seguinte. Ser a protagonista de uma história lida por milhões de pessoas leva-me para todo o tipo de sítios fechados: elevadores, quartos de criança, mochilas de escola, estantes com vidros, gavetas, aviões, pesadelos, malas, comboios e até para a escuridão de uma sala de cinema. Podem dizer-me como saio daqui? Não se deixem enganar pelas janelas. São falsas, como quase tudo nesta história.

sábado, 16 de janeiro de 2010

The Hungry Eye # 32

O Photomaton é o confessionário do rosto.

domingo, 10 de janeiro de 2010

O carteiro dos mortos

Neste blogue de tendências mórbidas, a autora escreve cartas quase telegráficas e em fundo negro a pessoas mortas e cujos nomes foram sugeridos pelos leitores, as queridas pessoas vivas. Kurt Cobain, Sylvia Plath, Sócrates, Albert Camus, Lewis Carroll, Galileu, Van Gogh, Jack Kerouac e Dostoiévski, este último com erro ortográfico, são alguns destinatários destas cartas sem envelope, morada ou selo. Qual será o código postal do país dos mortos?

http://letterstodeadpeople.tumblr.com/

sábado, 9 de janeiro de 2010

Desejo do invisível

A nudez, por vezes literal, mas sempre metafórica, é o desejo do fotógrafo. O seu olhar quer arrancar todas as películas de roupa, tecido, pele, artifício e sentido sem a ajuda das mãos. Quer possuir o segredo particular do ser fotografado, revelado sob a forma universal da imagem. Mesmo quando simula uma paixão pela matéria, o fotógrafo tem o desejo do invisível.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Um bilhete de comboio para a vida

Passaram já 50 anos sobre esse dia. Embora não fosse muito provável, Albert Camus podia ainda estar vivo. Contaria 97 anos. Mas para isso, era preciso ter usado o bilhete de comboio encontrado no bolso do casaco, quando o seu cadáver foi retirado dos destroços do automóvel em que seguia para Paris. Uma mudança de ideias à última da hora determinou a troca da planeada viagem de comboio pelo carro veloz do editor Michel Gallimard, que veio a colidir com uma árvore, provocando a morte imediata e prematura do escritor francês aos 47 anos. O que teria acontecido se Albert Camus tivesse seguido de comboio? Quantos anos mais teria vivido? Além do romance inacabado O Primeiro Homem, cujos manuscritos foram encontrados na sua mala, quantas obras deixou por escrever? Que títulos teriam? Quantos cigarros deixou por acender? A imaginação tinge-se de preto. Foi o destino, pensamos, esquecidos de que o destino é o nome que damos a tudo o que aconteceu. O destino é tudo aquilo que já não conseguimos imaginar não ter acontecido.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Os saltos altos

Os saltos altos têm uma lógica só deles. O meu rosto chega a outro andar do espelho e o homem que me inventou parece pequeno ao pé de mim. A maior magia dos saltos altos é afastarem a monotonia da vida. O seu grande paradoxo é darem poder mas tirarem mobilidade. Não se pode fugir de nada nem de ninguém em saltos altos. Nem mesmo de uma aventura. E como se isso não bastasse, no país das maravilhas os saltos altos também funcionam no sentido horizontal e são saltos compridos. Só pode ser por isso que, mesmo deitada, não caibo na casa.

The Hungry Eye # 28

Há fotografias que nos fazem perguntas, sem contudo conseguirem tirar-nos as respostas. Quando é que inventam uma posição nos botões da máquina para fotografar almas, semelhante à que existe para os rostos e para as paisagens? A pele do ombro tem mais nudez do que a pele da mão? A camisola esconde um bolso onde guardar os olhos? A que distância mínima podemos estar de outro corpo sem o ver desfocado? O olhar banaliza a nudez? Quando abrir os olhos, já terás escolhido o fio de luz com que me queres tocar? Uma velha crença infantil invade-me: se tapar os olhos, não me vêem. E se não me vêem, como poderiam tirar-me uma fotografia ou dar-me uma pergunta? As mãos só acreditam no invisível de vez em quando.