O fotógrafo é o mago que tira rostos da cartola.
terça-feira, 30 de junho de 2009
segunda-feira, 29 de junho de 2009
À procura de uma legenda

As fotografias têm formato standard para que seja fácil encontrar uma moldura que lhes faça companhia. Uma multiplicação simples de centímetros em madeira ou metal abraça o corpo de papel. A solidão, não. É da ordem do peso invisível, uma balança que dá números negativos e tira medidas a ausências subjectivas. Todas as fotografias trazem uma solidão que não cabe no seu corpo nem se pode encerrar numa moldura. Como se na própria fotografia, um olho invisível, furado na pele de luz e sombra, deixasse transbordar o olhar que estende as mãos. As fotografias a preto e branco são ainda mais solitárias do que as outras. Falta-lhes a presença do real, com as suas reconfortantes cores. Concentram o essencial, ampliam a solidão e dizem ao tempo que não as pode emendar na sua irrealidade a dois tons. Lembram a cama de casal onde dois corpos encontram sempre espaço para não se tocarem. Nunca apetece tanto imaginar um pensamento como quando ele se esconde a preto e branco. É como se tentássemos ver um sonho que não nos pertence. Todas as fotografias pedem ao olhar: encontra uma legenda para mim, sei que me sentiria menos só na companhia de algumas palavras. Porque será que as molduras não trazem alguns centímetros a mais, onde caiba pelo menos um adjectivo que ilumine e faça companhia à solidão revelada?
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Alice # 29 / O sorriso do gato
Por que sorri o gato? Ele ri-se das explicações que inventaram para o seu sorriso. Terá engolido um quarto minguante de queijo ou um quarto crescente de lua? Estará a ter um ataque de cócegas ou acabou de fazer um silogismo aristotélico com humanos? Será o gato mais trocista da história ou a sua capacidade de aparecer e desaparecer, servindo duas verdades, diverte-o assim tanto? Terá descoberto que a linha que separa a genialidade da loucura é mais fina do que um só dos seus longos bigodes? Desconfiará que a ciência projecta sombras na noite? Acreditará que o segredo da sedução é carregar no botão da descontinuidade? Saberá ele que um sorriso ambíguo abala todas as certezas e alimenta quase todas as palavras? O gato sorri porque não vai desfazer o equívoco. Mas o gato sorri, porque ri só. Só, ri. Há sempre uma solidão no sorriso, não perguntem porquê.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
O leque

O leque é uma pequena cortina móvel no teatro de uma conversa. O leque é um objecto teatral e é sempre indiscreto. Mostra descaradamente que está a esconder. É uma mão de seda com muitos dedos bem coreografados. É um gesto com cerca de 30 centímetros que se imita a si próprio enquanto faz o trabalho da invisibilidade. Não deixa ler o segredo que se está a dizer. Não deixa ver as imagens que permanecem por traduzir. Não deixa que alguém entre neste recanto da história. Ondula as palavras, dá corpo ao sorriso, coloca o tempo na penumbra. Diz que o silêncio se estende na linha do seu horizonte arredondado, lá onde se estilhaçam os cristais das palavras. O leque, máscara flutuante, concentra toda a malícia no olhar. Mas também, além de mim, quem acredita que um coelho possa falar?
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